Arruda e Guiné — Gama Revista
COLUNA

Bianca Santana

Arruda e Guiné

Na ausência de benzedeira, um banho de folhas ajudaria a romper com mais um desânimo dessa pandemia

26 de Agosto de 2020

Passei as duas últimas semanas desanimada. Quem não? No domingo veio o sol e sentei para ler na varanda. Em meio ao ensaio de Toni Morrison, subiu o cheiro doce da arruda. “O que eu precisava é que a imaginação servisse de esteio aos fatos, aos dados brutos, e não fosse esmagada por eles. Imaginação que personalizasse a informação, que a tornasse íntima, mas que não se oferecesse como um substituto. Se a imaginação pudesse fazer este papel, então haveria a possibilidade de conhecimento. Quanto à sabedoria, eu não tocaria nisso, claro, e deixaria aos leitores a tarefa de produzi-la.”+ E então a planta me arrancou do livro e voltei ao quintal da vó Maria, mãe do meu pai. Reproduzir com os galhos da arruda os movimentos e a reza da vó nos bichinhos que aparecessem e nas crianças que aceitassem era das minhas brincadeiras preferidas.

Na ausência de benzedeira, um banho de folhas ajudaria a romper com mais um desânimo dessa pandemia. Mirra, lavanda, boldo, alecrim, manjericão. Faltava uma para as sete. Atrás do banco de madeira estava a guiné. Bacia de ágata com água, copo d’água ao lado. Macera, coa. Depois do banho de chuveiro, a água de cheiro fria, do pescoço pra baixo. Nada de enxugar o corpo com toalha. E saio outra.

Por que tantas vezes me perco de mim? E esqueço dos tantos instrumentos e técnicas disponíveis para curar? Para insurgir em silêncio? Para interromper? É que eles fazem tanto barulho!

Guiné, petiveria alliaceae L., da família Phytolaccaceae, originária das Américas, também tem o nome popular de amansa-senhor. Sobre ela, Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo, etnofarmacobotânica, publicou um artigo, em 2007, chamado “Amansa-Senhor: A Arma dos Negros Contra seus Senhores”. No estudo, a pesquisadora parte das relações entre o nome atribuído por pessoas negras escravizadas à planta e os registros históricos das “perturbações mentais” a que eram acometidos os chamados senhores de escravos quando tomavam, sem saber, doses pequenas e prolongadas da planta. E então apresenta dados fitoquímicos e farmacológicos.

Saber compartilhado por mulheres que cuidam de si, apesar dos fundamentalismos e do patriarcado

A pesquisa bibliográfica de Maria Thereza mostra que, desde o século 19, até a metade do século 20, estudos descreviam o envenenamento provocado pela administração de amansa-senhor sozinho ou combinado com outras ervas: superexcitação, insônia e alucinação, seguidos pelos sintomas opostos de indiferença, fraqueza, pequenas convulsões, imbecilidade, podendo levar à morte ao final de um ano. No final do século 20, estudos fitoquímicos e farmacêuticos demonstraram a existência de um princípio ativo hipoglicêmico na planta. Em termos científicos: “Experiências com extratos do pó das folhas e do caule foram realizadas em rato, em 1990, quando apresentaram diminuição do nível de açúcar no sangue em mais de 60%, após 48 horas da administração. Este efeito se deve ao Pinitol (3- 0-metil-quiroinositol), um fosfoglicano endógeno de baixo peso molecular, o qual exerce um efeito semelhante à insulina, no controle da glicemia. Age por um mecanismo de pós-receptor aumentando a captação de glucose (…) a síndrome da hipoglicemia termina em coma e morte.” Não é impressionante o conhecimento condensado e disseminado por negras e negros em um nome popular?

Amansa-senhor, ou guiné, também é utilizado como diurético, analgésico, antirreumático, abortivo, dentre outras atividades terapêuticas+. Na varanda da minha casa, tem a função de limpar e proteger, assim como a arruda. Cada qual ao seu modo. Um galho de arruda na orelha cura dor de cabeça, afasta mau olhado e quebranto. Garrafada de arruda ou a erva em um escalda-pé bem quente ajuda a menstruação a descer: saber compartilhado por mulheres que cuidam de si, de suas comunidades e do ciclo da vida desde sempre, apesar dos fundamentalismos e do patriarcado.

Bianca Santana pesquisa memória e a escrita de mulheres negras. É autora de 'Quando Me Descobri Negra'. Pela Uneafro Brasil, tem colaborado na articulação da Coalizão Negra por Direitos

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