Coluna da Bianca Santana - Quilombismo — Gama Revista
COLUNA

Bianca Santana

Quilombismo

A existência negra é possível na articulação comunitária, baseada em valores culturais africanos, no exercício da liberdade e da dignidade dos quilombos

01 de Julho de 2020
Reprodução de “Quilombismo (Exu e Ogum)”, de Abdias Nascimento, 1980, EUA

Beth Beli estava no meio da rua. Vestia uma espécie de figurino em tons de verde e ocre. Na cabeça, uma coroa afrofuturista quase passava despercebida. Porque o foco era o rosto concentrado da mulher que regia o silêncio. O bloco afro Ilú Obá de Min, das mais de 400 batuqueiras comandadas por ela, não compunha a cena. Mas as calçadas estavam repletas de pessoas que não faziam barulho algum, atentas ao movimento de braços da mestra, que daria o sinal a qualquer momento.

À frente de Beth, alguns metros distante naquela rua vazia emoldurada por calçadas cheias, estava Sueli Carneiro. Sua presença tranquila parecia orientar o caminho. Nenhum movimento ou palavra era necessária. A presença luminosa bastava. Atrás de Beth Beli, Luis Gama. Vestido nos trajes masculinos formais do final do século 19. Uma imagem em sépia. Ele foi o único a falar: “Não se esqueçam. Eu estava perto do poder.” Mesmo sem movimentar a boca, as palavras ecoavam pausadamente.

“Exu
tu que és o senhor dos
caminhos da libertação do teu povo
sabes daqueles que empunharam
teus ferros em brasa
contra a injustiça e a opressão
Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama
Cosme Isidoro João Cândido
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô iluminando nossa luta
atual e passada”

As estrofes do poema “Padê de Exu libertador”, que Abdias Nascimento escreveu em 1981, confirmam uma percepção. Apesar de Xangô ser o orixá da justiça, e Luís Gama ser o homem que libertou tantas pessoas escravizadas por meio dos tribunais e das leis, há Exu em Luís Gama.
No sonho, portanto, há Ogum, Oxóssi e Exu no meio da rua. E não é que o próprio Abdias já havia pintado, em 1980, a imagem evocada neste sonho de 2020? Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje, afinal.

O legado do quilombismo é também possibilidade de futuro. Conexão de temporalidades na encruzilhada. Ou melhor, na EXUzilhada

O nome da tela, pintada em óleo: “Quilombismo (Exu e Ogum)”. Mas quem é que não vê o arco de Oxossi destacado? Quilombismo, conceito apresentado por Abdias em 1980. Conceito mesmo, na densidade que um conceito carrega. Nas palavras do autor: “um conceito científico emergente do processo histórico-cultural das massas afro-brasileiras”. Em resumo por mim vulgarizado: da realidade de violência e escassez imposta na diáspora, a existência negra é possível na articulação comunitária, baseada em valores culturais africanos, no exercício da liberdade e da dignidade dos quilombos, com autodefesa, modelo socioeconômico próprio, organização política verdadeiramente democrática. “(…) uma unidade, uma única afirmação humana, étnica e cultural, a um tempo integrando uma prática de libertação e assumindo o comando da própria história. A este complexo de significações, a esta práxis afro-brasileira, eu denomino de quilombismo”, escreveu Abdias em “Consciência Negra e Sentimento Quilombista”, que compõe o Documento 7 dos dez que estão organizados no livro “Quilombismo”*, de 1980.

O legado do quilombismo é também possibilidade de futuro. Conexão de temporalidades na encruzilhada. Ou melhor, na EXUzilhada, como ensina Cidinha da Silva. É a rua desbravada e protegida por Sueli Carneiro; preparada para a flecha certeira de Beth Beli; aberta, movimentada e desafiada por Luís Gama. Mandinga para a travessia necessária.

“Precisamos e devemos codificar nossa experiência por nós mesmos, sistematizá-la, interpretá-la e tirar desse ato todas as lições teóricas e práticas, conforme a perspectiva exclusiva dos interesses da população negra e de sua respectiva visão de futuro. Esta se apresenta como a tarefa atual da geração afro-brasileira: edificar a ciência histórica-humanista do quilombismo”, escreveu Abdias Nascimento. Quem tiver disposição para isso, preste atenção aos sinais. Conecte-se à energia expandida dos tambores da mulherada do Ilú Obá de Min, antes do “Laroiê” na voz de Nega Duda. Naquele silêncio que pulsa antes da batida no couro.

*Hoje na terceira edição, lançada em 2019 pela editora Perspectiva

Bianca Santana pesquisa memória e a escrita de mulheres negras. É autora de 'Quando Me Descobri Negra'. Pela Uneafro Brasil, tem colaborado na articulação da Coalizão Negra por Direitos

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