Terráqueos, uni-vos — Gama Revista
COLUNA

Marcello Dantas

Terráqueos, uni-vos

É na colaboração, no entendimento e no contato cultural que podemos lutar a primeira batalha pelo time da humanidade

01 de Abril de 2020

Sabe-se que grande parte dos agentes difusores do coronavírus são pessoas que trafegam intensamente pelo planeta, gente como eu. Trabalhei a vida toda para estabelecer elos culturais entre povos distantes, entre poéticas distintas e entre sensibilidades e conhecimentos diferentes. Trabalhos como esse pedem que se percorram dezenas de fronteiras e milhares de quilômetros por ano, nos fazendo vilões pela dispersão do vírus de uma pandemia já esperada.

De certa forma, o que muitos governos estão fazendo para demonstrar virilidade política — fechar as fronteiras — é, na realidade, fechar a porta para a única possível cura. A história ensina que a cura para os males de saúde vem da capacidade de juntar conhecimentos de pontos de vista distintos que, quando combinados, criam a eureca da cura. Nenhuma sociedade sozinha possui conhecimento suficiente para estancar os males que nos afligem. Essa crise que estamos vivendo demonstra que não precisamos mais de países, pois nossos inimigos estão numa outra dimensão, os exércitos são inúteis, e a única vítima é a humanidade como um todo.

Mas, na visão xenófoba, o mal veio da China, da Itália, do estrangeiro, como essas mentes tacanhas costumam chamar todos os que diferem de si. Seríamos puros se não fosse esse contato. Seríamos perfeitos se não tivéssemos que nos mensurar diante dos outros (o sítio do inferno, segundo Sartre). Esse tipo de pensamento me faz questionar como pode existir uma cultura global numa era de trevas profundas.

Na visão xenófoba, o mal veio da China, da Itália, do estrangeiro, como essas mentes tacanhas costumam chamar todos os que diferem de si

O que me fascina no que faço é exatamente desvendar os outros ao entender culturas distantes, gastronomia, arte, língua, corpos e tempos. Com eles, aprendo sobre o que nos torna humanos, o que temos em comum e o que expande nosso conhecimento sobre estar neste mundo. Essa troca fascinante é resultado, em grande parte, do processo de globalização, que começou há pelo menos 500 anos, mas que se intensificou muito nas últimas décadas.

O modelo mental do contato cultural é parecido com o modelo dos vírus. Os governantes sempre se preocuparam com a infiltração de agentes subversivos estrangeiros, que trariam um “vírus” mental para nosso pacífico rebanho. Foi assim com a Revolução Francesa, com o movimento liderado por Simón Bolívar nas Américas, com as ideias comunistas e com a Revolução Russa. Sempre existiu o medo da inoculação de mentes com ideias distintas das predominantes. Foram necessários anos de liberdade e de intercâmbio para que flexibilizássemos as resistências contra as ideias de outras origens.

Com a globalização cultural, que vejo como positiva, veio a aceleração econômica, que funcionou como um fator desestabilizador do equilíbrio ambiental do planeta. É aí que surge a confusão: a intensificação da aceleração consumista do mundo não está diretamente ligada à sensibilização de pessoas a outras culturas. A troca cultural nos tirou de um mundo feudal e nos levou a um mundo onde nos reconhecemos como humanidade. Essa mudança da geografia de nações para uma identidade planetária seria o melhor resultado desse processo, tornando irrelevantes os governantes que defendem ideias nacionalistas.

Porém, o medo é o grande acelerador da manipulação política. Esse vírus é um risco para a humanidade, não somente para um país. Isso deveria nos unir para entendermos que a dimensão dessa luta é épica. Pela primeira vez, estaremos lutando todos juntos contra um inimigo realmente externo à nossa existência. Não existe cura nacional; ou encontramos uma cura global ou nunca venceremos esse vírus. É na colaboração, no entendimento e no contato cultural que podemos lutar a primeira batalha pelo time da humanidade. Terráqueos, uni-vos.

Marcello Dantas trabalha na fronteira entre a arte e a tecnologia em exposições, museus e projetos que enfatizam a experiência. É curador interdisciplinar premiado, com atividade no Brasil e no exterior

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