Um vinho para o seu pai — Gama Revista
COLUNA

Isabelle Moreira Lima

Um vinho para o seu pai

Não é preciso categorizar gente ou bebida para escolher o que pôr na taça. Também não existe gênero de vinho. Para o dia dos pais, pense no que ele sabe e no que quer aprender

05 de Agosto de 2020

Neste domingo, talvez você queira presentear seu pai com uma garrafa de vinho, ou até beber algo junto com ele. Falta pouco até lá, mas é factível: é fácil comprar em televendas ou online, tanto em lojas quanto direto nas importadoras, os serviços de delivery estão afiados. Mas o que escolher? Do que ele vai gostar?

Você faz uma busca rápida na internet e encontra inúmeros textos com o título “Vinhos para o seu pai” publicados desde esta semana até 1876 falando em diferentes perfis de pais: para os clássicos, vá de x; para os modernos, vá de y; para os iconoclastas (anh?), vá de z; e a lista corre com adjetivos meio malucos. Mas essas categorias dizem alguma coisa? E as pessoas são categorizáveis? Os vinhos também são?

Meu pai gosta de comer e beber, mas nunca se deu ao trabalho de estudar nada. E gosta num nível hard: nos anos 1980, pré-Airbnb, trocou um apartamentinho numa praia fora de Fortaleza (CE) por outro em Paris por um mês e, neste período, ele conta, não bebeu água, apenas a produção vinícola local. Com essa “litragem” deveria ter refinado seu gosto. Mas percebo que ele não tem preferência, sorve com prazer o que lhe for apresentado se tudo estiver dentro dos conformes (isto é, se não for uma catástrofe).

Um entusiasta sem critério, um enófilo desbravador: como presentear pais como esses?

Já a minha figura paterna dentro do vinho — quando comecei há cinco anos, senti que fui adotada por um jornalista e enófilo bem mais experiente que eu (sigam o perfil dele no Instagram para aprender mais), que transformou-se numa espécie de mentor, daqueles que puxa a orelha e elogia — tem um gosto interessantíssimo. Ele vê a si mesmo como alguém tradicional, mas é aventureiro no que diz respeito à taça. Já provou vinhos caríssimos feitos em lugares longínquos, mas não deixa de se arriscar e também vê valor em brasileiros baratinhos. Bebe os tradicionais consagrados mas também os moderníssimos, como os laranjas e afins.

Um entusiasta sem critério, um enófilo desbravador: como presentear pais como esses? Eles gostariam dos mesmos vinhos? Imagino que sim, mas tenho uma proposta para facilitar as coisas:

Para perfilar o pai, pode-se considerar a relação de sua litragem com o seu interesse de estudo. Sendo mais clara: pai de nível 1, iniciante; pai de nível 2, de conhecimento intermediário; pai de nível 3, o connoisseur. Para os que gostam de vinho mas não estudam e bebem meio que aleatoriamente, recomendo os vinhos de sede, que são frescos, leves e bons independente do acompanhamento, ou ainda os específicos para suas comida favoritas: se gosta de churrasco, um Malbec mais gostosinho (não o que ele compra no mercado no dia a dia); se gosta de frutos do mar, um branco chileno feito próximo à costa, como os de Casablanca; se gosta de massas, um italiano cheio de acidez.

O pai que tem conhecimento intermediário deve gostar de algo que vai fazer com que ele estude mais, vinhos de regiões clássicas mas que são pouco falados: Albariños de Rías Baixas ou Alvarinhos portugueses; qualquer rótulo das uvas típicas do Piemonte (que pode ser escolhido de acordo com seu orçamento, desde um Dolcetto d’Alba até um bom Barolo); um Ribera Del Duero, versão espanhola do que se faz à beira do Douro.

Para o pai connoisseur, eu iria em algo diferentão, para que ele descubra que não sabe de tudo e que ainda há o que aprender. Uma região nova como Itata, no Chile, que faz vinhos fantásticos; o Pinot Noir feito na Patagônia argentina, que é cheio de acidez e equilíbrio, ou até mesmo o alemão; um francês moderninho do Loire; ou, ainda, se você tiver bastante bala na agulha (ou muitos irmãos para compartilhar o presente), um Priorato, região na Espanha onde os vinhos são feitos em encostas perigosas, com solo pedregoso e árido.

Se neste domingo você não comemora o dia dos pais, mas quer presentear ou comemorar algo com sua mãe (ou com qualquer outra pessoa), as dicas seguem as mesmas. Diferentemente do que dizem por aí, vinho não tem gênero, não existe qualquer coisa como “um vinho feminino” ou “um vinho masculino” como alguns insistem — para eles, os mais elegantes seriam os femininos, e os mais potentes, os masculinos. Se fosse assim, mulher não bebia uísque, como bem me disse uma amiga. Isso é um assunto grande (recomendo a leitura de por que o bife tornou-se coisa de homem e a salada de mulher) e, ao mesmo tempo, uma tremenda bobagem. Fica aqui o recado e a promessa de que um dia conversaremos mais profundamente sobre o tema.

SACA ESSA ROLHA

Pai nível iniciante


Um vinho de sede, equilibrado e alegre, é o Latido de Sarah, um Garnacha de Navarra, na Espanha. Se a ideia é um Malbec melhor que os do supermercado, sugiro o Zuccardi Série A, delicioso e fresco, ou o Susana Balbo Signature, mais refinado, elegantíssimo. Quem gosta de massas vai curtir o Villa Rossi Rubicone Sangiovese, que além de tudo é baratinho. E para o amante de frutos do mar, um bom exemplar de Casablanca, no Chile, como o Céfiro Sauvignon Blanc é certeiro.

Pai nível intermediário


O Alvarinho (ou Albariño na Espanha) é um vinho branco meio mágico, capaz de envelhecer alguns bons anos e manter-se vivo, fresco, um convite à aventura. Prove o da Covela, uma quinta que entende bem do riscado e tem bom terroir pra casta. No Piemonte, você pode dar uma olhada na produção da vinícola Corino, que preza pela elegância, ou ir para uma linha mais biodinâmica/natural. De Ribera del Duero, o Pruno é uma delícia, suculento e potente.

Pai nível avançado


Do Loire, o produtor Vincent Caillé faz rótulos fora do comum, bem contemporâneos, com um pezinho no hipsterismo. Aproveitando que é inverno, vá de La part du Colibri Côt, uma versão da Malbec. De Itata, no Chile, prove o Rogue Vine Tinto, um corte de Cinsault e País, duas uvas que brilham por ali. É feito pelo mesmo enólogo de Alto las Hormigas, o jovem genial Leo Erazo. Se o assunto é Pinot Noir patagônico, o Saurus, da família Schroeder, é um ótimo cartão de visitas, faz salivar e querer mais e mais. Entre os alemães (lá a Pinot Noir é chamada de Spatburgunder) eu iria no trocken (seco) da Fürst Hohenlohe-Oehringen. Do Priorato, o Font de la Figuera é capaz de fazer chorar (eu pelo menos chorei quando provei, de emoção mesmo). Mas é capaz de fazer chorar também por outro motivo: custa um dinheirão. Talvez o mais sensato seja começar a fazer a vaquinha para o Dia dos Pais do ano que vem, vale a pena.

Isabelle Moreira Lima é jornalista e editora executiva da Gama. Acompanha o mundo do vinho desde 2015, quando passou a treinar o olfato na tentativa de tornar-se um cão farejador

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