Coluna do Marcello Dantas: A morte do ego — Gama Revista
COLUNA

Marcello Dantas

A morte do ego

Os eventos dos últimos dias das eleições americanas demonstram de forma explícita como o ego pode dissolver um homem

11 de Novembro de 2020

Quando Truman Capote morreu em 1984, outro célebre autor, Gore Vidal, disse que a sua morte havia sido um bom passo na carreira. O mesmo foi dito com a partida de Elvis Presley. Imaginar que a morte física proporciona uma sobrevida do ego faz parte dos paradoxos da sociedade que criamos, cuja vida vale menos do que a sua imagem. Com o passar dos anos, acumulei uma série de histórias de pessoas talentosas, capazes e bem-sucedidas que sucumbiram em função de uma terrível gestão de seu próprio ego. Ele pode muitas vezes ser um grande combustível para o sucesso e a realização profissional, da mesma maneira que tem o poder de gerar uma síndrome de negação — quando se é dominado por ele. Os eventos dos últimos dias das eleições americanas demonstram de forma explícita como o ego pode dissolver um homem. Essa instância da mente humana possui, de fato, poderes amplificadores da nossa capacidade, mas paga-se o preço mais tarde. Uma coisa é ser motivado por isso; outra é perder a noção de realidade, ofuscado pelo ego.

Uma das mais fortes experiências que tive foi a dissolução do ego causada por cogumelos mágicos, algo que me fez entender que ele pode ser o nosso maior inimigo. A dificuldade que os indivíduos têm em aceitar essa destruição diante do poder absoluto de uma substância mostra o quão importante pode ser essa vivência para se encontrar dentro do nosso tempo e fazer a transição para um outro patamar de compreensão. Grande parte de quem passa por essa experiência comprova a nossa incapacidade de existir sem a máscara que nos protege. Essa dissolução é conhecida como a completa perda da subjetividade e da identidade. Na obra “O Herói de Mil Faces”, um amplo estudo do antropólogo norte-americano Joseph Campbell sobre mitologia, a morte do ego é descrita como momento de autorrendição do herói, uma passagem essencial para a sua transformação. Em “O Livro Tibetano dos Mortos”, escritura fundamental para o budismo, essa experiência é retratada como momento chave para a transcendência. Enquanto as pessoas forem dominadas pela narrativa abstrata que criam sobre si mesmas, nunca entenderão a real dimensão do que estão adiante.

Se líderes históricos e atuais tivessem experimentado a dissolução do ego, poderiam ter nos poupado de assistir a sua derrocada

Penso que uma prova essencial para alcançar posições de poder na sociedade é a disposição de vivenciar a dissolução do ego. Diante desta revelação, poderíamos galgar os degraus de poder e acumular vivência e sabedoria necessárias para poder exercer tais posições. Talvez se líderes históricos e atuais tivessem passado por essa experiência, poderiam ter nos poupado de assistir à crônica de uma morte anunciada, originada pela incapacidade de gerir o ego.

No Vale do Silício, conselheiros de carreira de mentes privilegiadas na indústria de inovação vêm experimentando com Psilocibina e Ayahuasca para aprimorar a performance de seus líderes em equipes e em corporações. O objetivo é evitar que o ego seja o carrasco de carreiras precocemente e permitir uma melhor visão do todo e clareza de ideias. Tim Ferriss, autor do livro “The 4-Hour Workweek”, diz que quase todos os líderes da nova geração do Vale estão usando alguma dessas substâncias para algum fim transformador. Resta saber se isso funcionará no longo curso. A conscientização da importância desse processo já mostra uma grande distinção do cuidado que os ocupantes das cadeiras da Califórnia têm, diferente daqueles que ocupam as cadeiras em Washington e Brasília.

A eleição da semana passada nos Estados Unidos não foi uma guinada ideológica. Os partidos Democrata e Republicano ficaram praticamente do mesmo tamanho. A eleição marcou uma rejeição forte ao egotrumpismo. Foi também o ego de Trump que o derrotou. Curiosamente, os Estados Unidos tiveram o mais baixo índice de desemprego dos últimos 50 anos e sabe-se que o americano historicamente vota com o bolso. Ele foi também o primeiro presidente americano em mais de um século a não se envolver em um novo conflito armado no exterior durante seu mandato. Dois feitos relevantes em meio a um monte de estupidez em seu governo, marcado por sua péssima gestão do próprio ego e da visão distorcida que ele tem de si mesmo.

Nessa mesma eleição, os cidadãos do Distrito de Columbia e do estado do Oregon aprovaram, por maioria absoluta, a legalização dos cogumelos psicodélicos para uso em terapias psicológicas. Talvez, caso Trump tivesse se tratado com essa substância, haveria alguma chance dele não terminar fulminado no pleito. Como ele, muitos outros líderes estão cavando a própria cova pela incapacidade de resistir ao silêncio abissal da existência na ausência do seu ego.

Marcello Dantas trabalha na fronteira entre a arte e a tecnologia em exposições, museus e projetos que enfatizam a experiência. É curador interdisciplinar premiado, com atividade no Brasil e no exterior

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