Coluna do Marcello Dantas: 'Fungo Sapiens' — Gama Revista
COLUNA

Marcello Dantas

Fungo Sapiens

Estes pequenos e fascinantes seres podem ser a resposta para uma miríade de males dos nossos tempos. Proibir o seu uso é um ato análogo a proibir a yoga e a meditação

16 de Setembro de 2020

Cogumelos são os seres vivos mais antigos da superfície da Terra e também um dos grupos de organismos de maior diversidade no planeta. Porém, boa parte ainda não tem nome científico. Seu estudo é complexo, exige um entendimento profundo de ecossistemas ainda não amplamente estudados. Seu surgimento é efêmero, sazonal e circunstancial, o que exige um elevado nível de atenção ao local. Apesar disso, os mais velhos habitantes do planeta possuem respostas para muitos dos problemas que enfrentamos hoje.

Os povos ancestrais nativos têm um respeito profundo pelos cogumelos. Eles são elementos-chave em rituais de diferentes culturas ao redor do mundo e estão representados desde a pré-história em pinturas rupestres na Espanha, no Brasil e nas Américas Central e do Norte.

A academia durante muitos anos não abraçou essa pesquisa por diferentes motivos, seja pela dificuldade de fazê-la sem se deslocar para regiões remotas, pelo desinteresse corporativo, ou ainda pela estupidez das legislações antidrogas psicodélicas, iniciadas pelo ex-presidente norte-americano Richard Nixon no final dos anos 1960. Mas estudiosos independentes como Paul Stamets, James Trappe, Philip Ross e Alexander Sasha Shulgin expandiram bastante o nosso conhecimento sobre como estes pequenos e fascinantes seres podem ser a resposta para uma miríade de males dos nossos tempos.

Alguns dos tratamentos com resultados extremamente animadores no contexto medicinal incluem a cura de alguns tipos de câncer; tratamento de Alzheimer; alívio de sintomas do autismo; redução drástica de vários tipos de inflamação do corpo; alívio psíquico para pacientes terminais; auxílio no tratamento de depressão, ansiedade, insônia, alcoolismo, tabagismo, dependência de drogas, obesidade, estresse pós-traumático e pode até reduzir atividade em uma parte do cérebro possivelmente relacionada ao ego. Alguns desses benefícios provavelmente devem interessar a você.

E, para além do campo psíquico, poucos sabem que existem diversas pesquisas avançadas hoje com o uso de cogumelos em outras áreas: tijolos para construção civil, despoluidores de águas contaminadas por combustíveis fósseis, materiais que substituem o couro e a madeira, alternativas mais ecológicas ao enterro tradicional e à cremação, gerador de etanol renovável, substituto de pesticidas químicos para o controle de pragas, entre diversos outros usos. Mas é no campo da medicina e da psicologia que as promessas dos cogumelos já fazem entregas impressionantes.

Os cogumelos podem abrir essas e outras portas se forem objeto de pesquisas ainda mais profundas. Um dos principais empecilhos para ampliar as pesquisas dos usos dessas substâncias é pelo fato da indústria farmacêutica não se interessar por insumos naturais que não possam ser patenteados e, menos ainda, por remédios que não gerem tratamentos contínuos, mas sim, curas profundas de alguns sintomas, mesmo quando usados em doses únicas.

O grande acontecimento que trouxe os cogumelos alucinógenos para o campo da ciência foi o trabalho do químico suíço Albert Hofmann. Nos anos 1950, ele isolou a Psilocibina, substância ativa da espécie Psilocybe Cubensis, e entendeu os princípios de seu funcionamento no cérebro. Foi o mesmo Albert Hofmann que, em 1938, criou o LSD. Os estudos com a Psilocibina mal haviam começado quando Nixon, num ímpeto autoritário, interrompeu o processo. Mesmo com a avaliação de um painel de cientistas que analisaram a substância na FDA (Food and Drug Administration) e que apontaram consensualmente o interesse medicinal, ele decidiu classificá-la como droga proibida e equivalente à cocaína e à heroína, sem qualquer valor medicinal. O lobby americano fez com que inúmeros países também o proibissem. Assim, o mundo abandonou uma das mais poderosas ferramentas para lutar contra os males da era moderna.

Estamos entrando em um renascimento das pesquisas com as substâncias psicodélicas ancestrais e seu potencial transformador

Somente em 2006, quando Hofmann completava cem anos, cientistas de diversas nacionalidades se reuniram para a celebração de seu aniversário na Basiléia, na Suíça, e concordaram que a substância tinha um enorme potencial medicinal e que os estudos deveriam retornar. A academia despertou para esse enorme potencial. Aos poucos, vários países estão autorizando as pesquisas e a paisagem tem mudado radicalmente nos últimos anos, com avanços endossados por instituições de referência, como o Imperial College de Londres e as americanas Johns Hopkins University e minha alma mater New York University. Estudos dessas universidades mostram que os cogumelos são as drogas mais seguras que existem, pelo menos 20 vezes menos letais do que o álcool, tanto para o usuário quanto para a sociedade.

A legalização, ainda que parcial em alguns países, começou a se consolidar. Figuras proeminentes lançaram livros relacionados ao tema nos últimos tempos. Mais recentemente, o escritor americano Michael Pollan com “Como Mudar sua Mente” (Intrínseca, 2018), sobre suas experiências com cogumelos e outros psicodélicos. E o genial neurologista Oliver Sacks escreveu o hoje clássico “A Mente Assombrada” (Companhia das Letras, 2012) sobre as suas próprias alucinações. Ambos, tiveram suas primeiras experiências em idade adulta buscando conhecimento e respostas para perguntas que não tinham respostas. Estamos entrando em um renascimento das pesquisas com as substâncias psicodélicas ancestrais e seu potencial de transformar a forma como enfrentamos nosso entendimento da mente, da medicina e das drogas. Proibir o seu uso é um ato análogo a proibir a yoga e a meditação.

Essa é uma das poucas áreas que o Brasil tem uma vantagem competitiva, não apenas pela biodiversidade dos cogumelos com potencial em nossos solos, mas também pela legislação brasileira que os descriminalizou em 2006. E também pelo trabalho sério de importantes neurocientistas como Sidarta Ribeiro, da UFRN, e Eduardo Schenberg, da USP.

Uma outra área que se desenvolveu rapidamente nos últimos anos foi a da microdosagem: quantidades superbaixas da substância, que antecedem o nível de alucinação, têm ajudado a promover equilíbrio emocional, foco, estimular a criatividade e a clareza de raciocínio. Por geralmente apresentar pouco ou nenhum efeito colateral, essa prática vem crescendo rapidamente no Vale do Silício e em rodas intelectuais do mundo todo. É o cogumelo expandindo a inteligência e a capacidade criativa da humanidade.

Terence McKenna, pesquisador etnobotânico que nos anos 1960 tomou a maior dose de cogumelos da qual se tem notícia, formulou a hipótese dos cogumelos serem os responsáveis pelo desenvolvimento da linguagem nos Homo sapiens. A tese é justificada pelo consumo de cogumelos entre os primatas e pela capacidade deles gerarem efeitos sinestésicos profundos. Esses efeitos podem ter expandido territórios do cérebro humano para criar a mais explícita manifestação de sinestesia que é a linguagem. Somos sapiens porque fungos comemos.

Os cogumelos, especificamente os da família Psilocybe, têm um potencial de fazer o usuário atingir um estado de autorreflexão semimeditativo que pode ser transformador para a personalidade de forma perene. Talvez, o grande mal do Brasil no momento seja a nossa dificuldade de tomada de consciência sobre o destino que queremos neste contexto estranhamente adverso. Por um lado, penso que assim como o vírus nos deu uma oportunidade única de pausa e desaceleração, os fungos têm um potencial de gerar reflexão e uma mobilização interior que pode ser a melhor resposta criativa para os desafios que temos. O planeta tem as respostas, basta aprendermos a ouvir.

Marcello Dantas trabalha na fronteira entre a arte e a tecnologia em exposições, museus e projetos que enfatizam a experiência. É curador interdisciplinar premiado, com atividade no Brasil e no exterior

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