Coluna do Fernando Luna: 'Antologia profética' Gama Revista
COLUNA

Fernando Luna

Antologia profética

Versos desgraçadamente atuais sobre fake news, George Floyd e coisas inocentes

08 de Junho de 2020

Poesia é profecia. De repente, não mais que de repente, aquela combinação exata de palavras, cuidadosamente aprumadas em um tempo e espaço mui distantes, parece falar do aqui e agora. É como um salto mortal semântico: o poema mergulha numa piscina de colágeno, joga água nos puristas e rejuvenesce seus significados.

(Prometi nunca escrever a palavra “ressignificar” ou suas variações.)

Como diz Drummond, o bicheiro Luizinho não o poeta Carlos, vale o escrito: as palavras são imutáveis, mas a leitura sempre pode ser revista e atualizada. Sob a mira de um olhar atual, o trovador provençal canta as últimas notícias, o bardo grego rima os trending topics e o parnasiano aguado recita os acontecimentos do dia. Gambiarras na máquina do mundo. Vide verso:

“QUEM NÃO ESTIVER
SERIAMENTO
PREOCUPADO E/
PERPLEXO/ NÃO ESTA
BEM INFORMADO”

Esse é “Disseram na Câmara”, poema que Francisco Alvim incluiu em seu livro “Dia Sim Dia Não”. Parece familiar, e é mesmo. Desde sua publicação, em 1978, já são 42 anos de preocupação e perplexidade, sem tirar de dentro. O que mudou de lá para cá foi apenas o nível de preocupação e perplexidade.

Como qualquer um sabe, estamos isolados num gráfico em escala exponencial de preocupação e perplexidade sanitária, econômica e política. Como qualquer um sabe? Antes fosse. Esqueci daquele pessoal “que não está bem informado”. Ainda tem muita gente nessa categoria.

Uma pesquisa recente mostra que 26% da população considera o governo Jair Bolsonaro ótimo ou bom. Considerar um governo isso que acontece em Brasília já é um espanto. Calcular que 26% equivale a uns 54 milhões de brasileiros é outro espanto.

Os incautos de 1978 podiam colocar a desinformação na conta da ditadura militar e sua censura. O ministro da Justiça era Armando Falcão, que repetia como um corvo aos jornalistas: “Nada a declarar, nada a declarar”. Uma espécie de “e ponto final” e “tá okey” avant la lettre.

Hoje ninguém pode usar ditadura ou censura como desculpa para falta de informação – e vamos fazer de tudo para continuar assim. Fake news é o último álibi da ignorância. Depois disso, é fascismo mesmo.

“O MUNDO PARA TI
FOI NEGRO E DURO”

Só duas coisas.

Primeiro: Cruz e Souza teria escrito o soneto “Vida Obscura” para um colega do trabalho miserável, nos arquivos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Mas tem muito mais gente incluída nesse “para ti”. Gente negra, como George Floyd, João Pedro e o próprio autor. Pois é. Talvez aquele manual de literatura do colégio tenha esquecido de contar que Cruz e Souza era negro. Era. O raio caiu duas vezes no mesmo país escravagista.

Eram negros o maior romancista (sim, Machado de Assis; parabéns) e o maior poeta brasileiro do século 19. Chora, Bilac. Chora, Castro Alves. Como ele conseguiu, se tinha “a cruz no nome e a noite na epiderme”? O proprietário de seus pais, ambos escravos, achou por bem dar a melhor educação a Cruz e Souza – que logo descobriria Baudelaire e Verlaine, trazendo o simbolismo para o lado de baixo do Equador.

Segundo: também são muitos os lugares incluídos no tal “mundo negro e duro”: Mineápolis, São Gonçalo e a própria Desterro, como era chamada Florianópolis quando o poeta nasceu, em 1861. Na verdade, vale incluir nesse “mundo negro e duro” qualquer lugar em que negros sejam minoria, como os Estados Unidos (14%). E também lugares em que sejam maioria, como o Brasil (56%). Praticamente qualquer lugar é duro para quem é negro.

Mesmo com uma disputa acirrada, fica difícil arrancar daqui o título de capital mundial da necropolítica: 75% das pessoas mortas em ações policiais são negras, de acordo com o Anuário da Violência. A ONG Rio Pela Paz lembra que 91% das crianças vítimas de bala perdida no Rio de Janeiro são negras. E 61% das mulheres vítimas de feminicídio são negras, informa o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Não por acaso, Cruz e Souza morreu aos 36 anos – dez a menos que Floyd, 22 a mais que João Pedro. O atestado de óbito garante que foi tuberculose. É só um eufemismo para a verdadeira causa mortis: vida obscura.

“QUE TEMPOS SÃO
ESTES, EM QUE/
É QUASE UM DELITO/
FALAR DE COISAS
INOCENTES”

Sério, Bertold Brecht, logo agora? Desde 1934, quando saiu “Aos que Vierem Depois de Nós”, estou esperando pelo Grande Debate: o apartamento do Caio Castro parece uma barbearia hipster ou uma hamburgueria gourmet? O Pyong devia ter furado o isolamento para cortar o cabelo? “Celebridades como a apresentadora Xuxa” agregam ou dispersam o movimento “Somos 70%”? Enfim, deixa para lá.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

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