'The Clock' — Gama Revista
COLUNA

Fernando Henrique

‘The Clock’

Nós não somos e não seremos iguais enquanto eu tiver três vezes mais chance de ser assassinado pela polícia do que você

15 de Junho de 2020

O tempo é a razão. O momento é a regra. O agora é um momento que me assombra e me persegue.

Já são quase nove anos da visita ao Centro George Pompidou, museu de arte contemporânea em Paris, em que admirei a obra-prima de Christian Marclay, “The Clock”. O artista suíço-americano em individual exibia o trabalho que explora sons de uma forma visível e física.

No canto da tela, um relógio mostra o presente momento. A obra é um vídeo com duração de 24 horas composta de mais ou menos três mil cenas de filmes e séries de televisão de todas as épocas. A ideia é a reconstituição de um dia. A particularidade deste trabalho é o foco no ritmo do que acontece, tudo em tempo real – o que permite o visitante interagir ou se sentir parte do universo proposto.

Viver isso tudo que propõe Marclay faz com que, em muitos momentos, seja difícil respirar. Sair daquela sala escura que pede ar, incita a tomar um café e, na sequência, implora por muita conversa.

São cenas e mais cenas de sua experiência somada à sua realidade, somada ao seu momento, somado ao seu tempo. O desafio? Parar e se ver naquele momento. Machuca.

Mestre na arte de procurar beleza na dor, eu volto ao passado do gênio e é impossível não lembrar do vídeo “Guitar Drag” (2000), em que uma guitarra Fender Stratocaster está sendo arrastada atrás de uma caminhonete pelas estradas do Texas. As imagens intrigam.

A obra faz uma alusão ao assassinato de James Byrd Jr., um afro-americano assassinado em 1998. Ele foi arrastado por uma caminhonete conduzida por um homem branco até a morte.

Coincidências à parte, estou no Texas, quase 20 anos depois do vídeo e mais de 20 do assassinato de Byrd — e vejo sangue derramado. Estou na parte de um filme mais recente: são quase nove minutos de um policial branco com o joelho no pescoço de outro homem negro, que poderia ser eu, meu pai, meu irmão, meu primo, meu melhor amigo e, no final, ele diz: “I Can’t Breathe” (eu não consigo respirar). Fim.

Uma avalanche de protestos deu cor a todas as emissoras de TV do mundo. É a primeira vez na minha vida de repórter, com mais de dez anos de experiência, que vi o maior número da história de jornalistas NEGROS E NEGRAS frente às câmeras retratando o evento.

Dia 9 de junho de 2020. Sigo o cortejo fúnebre do afro-americano, segurança, de 46 anos, assassinado. Deixa família, filhos e amigos.

Palavra nenhuma consegue descrever isso.

Caminhar nas ruas de Houston, no Texas, faz de mim um homem divido em dois: aquele que narra e aquele que está prestes a inventar suas proprias leis. Dias e mais dias de protestos em todas as partes dos Estados Unidos e do mundo me trouxeram aqui para cidade onde Floyd passou sua adolescência.

Viver a mudança de uma nova ‘conscientização racial’ pede uma dose de ‘doçura de burrice’ para aliviar a dor

Viver a mudança de uma nova “conscientização racial” pede uma dose de “doçura de burrice” para aliviar a dor. As horas passam, e as reflexões não param. Minha conclusão é que George Floyd cometeu um crime: nasceu “preto”. Minha entranha está dilacerada.

Eu também sou um criminoso identificado pela história e pelo social: eu nasci “preto”.

Floyd se tornou símbolo da luta contra a discriminação racial e perde sua liberdade para que eu e alguns de vocês, talvez, possamos ter a nossa.

Dizer que a vida dos negros importa é essencial, mas dizer isso para nós, sinceramente, não muda nada. Eu nasci sabendo disso; aliás, minha mãe já sabia antes disso. Agora, o que eu e todos os outros ainda não sabemos é: importante para quem?

As importâncias aparecem dessa forma: “Racismo é mimimi?”; “FH, sinceramente, hoje, não se pode mais fazer piada porque as pessoas se ofendem”; “Posso tocar seu cabelo?”; “Você tem pau grande?”; “De onde você é, do Brasil? Sério? É o único negro brasileiro que conheço”; “Ei, pega aqui e leva minhas sacolas, é o Honda Civic branco à direita”; “Cara, os pretos são mais agressivos, olha como eles falam alto”; “Olha esse negão, que cara mal-humorado”; “Sobe o vidro, olha o cara que está vindo”; “Parece um macaco”; “Preto filho da puta”; “Tinha que ser preto”; “Coisa de preto”; “Nem parece que você é negro, você é muito educado”; “Você foi educado como um branco”; “Você fala muito bem português”; “Você fazia limpeza ou trabalhava em bar em Paris?”; “Você sabe onde eu posso comprar maconha?”; “Você se parece muito com um negão que conheço, ele tem um bocão e um nariz grande assim igual a você”; “Você é ‘veado’? Para, negão, não ‘queima’ a raça”; “Não vou ter mais amigos negros só para você se sentir melhor”; “Adoro sua cor”; “Obrigado por você existir”.

“Você acha que todo mundo é racista, eu estou com você e sou igual a você.”
O que Floyd, eu e tantos outros temos em comum é que somos fruto da desigualdade social. Nós não somos e não seremos iguais enquanto eu tiver três vezes mais chance de ser assassinado pela polícia do que você.

Meus 15 minutos de fama, quando minha voz de jornalista é ouvida, seguidos dos quase nove minutos da morte de Floyd, geraram 24 horas de um filme chamado vida real. Meu filme é marcado por um verdadeiro sentimento: o ódio.

Fernando Henrique é jornalista e produtor cultural, mestre em Economia da Arte e em Projetos Culturais para Espaços Públicos pela Sorbonne, na França. É correspondente da CNN Brasil em Nova York

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