Coluna do Leandro Sarmatz: Minha história do boné — Gama Revista
COLUNA

Leandro Sarmatz

Minha história do boné

Cabelo e pandemia, me fizeram redescobri-lo. Para muitos, parece ter um efeito psicológico. Mais do que proteger dos raios solares, dá um arremate às carecas, aos cabelos em desordem, e é um suporte para quem não quer se expor demais

19 de Outubro de 2020

Desde que me encerrei em casa, no dia 17 de março, tenho saído em raras ocasiões. Um ritual diário é levar o cachorro para dar uma volta. Outro é comprar bebida alcoólica e esperar dar 18h30, encher a cara e depois me arrastar para a cama tendo pensamentos aziagos sobre álcool e queda na imunidade. Ou então sobre birita e ganho de peso. Lá em março – outra vida, por certo – eu já estava com o cabelo meio grande. Tinha cortado em janeiro. Meu cabelo cresce para cima e para todos os lados: só não cresce para baixo. O que significa que, com o tempo, ele tende a ficar uma mistura de Marge Simpson e Sacha Baron Cohen personificando Abbie Hoffman em “Os 7 de Chicago” (Netflix, 2020).

Na metade dos anos 1980, quando todo garoto que ouvia Whitesnake depois de conhecer a banda no primeiro Rock in Rio deixava crescer as melenas metaleiras, eu bem que tentei também. Nenhuma chance de dar certo. A cabeleira, vasta ainda hoje, tanto tempo depois, foi crescendo e crescendo – mas para o alto. Fiquei parecendo aquele brinquedo de batata com grama no topo. Numa adolescência repleta de fracassos, este foi apenas mais um. O que é mais uma chaga num corpo de leproso?, diria alguém educado pelo Velho Testamento. Acredito piamente que o Livro de Jó tenha sido a primeira obra literária do estilo young adult.

Cabelo e pandemia, contudo, me fizeram redescobrir o boné. Antes disso tudo, meu último boné talvez tenha sido usado em 1989. Baixinho, cabeçudo, narigudo e de óculos (não estou aqui para pescar elogios, s’il vous plait), essa coisa de adorno no cocuruto nunca ornou muito comigo. Uma vez, numa viagem a Nova York, outono gélido lá fora, resolvi usar uma boina. Três passos depois da porta do hotel já tinha um mendigo me chamando de “Mr. Woody Allen” aos berros. Outra ocasião, tendo sido presenteado pelo meu cunhado com um chapéu panamá, fui dar uma caminhada sob o sol do Centro de São Paulo enquanto recolhia elogios variados, de Santos Dumont a Smurf…

Depois dos 40, o boné parece conferir um ar informal e desencanado, um clima de férias elegantes numa fazenda decorada por Ralph Lauren

Não passa de pensamento mágico, mas de máscara e boné eu me sinto mais protegido quando saio à rua. Mas é claro que não se trata disso. Com o cabelo em franca expansão para todos os lados, e sem ânimo ou coragem para ir ao barbeiro, domesticá-lo só mesmo depois do banho. Então o boné foi despontando para mim como uma alternativa razoável (em tempos nada razoáveis) para não chamar tanta atenção. Tem dias, e dependendo da ocasião, que inclusive fico de boné para reuniões no zoom. Meu corolário é o seguinte: até os 18 usar boné é ok, já entre os 25 e os 30 ele apenas sugere boçalidade e regressão protofascista, mas depois dos 40 ele parece conferir um ar informal e desencanado, um clima de férias elegantes numa fazenda decorada por Ralph Lauren.

O boné, que existe há muito tempo mas começou a se popularizar na aurora do século 20 nas partidas de baseball nos Estados Unidos, é um desses marcos da moda vernacular. Agora que todo mundo se veste como americano (inclusive os franceses, que recentemente até fundaram uma revista, L’Étiquette, toda baseada na fórmula moletom com camisa oxford-calça chino-New Balance cinza), o boné é envergado por gente de todas as idades. Tenho gostado tanto a ponto de ter adquirido mais dois exemplares: além do amarelo que foi o primeiro a ser usado, as compras online providenciaram um roxo e um preto. Dois deles têm coisas escritas, mas não do gênero engraçadinho. Poucas coisas são mais deprimentes do que uma frase “divertida” numa peça de roupa.

Tem gente que faz do boné todo um estilo de vida. Steve Reich, meu compositor contemporâneo favorito, jamais foi fotografado sem um – bem, eu pelo menos nunca vi essa imagem, algo apenas comparável, em termos visuais, ao terceiro segredo de Fátima. O fato é que o boné, para muitos, parece ter um efeito psicológico. Mais do que proteger dos raios solares, ele dá um arremate às carecas, aos cabelos em desordem, é um suporte para pessoas que não querem se expor demais. Mas há coisas paradoxais nisso. O combo boné mais óculos de sol, contudo, longe de funcionar como um disfarce – como vemos em surradíssimos filmes de espionagem – grita pela atenção dos transeuntes. Você é flagrado na hora, como infiltrado manqué ou adúltero em fuga.

Um dia, quando tudo isso passar, ainda usarei boné? Difícil responder. Embora esteja gostando, não tenho lá muita certeza de que sinta uma satisfação real ao sair pela rua com a cabeça vestida. Tem mais cara de subterfúgio. Enquanto estou cabeludo, o boné tem sua imensa utilidade. Ele doma minha juba. Afasta olhares espantados para meu estado atual (todos envelhecemos ou engordamos nesse período). Me tira da preocupação permanente – com a saúde, o dinheiro, a vida dos outros –, conduzindo-me a um estado de feriado perpétuo. Mas vai chegar a segunda-feira: não hoje ou amanhã, mas em breve. E então eu vou cortar o cabelo, trocar a calça de moletom por um jeans e voltar a respirar os ares do mundo. Que assim seja.

Leandro Sarmatz é conhecido por seu senso estético apurado, que pode ser notado em seu guarda-roupa diário e na curadoria de imagens que eventualmente faz no Instagram. É autor de “Logocausto”, de poemas, e “Uma Fome”, de contos. É editor na Todavia

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