Coluna Bianca Santana: Lia — Gama Revista
COLUNA

Bianca Santana

Lia

A humanidade quase todinha se sente convidada a encarar a possibilidade de morte iminente. Desejo que tenham a coragem de buscar mais respostas

13 de Maio de 2020

Quantas vezes brincamos que nossas cartas precisavam estar organizadas para facilitar o trabalho de quem quisesse espiá-las no futuro? Nesta noite de lua cheia de Buda, sagrada para você e para tantos povos, te escrevo uma que mostrarei para outras pessoas. Faz tempo que nossa comunicação não precisa de palavras. Concordamos que a escrita pessoal é política. Sinto-me, então, autorizada.

Há dois anos, antes de a atenção coletiva se voltar à respiração e aos pulmões, você foi convidada a investigá-los. O diagnóstico impreciso de câncer, para as mutações que a medicina não explica, foi a resposta possível para as dores intensas que te acompanhavam havia mais tempo. Otto, como você nomeava os tentáculos de dor que se espalhavam pelas suas costas, não era provocado pela Natasha, nome da versão má da cicatriz que te marcou depois de uma queda de skate, seguida de ombro fraturado e cirurgia dolorosa. Ele estava no seu corpo desde antes da queda. Mas a ciência ainda não consegue explicar os motivos.

Taoísmo. Meditação. Pílulas quimioterápicas. Adesivos de morfina. Um monte de remédios estocados em uma frasqueira preta, outros organizados em um saco de tecido. Chás, música, boa companhia. Aquarela, lápis de cor. E histórias, muitas histórias, te ofereceram conforto, compreensão e expansão da consciência quando seu corpo já era uma casquinha frágil.
Há uma hora e meia você se foi. Parou de respirar um dia depois de não conseguir mais tomar banho sozinha. Quarenta dias depois de depender de um concentrador de oxigênio. Pôde se despedir das pessoas que ama, se preparar, investigar e aceitar a morte antes de vivê-la.

Mas não é curioso que você vá exatamente agora? Durante a pandemia? Quando o enterro pode ter no máximo dez pessoas e o velório exige distanciamento físico? Há menos de uma semana você disse sentir que ainda tinha algo a aprender, por isso ainda estava aqui. Eu pensei que você ainda deveria ter algo a ensinar. Talvez sobre a morte e o morrer.
“A Dança de Clarice e o Polvo: Cartografia de um Corpo em Busca da Cura (ou Vida) Por Meio da Pesquisa de Si e da Escrita Autobiográfica”, sua corajosa pesquisa, começa com duas epígrafes que deveriam ser lidas, relidas, pensadas e discutidas nesses dias:

“Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não conseguem expandir e se elevar, porque querem ignorar a morte”, Davi Kopenawa, em “A Queda do Céu” (Cia das Letras, 2019).

“A maioria das pessoas morre despreparada para morrer, como viveu despreparada para viver”, Sogyal Rinpoche, em o “Livro Tibetano do Viver e do Morrer” (Palas Athena, 2013).

Refletir sobre a morte não tem relação com a negligência violenta do ‘E daí?’. Trata-se da escavação generosa de compreender e cuidar da vida

Estamos em uma investida mundial, com exceção de genocidas perversos e inomináveis, de evitar que o coronavírus provoque a morte de mais pessoas. Mesmo sabendo que a morte é o destino de todas e todos nós. Refletir e falar sobre a morte — como Kopenawa, budistas e você convidam — não tem relação alguma com a negligência violenta do “E daí?” ou do relativismo criminoso de “A humanidade não para de morrer. Sempre houve tortura”. Trata-se da escavação generosa de compreender e cuidar da vida.

Destaco um trecho do resumo do seu trabalho precioso:

“Uma seleção de situações são descritas em pílulas narrativas protagonizadas por Clarice, jovem mulher branca, de classe média, que ao ter de encarar a possibilidade da morte iminente inicia um processo de desaprendizagem. As cenas são disparadores para diálogos com discursos que constroem regimes de verdade (Foucault) separando natureza e cultura, corpo e espírito (Kopenawa, Krenak), definindo as noções de saúde e doença (Laqueur, Han), fixando gêneros (Rubin, Butler), estabelecendo hierarquias de dominação do homem branco sobre todos os demais seres humanos e não humanos (Beauvoir, Kilomba, Ribeiro, Castro), defendendo ser a ciência moderna o melhor caminho para a busca pela cura. E quando estas verdades não apresentam respostas?”

Minha amiga, a humanidade quase todinha se sente agora convidada a encarar a possibilidade de morte iminente. Desejo, nesta noite iluminada em que te sinto tão perto, que todas as pessoas tenham a coragem de buscar mais (tantas vezes chamadas de outras) respostas.

Você teve condições plenas para viver e para morrer, como sempre reconheceu que a maioria das pessoas não tinha, e aproveitou todo o conforto, conhecimento, estrutura para vivenciar a partilha, a solidariedade e a busca por comunidade. Confesso que eu me sentia muito distante da mulher-bem-sucedida-padrão-de-beleza-vida-perfeita que via de longe. Até você chegar na minha casa com pão, bolo, suco de uva e um livro, no meio da semana que seria a última de gestação de um bebê pélvico, sentado na minha barriga. Você pausou o trabalho e a rotina apertada de mãe de duas crianças para me oferecer um lanche da tarde com poderes de interromper a angústia e os medos. O tipo de cuidado que só gente muito grande pode oferecer. Obrigada por esse dia e por tantos e tantos e tantos e tantos outros. Te amo, Lilica borboleta.

Bianca Santana pesquisa memória e a escrita de mulheres negras. É autora de 'Quando Me Descobri Negra'. Pela Uneafro Brasil, tem colaborado na articulação da Coalizão Negra por Direitos

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