Coluna do Leandro Sarmatz - Negro - Gama Revista
COLUNA

Leandro Sarmatz

Negro

Não é possível falar de cultura urbana nos últimos dois séculos sem mencionar o que foi trazido pelos descendentes da diáspora africana

29 de Junho de 2020

Num ensaio da década de 1950 em que fazia a crítica do nacionalismo, Jorge Luis Borges lembra que, ao longo da história, populações que foram marginalizadas muitas vezes trouxeram grandes inovações. Porque fazem parte da cultura vigente mas também ocupam uma posição singular. Estão dentro e fora. Uma espécie de distanciamento presente. Que a situação propicia muitas vezes uma irreverência e uma ambiguidade: estão ali mas também se seguram nas margens. E a certa altura podem ocupar o centro.

Borges falava especialmente da cultura latino-americana. Entre seus exemplos, também aparecem judeus e irlandeses. O primeiro grupo, pária da cristandade, deixou uma marca em diversas áreas no conhecimento do Ocidente. O segundo, vilipendiado por séculos desde os afetados salões de Londres, é o maior fornecedor de grandes escritores da língua inglesa. (É célebre a piada de Beckett a respeito disso: “Quando você está num buraco com merda até o nariz, só lhe resta cantar.”)

Claro que o preço dessa possível “vitória” dilatada no tempo é o sofrimento e o opróbrio de gerações inteiras. Entre as duas grandes guerras, judeus europeus deram uma contribuição especial a diversos campos – da cultura erudita à popular – enquanto eram objeto de desconfiança das populações locais. Pense na Viena de Sigmund Freud, Karl Kraus e Gustav Mahler, na Berlim de Kurt Weill, Ernst Lubitsch e Walter Benjamin. Os exemplos são muitos. Naquele mundo antes de Auschwitz havia sempre alguém disposto a apontar o dedo e urrar contra a presença judaica. Isso quando políticas oficiais não os baniam de diversas áreas. Freud originalmente queria estudar Direito e se tornar diplomata, mas a carrière estava vedada aos semitas. Deu no que deu. Ainda bem.

Comparados com a tradição artística estabelecida, a música popular e o streetwear são artes ‘menores’ que alcançaram um estatuto superior

Os negros vêm revolucionando a cultura como Paulo de Tarso revolucionou a teologia. O século 21 é – e será — em grande parte obra dos descendentes da diáspora africana. É alto o preço que tem sido pago. Violência, preconceito, silenciamento contínuo. O racismo estrutural mata sob diversas formas. A truculência sistemática do Estado sobre as populações negras — aqui, nos EUA, em partes da Europa iluminista – é um escândalo que precisa ser denunciado todos os dias. Um movimento como Black Lives Matter deveria se tornar assembleia permanente da ONU. Que não tenha sido encampado universalmente só reforça a profundidade abissal do nosso atoleiro.

O mundo inteiro tem um débito com os negros. Não é possível falar de cultura urbana nos últimos dois séculos sem mencionar o que foi trazido por eles. Comparados com a tradição artística estabelecida, a música popular e o streetwear são duas artes ditas “menores” que alcançaram — em larga medida graças aos negros das grandes cidades da Europa e das Américas — um estatuto superior. Estão entre os maiores tesouros do século 20. O jazz, o samba, o rap. O moletom, o tênis, a camiseta. São gêneros híbridos, musical e esteticamente, que passaram a ditar a produção artística e o comportamento no planeta inteiro.

Não sei qual seria o destino da literatura brasileira se a negritude de Machado tivesse sido reconhecida desde sempre

Já na década de 1930 alfaiates negros de Nova York e Chicago pegaram o rígido terno wasp e o deixaram mais esportivo, confortável e relaxado. Aquelas calças largonas, prontas para pegar um metrô ou dançar à noite que Cab Calloway desfila – com garbo e algum humor – num musical como “Stormy Weather” (1943). Era a gênese do que conhecemos hoje como sportwear. De lá para cá a moda não seria a mesma. Não à toa, até mesmo uma marca centenária como a Louis Vuitton arregimentaria para sua direção de criação um negro norte-americano descendente de imigrantes de Gana. Virgil Abloh, talvez o nome mais influente hoje, é uma espécie de Duchamp para os novos tempos: cria roupas, espetáculos pop, objetos artísticos, recauchuta para o zeitgeist aqueles objetos da cultura que estavam meio eclipsados.

Enfim Machado de Assis, nosso maior ficcionista, é negro. Demorou um bocado. A questão racial em Machado sempre foi um tabu, a ponto de branquearem sua imagem e seu legado. Como, num país de bacharéis bigodudos que vieram com as caravelas, nosso escritor sem rivais seria um descendente de africanos? Não sei qual seria o destino da literatura brasileira se a negritude de Machado tivesse sido reconhecida desde sempre. O certo é que não levaríamos tanto tempo para ouvir as vozes de grandes autores de ontem e de hoje.

Para quem, como eu, trabalha com livros, a boa difusão de autores afrodescendentes é coisa bastante recente. Hoje grande parte das editoras está correndo contra o atraso. Lemos ficcionistas como James Baldwin, Roxane Gay, Ana Maria Gonçalves, Paul Beatty, Toni Morrison, Paulo Lins, Djaimilia Pereira de Almeida, Alain Mabanckou, Kalaf Epalanga. Poetas como Conceição Evaristo, Ricardo Aleixo, Carlos de Assumpção, Maya Angelou, Edimilson de Almeida Pereira. Pensadores como Djamila Ribeiro, Achille Mbembe, Silvio Almeida, bel hooks. A lista é grande. Sem falar em gente com 20 e poucos anos que está garantindo – com vigor e sem timidez – seu espaço nos livros, nos palcos, nos slams. Vozes que não aceitam mais o preconceito. E que serão ouvidas sempre.

Leandro Sarmatz é conhecido por seu senso estético apurado, que pode ser notado em seu guarda-roupa diário e na curadoria de imagens que eventualmente faz no Instagram. É autor de “Logocausto”, de poemas, e “Uma Fome”, de contos. É editor na Todavia

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