Como reduzir o risco de contágio de covid-19 nas escolas — Gama Revista

Saúde

Como reduzir o risco de contágio de covid-19 nas escolas

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Crianças propagam mais o coronavírus do que os médicos imaginavam. Aqui, sugestões do que as escolas podem fazer para serem ambientes mais seguros

Phyllis Sharps e Lucine Francis* 06 de Outubro de 2020

As primeiras escolas americanas mal reabriram suas portas para as aulas presenciais e alguns alarmes sobre o quão rapidamente o coronavírus pode se espalhar a partir delas já começaram a disparar.

O distrito escolar do Condado de Cherokee, na Geórgia, ao norte da capital Atlanta, tinha mais de cem casos confirmados de covid-19 ao final da segunda semana de aula. Outros 1.600 estudantes e funcionários foram mandados para casa após serem expostos a pessoas infectadas. Na terceira semana, três colégios do distrito voltaram temporariamente ao ensino à distância. Escolas no Mississippi, Tennessee, Nebraska e outros estados também reportaram diversos casos da doença, quarentenas e fechamentos temporários.

Decidir pela abertura de escolas para aulas presenciais durante uma pandemia é uma decisão complexa. Crianças geralmente aprendem melhor na escola, onde têm contato direto com professores especializados e vivem o aprendizado socioemocional que vem com a proximidade de outras crianças. Mas também se arriscam a espalhar a doença para seus professores e familiares sem ter qualquer consciência da infecção.

Há escolhas importantes que podem ajudar a manter estudantes, familiares e docentes em segurança

Para os colégios que optam por reabrir, há escolhas importantes que podem ajudar a manter estudantes, familiares e docentes em segurança. Como professores de enfermagem, estamos acompanhando pesquisas em fase de desenvolvimento sobre os riscos de crianças contraírem ou espalharem a covid-19, e temos alguns conselhos a oferecer.

Quão contagiosas são as crianças?

Inicialmente, parecia que o coronavírus tinha efeito mínimo em crianças e que elas não infectavam outras pessoas tão facilmente, mas novas pesquisas estão mudando essa visão.

Um amplo estudo publicado na Coreia em julho descobriu que jovens com idade entre dez e 19 anos eram tão propensos a espalhar o vírus quantos os adultos. Já crianças mais novas supostamente infectavam menos pessoas. Porém, um hospital de Chicago descobriu que menores de cinco anos com covid-19 em nível leve ou moderado tinham mais material genético do vírus presente nas vias respiratórias superiores do que crianças mais velhas e adultos.

Um surto de coronavírus num acampamento de verão na Geórgia mostrou com clareza como pequenos de todas as idades são suscetíveis à infecção: 51% dos campistas de seis a dez anos receberam testes positivos assim como 44% daqueles com idades de 11 a 17.

Em meados de agosto, dados de vários estados apontaram que as crianças representavam cerca de 9,1% de todos os casos notificados de covid-19, e que a média tinha pulado para 538 casos a cada 100 mil crianças. A Academia Americana de Pediatria revelou um aumento acentuado no número de crianças americanas com testes positivos, o que sugere que o número de infectados entre elas era maior do que o imaginado.

Qual o grau de risco para as crianças?

Crianças em geral têm sintomas mais leves do que adultos. Em corpos jovens, a doença pode se apresentar como febre, nariz escorrendo, tosse, garganta inflamada, dificuldade de respirar, fadiga, dores de cabeça e musculares, náusea ou diarreia. Pesquisas também sugerem que crianças podem desenvolver mais problemas estomacais e diarreia comparadas aos adultos.

Porém, isso não vale para todas. Algumas morreram ao contrair covid-19, e outras desenvolveram complicações graves após aparentemente terem se recuperado.

Assim como os adultos, as crianças enfrentam um risco maior de desenvolver sintomas graves se tiverem condições clínicas prévias

Assim como os adultos, as crianças enfrentam um risco maior de desenvolver sintomas graves se tiverem condições clínicas prévias como diabetes, obesidade, asma, doença nos pulmões, sistema imunológico suprimido, doenças cardíacas congênitas e sérias enfermidades genéticas, neurológicas ou metabólicas. Mesmo aquelas sem nenhuma dessas condições ainda podem acabar na UTI por causa da Covid-19.

Em casos muito raros, várias semanas após contrair o vírus, crianças desenvolveram síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (MIS-C), com sintomas parecidos com os da doença de Kawasaki, que incluem febre, erupções na pele, problemas gastrointestinais, inflamação, choque e danos ao coração. Ao menos seis morreram nos EUA em casos como esses.

Uma grande preocupação para as escolas é que crianças infectadas e sem sintomas podem espalhar a doença silenciosamente para seus professores e amigos, que então a levam para casa até seus familiares, atingindo a comunidade.

Caminhos para manter crianças e suas famílias seguras

Se uma escola decide reabrir para aulas presenciais, ainda assim o ambiente não será o mesmo que os estudantes encontraram antes do fechamento. Oficiais de saúde terão de tomar decisões difíceis que, no fim das contas, afetarão a vida escolar.

Aqui vão recomendações que as escolas devem seguir para ajudar a manter crianças, familiares e funcionários em segurança:

● Fazer diariamente verificações de sintomas nos alunos, incluindo checagem de temperatura, mas sempre lembrando que o vírus começa a se espalhar antes mesmo de os sintomas darem as caras.

● Se possível, realizar testes rápidos. Eles podem apontar pessoas infectadas e assintomáticas, apesar de serem caros, difíceis de conseguir e terem taxas mais altas de falsos positivos do que testes PCR (reação em cadeia da polimerase), que demoram mais.

● Garantir que todos aqueles aptos a usar uma máscara facial estejam com ela. Pesquisas mostram que o coronavírus se espalha primeiramente pelo ar. A máscara pode limitar quão longe um infectado espalha o vírus e o quanto as pessoas inalam dele ao respirar.

● Em vez de obrigar os alunos a ficarem trocando de sala, mantê-los juntos e fazer com que professores vão de uma classe a outra para limitar o contato nos corredores. Também é recomendável dar aulas a céu aberto sempre que possível e garantir que o ar externo circule pelas salas.

● Suspender atividades extracurriculares com alto risco de transmissão, como aulas de canto e esportes de contato físico. Algumas atividades são menos arriscadas, como tênis, natação e corrida.

● Limpar com frequência áreas de alto contato, como banheiros e maçanetas.

● Garantir que estudantes estejam com a imunização em dia e tomem a vacina contra gripe.

● Estar pronto para prestar apoio emocional e comportamental aos alunos que estão lidando com experiências estressantes e em alguns casos traumáticas durante a pandemia.

● Contratar um enfermeiro. Durante uma pandemia como essa, toda escola deveria ter um funcionário de saúde para checar os sintomas e gerenciar doenças, mas muitas não possuem um que atue em tempo integral.

As escolas devem ter um planejamento e estar preparadas para alterá-lo a qualquer momento. Se os alunos e funcionários forem infectados ou a instituição não puder atender os requisitos de segurança, será necessário oferecer novamente a possibilidade de fazer aulas online.

A covid-19 representa uma oportunidade para refletir sobre as desigualdades no ensino e as desvantagens que muitos estudantes têm sem as aulas presenciais. Após os destroços deixados pelo coronavírus, todos os membros da comunidade escolar precisarão trabalhar juntos para desenvolver soluções inovadoras e sustentáveis que beneficiem os estudantes que mais sofreram por causa da pandemia.

*Publicado originalmente em The Conversation, em inglês. Traduzido por Leonardo Neiva

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