Virtudes & defeitos — Gama Revista
COLUNA

Letrux

Virtudes & defeitos

Cá estou para fazer um apanhado pessoal, que talvez esbarre em você: quando sou defeituosa e quando sou virtuosa?

07 de Outubro de 2020

Gosto de adivinhações. Não que seja boa, não gosto só das coisas que sou boa, pelo contrário tenho fascínio em ver esportes que jamais nem cogitaria. Gosto especialmente daquele jogo onde escrevemos nomes de pessoas e colamos na testa e tentamos adivinhar. É engraçado olhar para a cara doce de algum amigo e, em sua testa, ler um nome nada doce: RICARDO SALLES. Já fui Cher, já fui Michelle Obama, já fui Flordelis, já fui Chico Bento (sim, vale personagem no nosso jogo).

Uma vez, para variar, em vez de colocarmos nomes de pessoas famosas ou personagens históricos, resolvemos brincar de VIRTUDES & DEFEITOS. Fizemos uma rodada só de características boas e outra rodada com coisas ruins. Sei que soa maniqueísta, mas numa brincadeira cheia de arquétipos, facilitou definir assim. Mas claro que a jogada era altamente filosófica e por vezes rendia debates profundos. Uma amiga com “cinismo” na testa se indagava: “Eu posso utilizar essa característica para agradar?” E um portal de argumentos se abria. “Generosidade” estava na testa de outra pessoa. “Essa virtude tem cunho religioso?” E lá íamos nós demorar mais umas horas até cada pessoa acertar. Obviamente, em pleno caos pandêmico, às vezes só queremos nos divertir, driblar os horrores e saber que na sua testa está escrito Gretchen mesmo, mas essa brincadeira me revirou o cerebelo todo. E cá estou para fazer um apanhado pessoal, que talvez esbarre em você: quando sou defeituosa e quando sou virtuosa?

A cerimônia me protege e protege a todos também, sei até onde sou maravilhosa e sei como e quando começo a ficar horrorosa

Não sei se foi minha educação ou se é mapa astral, mas ninguém precisa me dizer para tirar o lixo do banheiro. É inacreditável. Eu simplesmente tiro (virtude). Fico impressionada com quem vai empurrando a merda mais para baixo, até que o saco quase exploda. Quero acreditar que é algo ecológico, mas sei que não. As pessoas têm dificuldades em lidar com a merda e disfarçam. Eu não tenho. Sou uma pessoa situada. Sou uma ótima visita, me chamem. Levo vinho, chocolate. Ajudo na louça. Vou embora cedo. Amigas até reclamam da minha mania em ir embora antes de todo mundo, mas não posso evitar. A cerimônia me protege e protege a todos também, sei até onde sou maravilhosa e sei como e quando começo a ficar horrorosa.

Além do mais, gosto de dormir e sonhar. Sou uma pessoa frita (defeito), nem preciso tomar café tamanha velocidade de pensamento e ansiedade. Portanto: a hora de dormir pra mim é êxtase profundo. Não que eu consiga com facilidade, quem me dera ser dessas pessoas que encosta e morre. Não. Há todo um ritual insano de memórias constrangedoras do passado que me assombram (defeito brabo) até rezas e pedidos de sorte e iluminação para todas as pessoas que amo. E também pelo mundo (creio ser virtude).

Não sou barulhenta. Talvez porque trabalhe com som, compreendo o som como algo sagrado, minha voz, a fala, qualquer música. Quando em pleno silêncio contemplativo, alguém assobia do meu lado, julgo defeito. Da pessoa. E meu em criticar internamente. “Os incomodados que se mudem”, comentei com meu analista, que me respondeu que a vida não é bem assim. Ficamos de falar mais sobre o assunto na semana que vem.

Para cada defeito, há passado, trauma, um toque de explicação. Para as virtudes também

Tenho péssimos defeitos: não sou boa em abraçar, acolhimento físico. Seja por educação ou mapa astral (tão bom poder achar culpados, risos e choros), não tenho um bom abraço. Tento me justificar, o que é péssimo quando estamos falando de um defeito. Deveria ser “não sei abraçar e ponto”, eu que melhore, eu que me esforce. Mas para cada defeito, há passado, trauma, um toque de explicação. Para as virtudes também. Sou muito alta: 1.85m. Meu sovaco bate na cara das pessoas. Temo atrapalhar. Já quebrei o nariz da minha mãe dançando Timbalada, temo machucar alguém com minha falta de jeito. Já fui mais Macabeia (considero virtude defeituosa), a vida se encarregou de me mostrar homens e mulheres terríveis. No trabalho e no amor. Já tomei boas. Já devo ter sido terrível para alguém. Perdão.

Nos últimos anos entendi que preciso deixar para lá. Famoso “live and let die”. Preciso entender que não tenho controle (defeito alucinante que tenho). Recentemente postei uma foto da minha banda depois de sete meses sem nos vermos. O primeiro comentário e vários outros seguintes eram “remake da Lady Gaga” ou “salve deusa Lady Gaga”. Fiquei intrigada pois na própria legenda escrevi que a inspiração era Jodorowskyana. Infelizmente compartilhei comentário de uma pessoa dizendo algo como “essas guei acham que Lady Gaga inventou uma duna, afffff etc”. Não deveria. Podia ter deixado pra lá. Mas como devota da língua portuguesa e crítica da mania das pessoas que sempre esperam que artistas brasileiras sejam as versões nacionais de artistas mais famosos do mundo (EUA para ser mais exata), não consegui me conter.

Pessoas que nunca me curtiram, elogiaram, mencionaram, caíram em cima de mim como se eu quisesse ser cult demais, feministas falaram que eu estava diminuindo outra mulher. E eu, que apenas amo a língua portuguesa e sei que há verbos e adjetivos lindos a serem usados num comentário de uma foto inédita, lamentei. “Que linda a banda reunida”, “Sensacional essa duna!” ou até mesmo “Let, já viu o novo clipe da Lady Gaga, também há uma duna, sabia?” Porque sim, é possível tocar no assunto sem ser de maneira instantânea e leviana.

Mas estamos em 2020, onde eu penso que estou? No meu blog ou no meu fotolog? Tadinha. Preciso acordar. E eu que pegue meu banquinho e saia de mansinho. (Às vezes me imagino indo no Instagram da cantora Cat Power –amo — e comentando numa foto dela “Remake da PJ Harvey?”, nossa, sinto uma vergonha que enquanto digito até me ruborizo.) Sou situada. Mas também sou artista, não tenho mais essa inocência de quem só ouve música. Eu faço música. Sei dos dois lados. Consigo absolutamente ouvir discos sem deixar minha visão crítica (defeito) tecer comentários.

Me entrego a muitas coisas. Sou tão situada que consigo me permitir (virtude). Mas tenho cuidado. Ainda mais na pandemia. Não me verão jamais comentando “inveja” numa foto de amiga na praia. Opto por “Que delícia, aproveite”, porque é o que de fato quero, que ela aproveite. “Inveja branca” é pavoroso e racista. Há ainda pessoas que só operam na base da ironia e ao elogiar um queride, xingam. “Você é um nojento filho da puta, cara, na moral”, querendo dizer “você foi ótimo”. E eu e meu amigo, da escola inocência da macabeia, ficamos com cara de “erh…”. E a gente que entenda, a gente que lute para compreender que aquele xingamento na real é elogio. Admiro ironia, mas o excesso de sua utilização ou uso exclusivo dela pode ser asqueroso demais, longe da essência emotiva humana. Escudos, armaduras, por quanto tempo? Passo.

Melhorar em vida pública é sempre mais cruel, porque há abutres prontos para o abate e não para nos ajudar a nos reerguer

Nem falei sobre meus outros 700 defeitos, e sobre uma ou outra virtude. Tudo somatório de muitas vivências, experiências. Quedas, atropelos, tropeções. Tento melhorar sempre. Melhorar em vida pública é sempre mais cruel, porque há abutres prontos para o abate e não para nos ajudar a nos reerguer, enfim. Sorte minha ter a santa tríade A: amor, amigues, analista. Essas pessoas sim, me ajudam a levantar.

Ainda gosto muito de brincar de papelzinho na testa. Quase sempre tento colocar algum nome de alguém que está na roda. As perguntas ficam íntimas e as respostas são hilárias, visto que há uma pessoa que nem desconfia e há outra que está vendo a própria vida ser vasculhada. Eu já fui eu mesma, e tive que me defrontar com questões. “Eu gosto de mim?” Assim como estou me defrontando agora em plena pandemia, onde infelizmente adquiri mais manias, mais julgamentos e mais críticas. Insuportável. Quem não é? Análise ajuda. Amor colabora. Ficar calada também. Um dia ainda meto o Jair Rodrigues e entro na vibe do “deixe que digam, que pensem, que falem”. Infelizmente não vim nessa vida com o gene gatinha mistério Marisa Monte. Um dia canso de tudo e jogo o tabuleiro para o alto, mas por enquanto, mesmo com toda saga e toda lama, ainda me divirto jogando. Ainda é virtude.

Letrux é atriz, escritora, cantora, compositora e uma força da natureza cujo trabalho é marcado por drama, humor e ousadia. Entre seus trabalhos estão o álbum “Letrux em Noite de Climão” e o livro “Zaralha”

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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