Às vezes a ponte é o rio — Gama Revista
COLUNA

Marcello Dantas

Às vezes a ponte é o rio

Quando falamos de estarmos juntos, não é necessariamente algo físico, mas de uma sincronia sensorial

27 de Maio de 2020

Nas últimas semanas fiz uma live por dia, para manter o cérebro aceso e entender a temperatura de diferentes interlocutores sobre o que estamos vivendo. Sem dúvida, essa vontade de conversar tem a ver com a sensação de incerteza que vivemos. Incerteza não é uma coisa ruim, é a possibilidade em aberto. Pode ser a oportunidade ou o sinistro. Mas, se uma coisa está clara para mim, é que de fato iniciamos uma nova era nos últimos meses. Cruzamos um portal que nos levará a um novo lugar, não apenas a um marco simbólico, mas a um novo contexto geral de mundo. Entramos finalmente no terceiro milênio.

Uma das perguntas mais frequentes que recebo é sobre como será a arte criada nesse novo contexto. Obviamente ninguém tem essa resposta, mas eu começo a escarafunchar a perspectiva. A primeira coisa a fazer para chegar a esse novo lugar é cessar a nostalgia. Não adianta esperar que o mundo volte a ser o que era. Precisamos também abandonar o futuro do passado, pois para lá já não vamos. Chegamos a um outro lugar.

As mediações de nossas vidas se tornaram absolutamente digitais e, preciso confessar, que me parecem mais relevantes. A qualidade das ideias e a capacidade de síntese das pessoas parecem ter melhorado muito com o uso da tecnologia. Sim, pode parecer cansativo passar o dia diante de telas, mas isso não é uma escolha, assim como nunca foi uma escolha ficar engarrafado no trânsito em uma metrópole. Nos livramos dos engarrafamentos e nos vemos em um novo entelamento. Ossos do ofício.

Toda mudança se anuncia primeiro na linguagem. É na linguagem, a maior aptidão humana, que encontramos a expressão mais sincera do nosso espírito. Estamos vivendo uma profunda mudança nela, com nossas vidas transformadas pela mediação online. Como seres adaptáveis, nos adequamos aos limites dessa nova realidade. Como seres criativos, vamos inventar algo sobre nossa nova condição.

Se entendermos que sensorialidade é um fenômeno físico, estamos condenados a viver privados de emoção, o que me parece inaceitável

As lives revelaram a mágica do encontro espontâneo de ideias entre pessoas, às vezes distantes, de forma pública e documentável, balizada pelo tempo e pelo contexto direto. Por isso mesmo podem possibilitar reflexões que, de outra forma, não ocorreriam. Toda essa tecnologia já estava aqui, mas seu uso indiscriminado foi condicional ao fenômeno da reclusão compulsória de quase todo o planeta.

Neste momento em que estamos isolados, nos perguntando como será o mundo quando ele for reaberto – quais regras teremos que seguir, o que teremos que deixar de fazer –, tenho me questionado: se tivesse que escolher apenas uma coisa para levar para esse novo lugar da existência, o que seria? Concluí que o que não gostaria de perder é a minha sensorialidade.

A motivação do meu trabalho com arte e cultura sempre foi a capacidade dessas atividades proporcionarem emoção e recompensa sensorial. Contudo, se entendermos que sensorialidade é um fenômeno físico, estamos condenados a viver os próximos tempos privados de emoção, o que me parece uma opção inaceitável. Diante dessa perspectiva, fico inclinado a provocar artistas, cientistas e criadores a pensar quais outros caminhos podemos tomar para acessar nossa sensorialidade. Se as ideias viajam bem pelos meios digitais, por que não os sentidos? Seria possível somar nosso conhecimento químico, neurológico, biológico e tecnológico para produzir as sensações a que estamos sendo privados, ou até mesmo outras sensações ainda mais poderosas? Será que conseguiremos desenvolver uma nova linguagem, juntando esses conhecimentos para criar de fato uma nova forma de proporcionar emoção? Estou convencido que estamos prontos pra isso.

Quando falamos de estarmos juntos, não estamos falando necessariamente de algo físico, mas de estarmos sincronizado sensorialmente. É possível estar junto fisicamente e dessincronizado sensorialmente com alguém. Acredito ser possível produzir uma sensação de sincronia com outras pessoas se estivermos conectados por outras vias que não a presença física no mesmo espaço. Esse limitador espacial não deveria ser o limitador da nossa capacidade de conexão. O arsenal de possibilidades ao conectar o que já temos espalhados sobre mecanismos de percepção, o funcionamento do cérebro e das emoções, a química e os hormônios, nos dão elementos de sobra para inaugurar uma nova era com possibilidades infinitas. Basta baixar os velhos tabus e abrir esta caixa de pandora, que pode ser a criatividade limitada por um lado e amplificada enormemente por outro.

A quarentena deveria ser uma ponte para o outro lado do rio, porém, estamos descobrindo que, às vezes, a ponte é o rio. Nos estreitos limites dessa ponte, pode estar surgindo um novo caminho com um potencial muito maior do que a outra margem do rio. É a terceira margem ganhando forma.

Marcello Dantas trabalha na fronteira entre a arte e a tecnologia em exposições, museus e projetos que enfatizam a experiência. É curador interdisciplinar premiado, com atividade no Brasil e no exterior

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