Coluna do Leandro Sarmatz: Por que o tie-dye, Brasil? — Gama Revista
COLUNA

Leandro Sarmatz

Tie-dye Brasil

Em tempos de pandemia e crise, qual seria o motivo para tanto interesse por uma psicodelia anacrônica? A alegria cromática quase irresponsável do tie-dye nos transporta para outro universo

24 de Agosto de 2020

Então o tie-dye – aquela técnica hippie de tingir roupas que minhas primas hoje sessentonas amavam no fim da década de 1970 – está de volta com tudo. Li que atualmente o Brasil é o campeão mundial de buscas no Google sobre o assunto. Me pergunto a razão. Em tempos cinzentos de pandemia e crise, qual seria o motivo para tanto interesse por uma psicodelia quase anacrônica? Talvez a resposta já esteja embutida na minha pergunta. Dentro de casa, com medo de tudo e de todos, a alegria cromática quase irresponsável do tie-dye talvez nos transporte para outro universo, um lugar utópico em que Bob Esponja, Homer Simpson e os Ursinhos Carinhosos – alguns dos personagens cujas linhas comerciais de roupa foram tomadas pela técnica – podem ser nossos companheiros de “viagem”.

Tie-dye e psicodelia dançam abraçados há muito tempo. Um livro recente, “Dead Style: A Long Strange Trip Into The Magical World of Tie-Dye”, captura, com o olhar afiado do street style, a influência mútua entre a estética e a banda que é o epítome da hippilândia alegre, multicolorida e da paz: Greateful Dead. Em suas turnês até o ano passado, a legendária banda do finado Jerry Garcia arregimentava fãs de todas as idades (os “dead heads”) que acorriam para os concertos em traje de gala: camisetas, calças, blazers, tênis, enfim, qualquer peça de roupa passava pelo crivo mucho loco do tingimento.

“Novos heads nascem todos os dias”, escreve no prefácio Mordechai Rubinstein, autor do livro, cujo pseudônimo nas redes é @mistermort. Foi Mort que, ao longo de 2017 e 2018, seguiu os shows da banda para fotografar e conhecer seus coloridos fãs para a edição americana da revista GQ. O resultado é um hilário moodboard que reúne setentões carecas com rabos de cavalo e adolescentes mal saídos do Tik Tok. Mort vê antes e mais longe que muitos de nós. Foi a partir desse seu trabalho cobrindo as turnês do Grateful Dead e postando no Instagram que o tie-dye ensaiou sua volta, das grifes de nariz mais empinado às grandes cadeias de vestuário.

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Mister Mort tinha tudo para não existir. Nascido Mordechai Rubinstein há pouco mais de 40 anos nos EUA, cresceu numa família de judeus ortodoxos (daqueles que aparecem na série da Netflix “Unorthodox”), uma comunidade fechada que vive como se estivesse na Polônia do século 18. Pouco ou nenhum contato com o mundo secular. Roupas negras e pesadas. Tradição – como canta o violinista no telhado – acima de tudo. Sua mãe queria que ele estudasse para virar rabino. E ele chegou mesmo a frequentar uma yeshivá, a escola religiosa, para seguir esse caminho.

Foi a partir das fotos das turnês do Grateful Dead, feitas por Mordechai Rubinstein, que o tie-dye ensaiou sua volta

Mas havia o apelo da rua. E das roupas que as pessoas usavam enquanto zanzavam pelas calçadas de Nova York. Uma miríade de cores, padrões, texturas e inclinações. Uma sinfonia completa, que ia das notas discretas do estilo ivy league (paletó, camisa oxford, mocassim) ao som poderoso da turma do Harlem, com seus adidas supertars e mistura sábia de cores, e até mesmo os hassidim, os jovens e velhos membros de sua tribo do Brooklyn, todos com seus fedora negros no cocoruto e trajes de corvos piedosos combinados com New Balance nos pés. Começou então, na tradição venerável de Bill Cunningham – o Abraão da fotografia da moda urbana –, a capturar os humores visuais dos nova-iorquinos. Primeiro no Flickr, depois no Instagram, até passar a ser convidado para ser o oráculo visual de diversas marcas e publicações. O quase rabino tornou-se um mensch da cultura urbana do século 21.

E passou a ditar moda. Flanar por suas fotos – as que tira dos outros e de si mesmo – é conhecer, um pouco antes das vitrines e de nossos próprios gostos, o que vamos usar na próxima esquina. Mort tem uma especial predileção em misturar linguagens e nos hábitos de vestimenta dos mais velhos. O estilo vernacular norte-americano, hoje o esperanto no guarda-roupa do mundo inteiro, que começa com o boné, passa pela camisa Oxford, a calça de moletom e o tênis confortável para dar muitas passadas. Ou então a camiseta surrada, a calça de terno, o cinto de “tio” e um par de docksides. Quando não envereda por esse caminho, opta por um tipo de vestimenta que a menos informados poderia soar como “do hospício ao brechó”: uma miscelânea quase caótica (mas perfeitamente controlada) de cores, padrões e materiais distintos. É o seu lado ostensivamente “da moda”.

Mas abomina os “pavões”, aqueles tipos sobranceiros que costumam ser vistos nos arredores dos desfiles do Pitti Uomo ou de outras semanas de moda. Sujeitos muito conscientes de sua boa informação e acesso aos melhores guarda-roupas. A vítima ideal da moda, com tudo no lugar certo e que se move pisando nos astros distraído. Mort quase os amaldiçoa. Pudera. Seu reino, como o de outros nova-iorquinos que vieram antes dele nas artes e nos costumes, é o meio-fio da calçada. E a liberdade de viver do jeito que se quer. Por mais colorido que seja.

Leandro Sarmatz é conhecido por seu senso estético apurado, que pode ser notado em seu guarda-roupa diário e na curadoria de imagens que eventualmente faz no Instagram. É autor de “Logocausto”, de poemas, e “Uma Fome”, de contos. É editor na Todavia

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