Entrevista com Gui Christ sobre seu fotolivro "Fissura" — Gama Revista
Gui Christ

As Fissuras da Cracolândia

Em seu novo livro “Fissura”, o fotojornalista Gui Christ retrata a dependência química, o estigma social e a violência sistemática em uma das regiões mais problemáticas de São Paulo

Daniel Vila Nova 19 de Janeiro de 2021

Carioca radicado em São Paulo há 10 anos, o fotógrafo Gui Christ sempre ouviu falar sobre a Cracolândia. Quando criança, diziam que os traficantes do Rio temiam que o crack chegasse à cidade maravilhosa, tamanho o poder destrutivo da droga.

O medo da Cracolândia, e daqueles que ali habitavam, o afastou da região por um bom tempo. Mas foi em 2017, após brutal ação da polícia paulista, que o fotógrafo voltou suas lentes para uma das regiões mais problemáticas da cidade.

A megaoperação policial, que o Christ classifica como “cinematográfica” estilo “Platoon”, o filme de Oliver Stone de 1986, chamou sua atenção. Nos dias seguintes, ele visitou a região e se chocou com o que encontrou.

Gui Christ passou dois anos fotografando e pesquisando a Cracolândia
A região, que foi projetada para receber os barões de café brasileiros, hoje é abandonada pelo poder público Gui Christ

Ao andar pelos casarões, hotéis e pensões da região, o fotógrafo descobriu que aquele lugar um dia já havia sido o bairro mais nobre da cidade. “São décadas de histórias sendo apagadas, mas ainda é possível ver os vestígios. E isso te envolve. A sociedade enxerga o usuário de crack como um zumbi, alguém abaixo da linha de qualquer merecimento, um vagabundo e bandido. Mas a verdade é que são pessoas doentes e marginalizadas, que também tem uma história para contar.”

Assim nasceu “Fissura”, livro lançado de maneira independente por Gui Christ. O nome, segundo o fotógrafo, se tornou um conceito amplo ao longo da pesquisa. “É a gíria que usam para descrever a droga, quando a pessoa está fissurada para usar crack. Ao mesmo tempo, a fissura é ferida. É a rachadura na pele, os machucados e as violências que sofrem na rua. É também rachadura nas paredes dos casarões e palacetes que hoje são um point de crack. Por fim, a fissura social, que distancia a classe média paulistana que mora no entorno da região.”

Com mais de 2 mil retratos produzidos, Christ ficou conhecido como “o cara da 3×4” na regiãoGui Christ

3×4

No começo de seu projeto, Christ encontrou dificuldades para produzir um bom material. Como a redação da Folha de S. Paulo fica próxima à Cracolândia, era comum chegar aos locais e encontrar repórteres e fotógrafos do jornal. “Se alguém já estivesse ali, eu não conseguia vender minha história. Certa vez, a prefeitura demoliu um prédio com pessoas dentro. Me ligaram, mas quando eu cheguei lá a Folha e outros veículos já haviam tirado fotos, a minha não ia render.”

Com o tempo, Christ criou uma rede de contatos na região e passou a se perguntar como poderia retratar as pessoas dali de outra maneira. “Meu intuito sempre foi mostrar eles de uma maneira humana, sem aquela foto típica do cara abaixado no cantinho fumando Crack.”

O fotógrafo encontrou uma ONG que oferecia banho e almoço para os usuários de drogas. As filas eram gigantescas e havia aqueles que esperavam quase cinco horas para serem atendidos. “Ali era um local seguro para fotografar. Pedi permissão para o pessoal da ONG e fui conversar com as pessoas da fila. Ninguém queria tirar foto, eles têm muita vergonha da própria imagem.”

Ele já estava indo embora quando foi abordado por um homem, “você pode tirar uma 3×4 minha? É para eu procurar emprego.” O fotógrafo improvisou e, em uma parede branca, tirou a foto. Logo em seguida, uma mulher também perguntou se ele estava tirando fotos 3×4. Ela queria enviar a foto para a filha, para provar que estava viva.

“Ali, entendi como poderia acessar essas pessoas. Montei um estúdio móvel de 3×4 e passei a oferecer fotos para eles. Fiz mais de 2 mil retratos.”

O fotógrafo descobriu um mercado paralelo de documentos na Cracolândia. Muitos usuários vendiam seus RGs e CPFs e perdiam o acesso as fotos do documento, essenciais na busca por emprego.

“Conversei com o pessoal da ONG e eles toparam. Imprimi plaquinhas escrito ‘3×4 grátis’ e passei a ir lá toda quarta-feira. Foi um sucesso, todo mundo queria uma foto 3×4. Com o tempo, comecei a fazer a minha produção também.”

Cachimbos improvisados também foram fotografados. “O livro é essa mescla de cachimbos, de retratos 3×4, de paisagens das ruas e dos casarões.” Christ, que se considera um retratista, passou a ser conhecido como “o cara das fotos” na Cracolândia. “Moro relativamente perto, estava passando de carro no farol da região e vi um homem pedindo dinheiro. Ele me olhou e falou ‘você não. Você não precisa me dar dinheiro, você já me deu a foto.”

As rachaduras dos prédios e palacetes se tornam parte importante do trabalho do fotógrafo
O acesso às construções foi possibilitado após conversas com a associação de moradores
Além de poéticas, as fissuras da Cracolândia também são materiaisGui Christ

O outro lado

No dia 8 de dezembro de 2020, um vídeo de um grupo promovendo um arrastão nas ruas de São Paulo viralizou na internet. A filmagem mostra o grupo saqueando e quebrando carros na região central da capital paulista.

A Polícia Militar afirma que a confusão começou após uma ação de limpeza realizada pela prefeitura e pela GCM (Guarda Civil Metropolitana). Ainda de acordo com a versão oficial, o tumulto começou após o grupo atacar homens da GCM com “pedras, paus e outros objetos”.

Há, entretanto, uma outra versão para o ocorrido. Segundo o Padre Júlio Lancelotti, ativista pelos direitos da população em situação de rua, o arrastão ocorreu após a GCM impedir que usuários de drogas se protegessem da chuva de granizo sob a marquise da Estação Júlio Prestes.

“O que está sendo divulgado é só uma parte da narrativa”, disse o padre ao UOL. “Quando começou a chuva, muitos procuraram proteção na marquise da Júlio Prestes, mas a GCM atacou para que eles não entrassem.”

Muita gente me perguntou qual a contrapartida que isso dá para as pessoas fotografadas. É a promoção desse debate. Acredito que posso utilizar meus privilégios para alertar sobre esse tema

O outro lado da narrativa foi o que mais chamou a atenção de Christ, que passou a entender o seu trabalho como uma forma de promover a visibilidade de um tema tão sensível. Financiado por meio de crowdfunding, o papel de “Fissura” chegou a ser questionado. “Muita gente me perguntou qual a contrapartida que isso dá para as pessoas fotografadas. É a promoção desse debate. Eu não sou hipócrita, vendo essas fotos. Mas acredito que posso utilizar meus privilégios para alertar sobre esse tema.”

Para Christ, o trabalho de retrato é sempre feito a quatro mãos. “Eu não posso fotografar alguém se a pessoa não me ceder a imagem dela. A partir dessa conversa, estabeleço um diálogo e a fotografia nasce. O meu grande tema de pesquisa são as margens, se eu não dialogo com as margens, não sou aceito e não consigo trabalhar.”

“A grande crítica que muitas pessoas fazem é em relação a como essas fotos são usadas na imprensa. Só se vai na Cracolândia para mostrar o quebra-pau, para mostrar o consumo de droga. Essa é a diferença do meu trabalho, eu crio um relacionamento e uso essas fotos para fomentar um debate.”

“Fissura” arrecadou mais de R$ 35 mil por meio de financiamento coletivo
A grande maioria dos cachimbos foi doada para Christ por usuários ou ONGs que recolhiam tais objetos
O livro abre com frames do vídeo da violenta operação policial ocorrida na Cracolândia em 2017

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