A pandemia na floresta — Gama Revista

Conversas

A pandemia na floresta

©Carlos Fausto

Para os povos indígenas, a Covid-19 representa um perigo de extinção cultural: com a morte dos anciãos, guardiões de conhecimento, seu saber pode ser dizimado. É o que diz Aparecida Vilaça no livro ‘Morte na Floresta’

Isabelle Moreira Lima 03 de Julho de 2020

Entre os povos indígenas, a pandemia da Covid-19 representa uma espécie de trampolim, impulsionando ações criminosas como desmatamento, grilagem, mineração ilegal e invasões, uma vez que o foco das notícias está em outro lugar. É também como um incêndio nas nossas bibliotecas, matando líderes que são guardiões de sua cultura.

“É todo um patrimônio da humanidade que está sendo dizimado. O que tem nessas populações são saberes. Não consigo verbalizar o tamanho dessa perda. São sociedades orais, o conhecimento está naquelas pessoas. E não é só algo que diz respeito a plantas e remédios, mas a filosofias, a modos de ver o mundo”, afirma a antropóloga Aparecida Vilaça, autora do livro “Morte na Floresta”, que a editora Todavia acaba de lançar como parte da coleção 2020, de ensaios sobre a pandemia.

Encomendado em abril, o livro foi escrito em maio e publicado há duas semanas, mas tem como base o trabalho de três décadas de Aparecida, que é professora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, transposto para o contexto da crise causada pelo novo coronavírus. “O que essa pandemia tem a nos ensinar é que devemos ouvir os povos indígenas. Eles estão tentando nos dar soluções. A gente não sabe como proceder e eles sabem. É como se dissessem ‘me dá a mão, vamos por aqui’. E nós não estamos ouvindo.”

Leia a entrevista concedida a Gama em que ela fala sobre as graves consequências da pandemia para os povos indígenas brasileiros, além de problemas ancestrais como o racismo estrutural de que são vítimas. “As pessoas, no Brasil, não dão importância à situação indígena, algo que sempre me impressiona. Há preconceito, descaso. A pressão que vem de fora é muito maior”, diz.

Mulheres do povo Wari, em Rondônia, que é centro da pesquisa de Aparecida Vilaça
  • G |Estamos vivendo uma experiência devastadora inédita, mas que não é exatamente estranha a alguns povos indígenas. Que ameaça essa nova pandemia representa para eles especificamente?

    Aparecida Vilaça |

    É um sentimento renovado porque são diferentes gerações que estão sendo atingidas. Há relatos por parte dos pais e avós, mas tem toda uma geração que está experimentando essa epidemia de grande porte com uma mortalidade altíssima pela primeira vez. Cada epidemia é uma novidade, uma nova experiência devastadora, de sensação de impotência, de ameaça, de luto, por causa das mortes, e especialmente dos mais velhos. Eles já aprenderam [em outras experiências] a se deslocar, buscar isolamento. Mas cada geração vive isso de uma forma diferente. E, ao final desse capítulo, eu ponho interrogação: somos todos indígenas? Porque justamente, como era de se prever, com o acesso precário à saúde, eles estão no pólo dos desvalidos, da nossa população marginalizada, mais pobre. Nem todos somos indigenas nesse sentido. Alguns morrem em casa, outros em filas, outros nas ruas da cidade. É uma situação grave e muito dramática.

  • G |Você fala que o vírus, em vez de obstáculo para a destruição da floresta, é um trampolim para as ações criminosas. Há uma dimensão dos estragos que estão sendo feitos hoje? Qual o peso das pressões internacionais?

    AV |

    Vimos a declaração do ministro do Meio Ambiente em que diz que vai aproveitar esse tempo de calmaria para passar a boiada, ou seja, leis ambientais que não seriam aprovadas em momento de mais atenção da sociedade civil. Isso vem já no rastro de um processo de invasão de terras indígenas, de áreas protegidas, de reservas biológicas, na Amazônia e no Pantanal. Não são invasões legais, mas são autorizadas em discursos do governo. Já havia um rastro de invasão; com o coronavírus, a atenção da mídia se voltou à doença e as invasões continuam. Fica tudo mais grave. Os garimpeiros continuam no território Yanomami. O que está acontecendo é uma pressão da comunidade internacional em relação a essa destruição da Amazônia. Acabei de ler que os acordos da comunidade europeia com o mercosul estão sendo questionados. Tem vários movimentos internacionais, como grandes supermercados ingleses começando a recusar produtos brasileiros. Esse é um movimento muito importante. Somente com a pressão internacional e comercial, que é a linguagem que esse governo entende, a econômica, é que se pode parar essa destruição gigante. Outro problema é que os funcionários do Ibama e de outros institutos estão proibidos e censurados de informar.

  • G |Você escreve também que as mortes dos mais velhos equivalem a incêndios nas nossas bibliotecas. Há algo que pode ser feito? Como as comunidades estão vendo isso?

    AV |

    Depende da comunidade. Muitas delas já tem um processo de transmissão elaborado com a ajuda de organizações, de antropólogos, de gravação de fitas e imagens, existem vários caminhos. Mas há comunidades que estão sendo pegas completamente de surpresa, com a morte dessas pessoas que eram guardiões de memória. Alguns nem eram tão velhos, como o Paulinho Paiakan, que tinha 67 anos e morreu num momento em que ainda estava muito ativo como transmissor de conhecimento. A morte deles representa um corte nesse processo de transmissão a gerações sucessivas. Essa metáfora da biblioteca foi feita em maio. Agora está muito pior. Eles não terão como “repor esses livros”.

  • G |O auxílio dado pelo governo ficou conhecido como “os 600 reais da morte”, como você conta no livro. Qual a importância disso para os indígenas?

    AV |

    Esse capítulo foi escrito no auge da busca pelo benefício, porque os R$ 600 apareceram em abril. Agora, eles entenderam que o auxílio pode ficar mais algum tempo no banco. A informação inicial era que tinham que retirar em tantos dias. Minha impressão é que muitas comunidades estão muito assustadas. Eles estão num beco sem saída, porque estavam acostumados, como estão sedentarizados, a viver em um lugar fixo, o que esgota as terras para plantio, reduz a caça e a pesca, e aí dependem de auxílios. Para complementar a alimentação, precisam ir à cidade para comprar comida. A pandemia os pegou desprevenidos. Em algumas localidades são entregues cestas básicas, mas elas não são suficientes — as famílias não têm cinco pessoas, mas dez. As doações da sociedade civil então têm sido muito importantes.
    O ideal é que os indígenas conseguissem voltar a ser autossuficientes. Os programas de auxílio do governo criam um ciclo vicioso — eles reduzem a produção interna e precisam complementar alimentação. Soube que os Nambiquara estão voltando para as roças agora na pandemia. Enquanto uns estão na fila, outros estão na roça, tentando viver da terra.

  • G |Alguns povos indígenas se isolaram para sobreviver ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, o isolamento ocorre em comunidade. Como a recomendação de isolamento social foi recebida nas aldeias?

    AV |

    No livro, falo de dois tipos isolamento: o que é o voluntário, buscado por várias comunidades do Brasil que não gostavam do que estava acontecendo, que estão nesse estado há muitos anos, são respeitados e têm direito a isso; e o involuntário. Se para a gente a morte por Covid é aterrorizante, a dor dos parentes, o doente sozinho no hospital, no caso dos povos indígenas isso se agrava pela percepção de que a doença é uma espécie de disputa entre mortos e vivos, entre espíritos e humanos. Assim, se você está perto de seus parentes quando está doente ou em estado grave, tem a garantia de que eles estão segurando você nesse mundo. Tem a questão do isolamento da pessoa cujo caso é mais grave, que encara um risco maior [por estar longe dos parentes]. E tem o isolamento coletivo que, a depender do tamanho do grupo, pode ser mais ou menos grave. Comunidades muito pequenas que se isolam por massacres ou epidemias acabam em certo momento com vontade de procurar outros parentes, de ter mais gente, de fazer seus rituais.

  • G |O cuidado com o doente nas aldeias, segundo seu livro, é o oposto do isolamento. Isso explica também o porquê da doença se espalhar tanto?

    AV |

    A vida diária das pessoas saudáveis é uma vida em que se partilha talheres, pratos, panelas, cama — não é só o casal que dorme na esteira, mas podem dormir vários membros da família. A relação dos corpos é de partilha, de estar mais próximo. É diferente da classe alta, que tem certa facilidade em separar porque já tem a ideia de privacidade e individualidade. Para os povos indígenas, essas ideias não fazem sentido. Então, se há alguém doente mas assintomático, vai partilhar e tocar em pessoas que não estão contaminadas. Se uma pessoa está doente, aqui a gente teria a instrução mantê-la separada em outro cômodo. Lá é o contrário, todo mundo vai ficar perto para cuidar, dar chá. Até chegar auxílio médico para a Covid, já havia uma contaminação muito grande.

  • G |Recentemente, vimos a história das mães ianomâmis que foram separadas de seus bebês mortos por Covid. O que esse caso nos diz sobre o modo como lidamos com os povos indígenas?

    AV |

    Os povos indígenas fazem parte da nossa estrutura racista, dessa sociedade que tem pavor da diferença. A começar pelos missionários, com imposição de normas, leis, vestimentas. Eles estão fazendo um estrago enorme entre os povos indígenas, essa separação entre humanos e não humanos, essa autorização divina que vem da bíblia para explorar o ambiente. Nós, os brancos, os urbanos, queremos impor uma identidade e os povos indígenas, os negros e outras minorias, como os LGBTQI+, ameaçam essa ideia de um mundo normalizado. Além disso, os povos indígenas ameaçam interesses econômicos: as pessoas estão de olho nas terras deles, que têm minerais, madeira e outros recursos. Isso soma-se ao racismo, à ideia de que são selvagens, não têm modos, não são civilizados.

  • G |Alguma chance disso mudar?

    AV |

    Só com movimentos indígenas, que estão cada vez mais articulados, para se fazerem visíveis. As leis já existem na Constituição de 1988, mas não são respeitadas. Eles têm direito à terra, à cultura, ao seu modo de vida. O trabalho de lideranças que se articularam como Davi Kopenawa, Ailton Krenak, Raoni e o Paulinho, que faleceu, é importantíssimo porque têm alcance internacional. O racismo interno é tão forte que é muito difícil rompê-lo se não houver um olhar de fora e sanções que possam sustentar esses direitos.
    Mas o despreparo para lidar com a diferença é claro. Por isso esse absurdo das mães ianomâmi. Os bebês morreram e elas não foram avisadas. E nessa cultura, eles têm que ser cremados, é importantíssimo para dar possibilidade a essas almas. É preciso ter protocolos que atendam a essas diferenças. Se os corpos com Covid contaminam, você pode fazer lacramento de caixão, incineração. Não é porque estamos na pandemia que as regras passam por cima do respeito à cultura indígena. Você jamais veria uma pessoa de classe média, ou mesmo uma pessoa não indígena no hospital público passar por isso, é uma violência em todos os sentidos.

  • G |No fim do livro, você sugere que esse vírus pode ser um ensaio geral para algo que ainda está por vir.

    AV |

    A minha esperança é que essa pandemia seja um ensaio geral para a gente depois mudar. Você ensaia, vê os erros e resolve. Precisamos estar conscientes de que a pandemia faz parte da doença da nossa relação com o ambiente. É uma zoonose, como outras causadas por vírus e bactérias que vêm da exploração da natureza. A doença é a manifestação de uma doença planetária maior. Durante a pandemia, vimos animais selvagens em parques, até nas cidades. Na China, aquela nuvem de poluição se dissipou; você vê pela primeira vez o Himalaia da cidade. Isso mostra que uma parada, uma desaceleração radical é essencial para que a gente possa sobreviver e manter o planeta Terra habitável para nós e para outros seres. Esse último capítulo é um capítulo de esperança, de mostrar que existem formas de reconexão.

    Temos que mudar nossa relação não só com outras culturas como a indígena e a quilombola, mas com animais, vegetais, com as florestas. Os indígenas vivem de modo radicalmente diferente e tem entendimento da inserção deles no mundo, da relação com outros seres. Isso se relaciona com outra coisa importante, que está na epígrafe da Anna Tsing que eu uso no livro: a ideia de se fazer conexões entre povos e pessoas através de narrativas. A nossa civilização é como um vírus, que vai tentando se reproduzir, passa por um corpo, passa pelos indígenas, pelos africanos escravizados e vai deixando um rastro de destruição. A ideia é mudar essa relação, e os indígenas estão nos dizendo o que e como fazer. E nós estamos fazendo o contrário: destruindo a terra deles, mandando missionários para cortar as pontas das histórias, destruindo tudo.

Produto

  • Morte na Floresta
  • Aparecida Vilaça
  • Editora Todavia
  • 56 páginas

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