Coluna da Isabelle Moreira Lima: vinho e desigualdade — Gama Revista
COLUNA

Isabelle Moreira Lima

Vinho e desigualdade: como lidar?

Os grandes vinhos que funcionam como cursos são cada vez mais inacessíveis no mundo, mas no Brasil é pior. Resta rezar para que a justiça social ocorra por um milagre no salão de um restaurante — já aconteceu

28 de Outubro de 2020

Em sua mais recente coluna no New York Times, o crítico Eric Asimov escreveu sobre o fato de que apenas os super-ricos provarão os grandes vinhos da Borgonha, que hoje são caríssimos. Até algum tempo atrás, nos anos 1990 por exemplo, esses vinhos eram caros, porém pagáveis. Hoje, graças à relação de oferta e demanda (não há como aumentar a produção dos chamados grand cru porque são terras demarcadas impassíveis de expansão), à desigualdade e ao status que o vinho adquiriu ao longo dos anos como símbolo de poder, provar um vinho desses tornou-se impossível para 99% da população mundial.

Até aí, nenhuma novidade, né? Super-ricos sempre consumiram artigos de luxo inalcançáveis para o cidadão comum. O que Asimov observa, porém, é que, diferentemente de uma Ferrari ou uma bolsa Hermès, esses Borgonha + — ou os grandes vinhos de Bordeaux, os Barolos, os Brunello di Montalcino e alguns Cabernet Sauvignon de Napa Valley, por exemplo — são fundamentais para que se compreenda a bebida. Ele arrisca dizer que são equivalentes a uma disciplina de graduação, como um curso universitário sobre Shakespeare ou Beethoven, porque são vinhos de referência capazes de munir de informação sobre um estilo e uma região.

O crítico não chegou à realidade brasileira, onde a situação é ainda mais triste. Não são apenas os grandes Borgonha (e os Bordeaux, os Barolo, os Brunellos) que são inacessíveis. A um jovem bebedor iniciante que quer conhecer regiões e diferentes estilos, o clássico, o moderno e o avant-garde, resta juntar dinheiro e rezar por um milagre (mais abaixo você vai ver). Por aqui, fica difícil para a maioria comprar o que vai além dos rótulos de entrada das vinícolas mais comerciais, que para a turma dos naturebas são padronizados e corrigidos. É preciso pesquisar, garimpar, quebrar a cabeça para achar maneiras de se educar no mundo do vinho.

Qual o sentido de escrever sobre vinho, uma bebida que está nas taças da elite majoritariamente, em um país tão desigual quanto o Brasil?

Esse é um assunto que me aflige tanto que há cinco anos venho me perguntando: qual o sentido de escrever sobre vinho, uma bebida que está nas taças da elite majoritariamente, em um país tão desigual quanto o Brasil? Sofro recorrentemente com essa “especialização” — “estou aqui girando taça enquanto o Brasil derrete” virou uma espécie de mantra. Por outro lado, o vinho nos ajuda a enfrentar os perrengues da vida desde pelo menos as epopeias de Homero.

Afinal, o que é o vinho? Uma bebida capaz de nos conceder prazer e que está aí para nos elevar ao nirvana sensorial mais próximo possível. Existem mil maneiras de pensar sobre ele sem que seja reduzido a uma coisa chique, de comemoração, ou circunscrito a uma classe social específica. Algumas possibilidades são encará-lo como alimento, como parte da cultura de um lugar ou como objeto de investigação, de aprendizado e autoanálise — por que não?

*

Esse papo todo me levou a uma anedota também publicada nesta semana pela revista inglesa Decanter. Em um restaurante em Nova York, o Balthazar, uma turma de Wall Street pediu um Château Mouton Rothschild 1989, o vinho mais caro do restaurante, enquanto a mesa ao lado ocupada por um jovem casal pediu o mais barato da carta. Um custava cerca de R$ 11 mil; o outro, R$ 100. As duas garrafas foram despejadas em decanters idênticos e houve confusão na hora do serviço. Talvez ali a justiça social tenha sido operada por um milagre e o jovem casal acabou bebendo o vinho de R$ 11 mil. Ninguém que bebeu notou, os ricaços elogiaram a pureza do vinho de R$ 100 e, no final, ninguém pagou, o restaurante bancou o erro. Marcos Nogueira, que escreve a coluna Cozinha Bruta na Folha, trata do tema com mais dureza: “Custa mais do que vale, pois existe gente rica e besta em número suficiente para gerar uma demanda inflacionária”. E continua: “muitos dos que compram vinhos por status não entendem grande coisa de vinho. Mas também acontece com quem entende de vinho. Por isso, provas às cegas – sem que os degustadores saibam o que estão tomando – são sempre uma delícia para quem observa de fora”.

Também colunista no mesmo jornal, Hélio Schwartsman foi além ao questionar se a enologia é mesmo uma fraude, usando como argumento estudos de psicologia do gosto de Rose Maria Pangborn, nos anos 1960, o que gerou nota de repúdio da Associação Brasileira dos Enólogos. Segundo ela, bastava adicionar um pouco de corante a vinhos brancos para que os especialistas ficassem completamente perdidos. Para Schwartsman, a dificuldade, no caso da enologia (que é a ciência que transforma uva em vinho), “é que o paladar e o olfato humanos não são bons o bastante para julgar vinhos, pelo menos não no nível que os ‘sommeliers’, com seu vocabulário rebuscado e esnobe, fazem crer que é possível. Aí o cérebro, para não ficar mal, apela para rótulos, preços, críticas etc”.

Parece evidente que um vinho de R$ 11 mil é uma coisa incompreensível, para não dizer ultrajante

Como diz o Lulu Santos, talvez eu seja a última romântica, e fico com a turma do Asimov. Acredito, como ele, que um grande vinho pode ser sim equivalente a uma disciplina de um curso superior, que pode abrir sua cabeça e levar a um estado mental diferente. Isso porque ele tem a capacidade de apresentar aromas e sabores que podem emocionar e instigar a que se estude e se descubra mais informações até sobre o povo do país que o produz. Agora, para isso, é preciso litragem, conhecer os vinhos (e por isso a lástima — mais uma — da desigualdade social) e cheirar tudo o que a natureza (e muito da indústria) tem a oferecer. Isso dito, e voltando ao caso do restaurante nova-iorquino, me parece evidente que um vinho de R$ 11 mil é uma coisa incompreensível, para não dizer ultrajante.

Ah, e quanto às experiências de Rose Maria Pangborn, a grande musa da eno-sabedoria Jancis Robinson sugere no primeiro capítulo de “Como Degustar Vinhos” (Globo Estilo, 2010) que se use uma taça preta e se faça um teste às cegas para tentar descobrir se é branco ou tinto. Ela sugere como exercício. Não trata-se, portanto, uma forma de desmascarar quem ama vinho ou o vinho em si, mas de treinar olfato e paladar.

Saca essa rolha

VINHOS DE SEDE PARA AS MASSAS
Um vinho de preço honesto e que aumenta a alegria de um peixinho grelhado é o Dão Colheita Branco Titular, da vinícola Caminhos Cruzados. É um corte da belíssima Encruzado (grave esse nome, dá estrutura e untuosidade ao vinho), com a Malvasia Fina (aroma e álcool) e a Bical (acidez). Outro rótulo infálivel, de boa combinação preço+prazer é o Pinot Noir Bicicleta, da Cono Sur, que além de tudo é orgânico. Simples e delícia, acompanha bem desde um peixe mais gordo (atum ou salmão) até uma carne leve.

UM TINTO PARA O SEU CHURRASCO
A dica é o Carmen Insigne Cabernet Sauvignon 2018, que é um clássico elegante e encorpado perfeito para uma picanha e outros cortes com gordura. Além da Cabernet Sauvignon, há uma pitadinha da deliciosa Cabernet Franc no corte (15%).

PARA DESPERTAR O PALADAR
Cada vez mais tenho amado brancos salgadinhos. O Corbeau Blanc Gros Plants 2018 tem essa mineralidade instigante e é extremamente elegante. Tem aromas de maçã verde e preenche a boca de maneira vertical (termos esquisito, mas presta atenção, você vai entender), com acidez brilhante. Entre os tintos, sugiro o comentadíssimo Cara Sucia Red Blend, natural, hipster, que não sai dos feeds. É agradável e relativamente complexo — são tantas cepas que, a cada gole, você pode encontrar algo diferente.

Isabelle Moreira Lima é jornalista e editora executiva da Gama. Acompanha o mundo do vinho desde 2015, quando passou a treinar o olfato na tentativa de tornar-se um cão farejador

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