Coluna do Leandro Sarmatz: Saudades da locadora — Gama Revista
COLUNA

Leandro Sarmatz

Saudades da locadora

Entrar numa locadora era como ir à sua livraria predileta. A chance de encontrar algo sensacional que você não estava procurando era grande

21 de Setembro de 2020

Rituais. Eu gosto. Não sendo um homem religioso, mesmo assim há algo dentro de mim que se afeiçoa ao suave andamento de um padrão. Atos cotidianos, longe — espero — do TOC, da mania ou da obsessão. Há qualquer coisa de reconfortante nos rituais. Passado, presente e futuro parecem deixar de ser apenas abstrações. Ganham uma face mais concreta, afastando-se da marcação arbitrária da folhinha. Os rituais são uma defesa contra a velocidade com que tudo se afasta de nós – pessoas, experiências – ao longo do tempo.

Entre os anos 1980 e a primeira década do novo século, ir à videolocadora era um ritual partilhado por boa parte da humanidade. Para quem gostava de filmes, apenas as atrações da nascente TV a cabo não davam conta. A variedade estava na boa locadora do bairro. Bergman, clássicos da Warner, filmes do leste europeu, novidades direto dos festivais, uma infinidade de línguas, nacionalidades, épocas. E, claro, o cantinho permissivo dos pornôs. Uma vez, com uns 15 anos e a perspectiva de ficar um sábado à noite sozinho em casa, despejei no balcão uma pilha de filmes VHS para levar: um dos “Indiana Jones”, “A Conversação”, do Coppola, “Dumbo” e um daqueles pornôs americanos com duas louras na capa, que deixei meio escamoteado debaixo da caixa do desenho da Disney sobre o elefante orelhudo. O contrabando deu certo. Nenhum constrangimento. Ganhei um sorrisinho cúmplice do cara da locadora e fui para meus embalos de sábado à noite.

O streaming, que prometia uma quase infinita coleção de filmes dentro de casa, está bem aquém do acervo de qualquer locadora mediana

Isso tudo acabou. Como mostra de maneira gráfica e chocante “CineMagia”, documentário sobre o mundo das locadoras em São Paulo a partir dos anos 1970, a chegada do streaming, que prometia uma quase infinita coleção de filmes dentro de casa, está bem aquém do acervo de qualquer locadora mediana. Não se trata de nostalgia. Netflix, o maior de todos, oferece um cardápio restrito em nacionalidade (EUA), época (sobretudo anos 198o e 1990) e qualidade (média para baixo). É um tanto desolador. É como se subitamente bibliotecas e livrarias desaparecessem e você só pudesse baixar ebooks de uma língua e uma época. Shakespeare, Kafka, Guimarães Rosa e Borges? Esqueça. Mas há a obra quase completa de Sidney Sheldon e Danielle Steel, e um ou outro Norman Mailer ou Susan Sontag de vez em quando. Aterrador.

Mas há novos streamings chegando. A pandemia ajudou a acelerar – graças ao fechamento momentâneo das salas de cinema – o aparecimento de outros serviços para assistir filmes. Ao já existente Mubi (a locadora mais cabeça do bairro) somaram-se outros, como Belas Artes à La Carte, ligado à sala homônima em São Paulo e, por enquanto restrito aos EUA e Canadá, o canal da Criterion, a distribuidora com a melhor e mais charmosa curadoria. Um alento.

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A prevalência do cinema comercial americano dos anos 1980 e 1990 criou nos dois maiores serviços de streaming um fenômeno interessante. Uma penca de novas produções que remetem àquele período, produzindo uma nova estética em que a nostalgia – da música, das roupas, de certos hábitos de consumo – ganha um duplo sentido sobretudo econômico. Séries como “Stranger Things”, “Red Oaks” e “Glow” mostram às novíssimas gerações como era a vida antes do TikTok enquanto licenciam uma infinidade de produtos, como mochilas, cadernos e camisetas. Mas sobretudo conferem atração e um toque de novidade para grande parte do acervo, garantindo uma nova audiência para filmes batidíssimos estilo “Sessão da Tarde”.

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No mundo da música, hoje o acesso ao passado e às novidades é tão amplo. que chega a ser angustiante

Fenômeno curioso, até agora o streaming de filmes parece ser a única inovação tecnológica que fez a indústria cultural andar para trás. No mundo da música, se a venda de disco caiu dramaticamente graças a serviços como Spotify, hoje o acesso ao passado e às novidades é muito mais amplo. Da música erudita ao pop nigeriano dos anos 1970, passando por toda a história da MPB e do rock (das mais diversas nacionalidades), a variedade por vezes chega a ser angustiante. Onde encontrar tempo disponível para descobrir tantos ritmos até então desconhecidos?

Entrar numa locadora era como ir à sua livraria predileta. A chance de encontrar algo sensacional que você não estava procurando era grande. Um ritual que eu gostava até o início dos anos 2010 era ir toda quinta-feira ao Ugues, um bar em Santa Cecília, e depois de algumas cervejas atravessar a rua e fazer na locadora um estoque de filmes para devolver na segunda-feira. A alteração dos sentidos fazia uma curadoria interessante. Num final de semana eu podia levar os dvds da primeira temporada de “30 Rock”, “Videogramas de uma Revolução” (um brilhante documentário sobre o fim da Romênia comunista), “Moby Dick” (de John Huston) e, porque não?, “Splash: Uma Sereia em Minha Vida”. Mas tudo mudou. A locadora fechou, o bar atravessou a rua e hoje a cozinha – de onde sai o melhor croquete de São Paulo – está justamente onde ficavam as prateleiras de documentário e o canto dos DVDs pornográficos. Porque variedade sempre foi a alma no negócio.”

Leandro Sarmatz é conhecido por seu senso estético apurado, que pode ser notado em seu guarda-roupa diário e na curadoria de imagens que eventualmente faz no Instagram. É autor de “Logocausto”, de poemas, e “Uma Fome”, de contos. É editor na Todavia

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