Estampas — Gama Revista
COLUNA

Leandro Sarmatz

Estampas

Ainda que tateante, a busca por camisas havaianas era a procura de um homem de quase 30 anos pelo seu modo particular de encarar o mundo

29 de Março de 2020

Houve uma época – talvez uns 15 anos atrás – em que eu sonhava poder contar com meia dúzia de camisas havaianas no guarda-roupa. Não era apenas um sonho: tinha a ver com a busca por um estilo. Ainda que tateante, era a procura de um homem de quase 30 anos pelo seu modo particular de encarar o mundo. Poucos anos depois do final dos anos 1990 (xadrez, flanela e camiseta com o onipresente bebê nirvânico submergindo na piscina entre notas de dólar), as coisas não pareciam ir muito bem nesse quesito. A paisagem das camisas era tingida de índigo e suas variações claro-escuro-cinza-manchado. E camisetas, já então vendidas como t-shirts, que naquela era pré-meme começaram a ficar engraçadinhas (ilustração de Van Gogh usando uma só “orelha” do headphone) ou apenas tediosas e prenunciando o clichê (“tom joão gil & jorge” talvez tenha sido a primeira dessa estirpe de escalação de time).

Minha insensata peregrinação, contudo, terminou pouco tempo depois. Há pelo menos dez anos, as camisas havaianas fazem parte da nossa gramática visual e emocional. Vacation style em pleno dia útil. Desfaçatez praieira na cidade. De Yves Saint Laurent a C&A, passando por uma miríade de lojas online inteiramente dedicadas ao negócio de estampa sobre viscose, é absolutamente fácil, confortável, conveniente e muitas vezes esteticamente seguro encontrar uma camisa como aquelas que eu queria. Não é mais necessário adentrar em lojas parcamente iluminadas pela luz mortiça da arrogância contracultural em fundos de galerias ou maltratar a pele com poliéster naqueles artigos vendidos em lojas de fantasias para Carnaval. Também vai longe o tempo em que eu levava tecido de toalha de mesa comprado na 25 de Março a uma costureira em São Bernardo para confeccionar minhas camisas de manga curta. Um tipo muito particular de heroísmo.

Há pelo menos dez anos, as camisas havaianas fazem parte da nossa gramática visual e emocional. Vacation style em pleno dia útil

O fato é que a busca se converteu em vício. Sem prudência alguma, passei os últimos anos acumulando algumas dezenas de camisas havaianas — mas também uma miríade de outras estampadas e coloridas. A compulsão é um buraco negro; ela é funda e aparentemente sem fim. Pouco depois de me regalar com as primeiras camisas do estilo, passei a desenvolver aquilo que, sem favor algum, pode ser qualificado como uma obsessão. Há delícia, regozijo, prazer genuíno e culpa envolvidos. A crônica desse comportamento poderia ser escrita por uma mistura de Gibbon (“Declínio e Queda do Império Romano”), Freud (“As Neuropsicoses de Defesa”) e blogueirinha (kkkk). Épico, doido e frívolo.

Tenho uma teoria. No meu caso, o desenvolvimento desse gosto pelas camisas havaianas pareceu prenunciar outra erupção. É com incômoda frequência que os objetos da cultura permitem antever uma fresta nos movimentos da história, antecipando-a. A recusa aos culotes e a Revolução Francesa. A língua ferina de Karl Kraus na Viena pré-Anschluss. O Yahoo Respostas e a caixa de comentários nos sites de notícia anunciando o fascismo atual. Quanto a mim, trata-se de algo bastante pessoal. Foi nesse mesmo período que uma descamação nos cotovelos que me acompanhava desde as vésperas das provas de matemática na adolescência ficou mais aguda e se alastrou para outras áreas visíveis do corpo. A psoríase, doença autoimune, a um só tempo constrange e exaspera. O corpo fica estampado com manchas, nódoas, feridas e pequenas cicatrizes. Um único prazer digno de nota, apesar de perfeitamente reprovável (porque deletério), é que você se converte no plástico bolha de si mesmo. Não querendo chamar a atenção para as feridas na pele, inventa outras maneiras de ser encarado pelo mundo. Você desenvolve a arte de tergiversar – esteticamente. Daí as mocinhas dançando aloha entre palmeiras encurvadas, a onda japonesa quebrando na praia de um mar tempestuoso, o surfista dropando com um pranchão das antigas. Esse leitmotiv gráfico toca a música da minha vida desde então.

O melhor livro sobre o assunto – camisas havaianas – continua sendo “The Aloha Shirt”, de Dale Hope. Não consigo imaginar alguém mais autorizado a falar do tema. Hope é havaiano, foi surfista e, a julgar pelos seus inúmeros retratos sorridentes, ostenta a pele marcada por serões intermináveis (e sem loção adequada) sob o sol. Está à frente da Kahala, uma das melhores marcas do ramo. É apontado como o homem que, ainda nos anos 1980, deu musculatura empresarial a um negócio que havia engatinhado como oficina familiar no pós-guerra.

O período entre 1930 e 1950, aliás, é apontado como a “era de ouro” do gênero. Fantasia de férias com Auschwitz e Hiroshima ao fundo. Obra de exímios artesãos e costureiros — sobretudo japoneses –, as aloha shirts adâmicas eram produzidas para os gorduchos turistas americanos (ainda hoje a escala de tamanhos vai até o xxxl, medida que se aproxima de uma cortina para a janela de um quarto de solteiro) que desembarcavam em Honolulu ávidos de sol e coquetéis.

Depois elas deixaram a areia e foram para a tela do cinema (de Montgomery Clift em “A um Passo da Eternidade” a Leonardo DiCaprio em “Romeu + Julieta”). Hoje fazem parte – não sem algum estranhamento, às vezes – do traje cotidiano de hipsters e millennials, duas vertentes eminentemente visuais do espírito atual. Longe de ambos por motivos culturais e etários, tenho me contentado em continuar usando as camisas havaianas no meu dia a dia. Hábito arraigado de um homem que já definiu o uniforme ideal para atravessar a vida.

Leandro Sarmatz é conhecido por seu senso estético apurado, que pode ser notado em seu guarda-roupa diário e na curadoria de imagens que eventualmente faz no Instagram. É autor de “Logocausto”, de poemas, e “Uma Fome”, de contos. É editor na Todavia

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