Como é fotografar uma crise — Gama Revista
©Victor Moriyama / The New York Times

Como é fotografar uma crise

Em entrevista a Gama, o fotojornalista Victor Moriyama fala sobre os cenários que retratou durante a pandemia

Laura Capelhuchnik 19 de Maio de 2020

A foto acima é uma das imagens mais marcantes do processo transição da cidade de São Paulo para o isolamento social e da adoção da janela como suporte da expressão pública nesse período. Foi capturada em 18 de março, poucos dias antes de o governo oficializar a quarentena, e na semana em que explodiram os panelaços contra o presidente Jair Bolsonaro.

Publicado em página dupla no jornal americano The New York Times, curtido milhares de vezes e compartilhado à exaustão, esse rapidamente se tornou um dos trabalhos mais conhecidos do fotojornalista paulistano Victor Moriyama, ainda que destoe muito do restante de seu HD. Nos seus registros predominam conflitos ambientais e retratos da violência e da desigualdade que pautam determinadas relações sociais no Brasil, geralmente capturados em lugares distantes do centro de São Paulo, mas sem endereço fixo.

Já no primeiro ano de trabalho, como fotojornalista do Jornal O Vale, Moriyama esteve no Rio de Janeiro cobrindo a ação policial no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e em São José dos Campos, para registrar a reintegração de posse da comunidade do Pinheirinho, onde morou durante uma semana.

Hoje documenta conflitos agrários, desmatamento, o processo de aceleração das mudanças climáticas e a situação dos povos indígenas. Também tem trabalhos publicados sobre a crise dos refugiados venezuelanos e a população carcerária do Brasil.

Hoje, aos 35 anos e com uma década de carreira, o fotógrafo é colunista do El País e trabalha como colaborador de veículos como a revista National Geographic e o New York Times. Sua rotina é um tanto quanto nômade: faz trabalhos pontuais em São Paulo e outros lugares do Brasil, mas está pelo menos três vezes por ano na Amazônia. Em 2019, passou dois meses na região, mergulhado em um especial para jornal americano sobre o desmatamento após o primeiro ano do governo Jair Bolsonaro. Entre outros reconhecimentos, o material foi premiado na competição internacional de fotojornalismo POYi (Pictures of The Year International).

Nesta entrevista a Gama, que aconteceu por mensagem de voz e de texto durante dois dias em que o fotógrafo cobriu a pandemia — um deles em um cemitério em São Paulo –, Moriyama fala dessa foto que fez do Copan, de como tem vivenciado o período e do seu ativismo pelo meio ambiente.

Série de fotos no Cemitério Vila Formosa, em São Paulo, feita por Victor Moriyama durante o período de isolamento social
  • G |Em comparação com tudo o que já registrou, como você vê seu trabalho na pandemia?

    Victor Moriyama |

    Não acho que eu estou conseguindo fotografar muito bem, para ser sincero. O acesso é muito complicado, você fica restrito a se movimentar, aí se sente culpado pela possibilidade de contaminar as pessoas…É sempre um pesadelo essa coisa de “saio para a rua ou não saio?”. Tenho trabalhado três vezes por semana, mas é completamente diferente de tudo o que eu já fiz. Porque é uma guerra mesmo. Eu tento não pensar muito sobre o medo, deixar ele me consumir, senão não consigo fazer o que eu faço. E como jornalista tenho que documentar o que está acontecendo. Em qualquer momento histórico o jornalismo vai ser sempre essencial, e neste momento não é diferente. Então elegi com meu chefe [do NYT] temas para mostrar onde a coisa está muito ruim, onde as populações estão mais desassistidas. Fotografei distribuições de cesta básica, fui a várias favelas, estive com os indígenas Guarani que estão se virando como podem com a medicina da natureza.

  • G |Por que não está satisfeito?

    V.M. |

    Esta semana, por exemplo, teve um dia em que eu achei que era uma história interessante mas depois cheguei em casa com imagens que não eram tão boas. Um dia de muita conversa e pouca foto. De um modo geral, tenho achado que as fotos não estão tão legais, mas também sinto que não faz sentido ficar saindo para fazer foto de máscara, hospital. Fico pilhado de ir para Manaus, porque penso que vou fazer um trabalho muito mais forte do que aqui. Acho que o coronavírus está nos lugares do interior, para onde eu queria ir. Aqui não estou muito motivado e de fato não trabalho em São Paulo há muitos anos, faço pautas mais pontuais. Tenho uma vida na estrada, e isso tem várias consequências, positivas e negativas.

  • G |Qual foi seu dia mais difícil desde que a pandemia começou?

    V.M. |

    Ontem fui no cemitério pela segunda vez e foi bem difícil. É sempre bem difícil. Mas o fotojornalista cria uma casca, não sei muito bem dizer de onde vem, mas tem uma armadura forte que impede que a gente fique muito mal com tudo o que documenta. Porque num país como o nosso a gente só documenta injustiça e violência, afinal é o que permeia a sociedade brasileira. Ontem estava fotografando a Maria das Neves, que tinha perdido seu marido. Ela chorava muito e dizia “José, por que você me abandonou? Por que não foi forte? Por que não aguentou esse vírus?”. Cemitério é uma das piores coisas que tem para fotografar na profissão. Ontem os coveiros me falaram que a média de enterros no Cemitério Vila Formosa era de 35 por dia e agora são de 70 a 80 enterros diários. O trabalho basicamente dobrou.

Acredito que uma foto boa é uma foto íntima. Não é chegar apontando a câmera, que é uma coisa extremamente agressiva

  • G |A foto do Edifício Copan à noite virou uma das imagens icônicas da quarentena. Como ela foi feita?

    V.M. |

    Fui fotografar uma amiga minha que estava em home office, e ela me falou de um amigo que morava no edifício Louvre, que tem vista pros fundos do Copan. Naquela semana, início de março, o pessoal já tava em autoquarentena e logo depois ela foi oficializada pelo governo de São Paulo. Os panelaços contra o Bolsonaro estavam começando a todo vapor, e pensei que ali daria para fazer uma foto muito legal, porque lá pelas 18h, 19h, todo mundo já ia estar em casa. Foi a semana de pico dos panelaços e ninguém mais estava indo para a rua, barzinho, não tinha mais nada à noite. Subi na cobertura do edifício Louvre, do [arquiteto] João Artacho Jurado, que é maravilhosa, e foi ótimo porque tinha uma vista superprivilegiada. Às 20h, a galera já estava ensandecida, fazendo protesto, quase todas as luzes acesas. E ela foi bastante emblemática desse começo da pandemia.

  • G |Você imaginou que ela ia ter essa repercussão?

    V.M. |

    Na verdade eu nem acho essa foto incrível — sinto que qualquer pessoa poderia ter feito — mas o timing foi muito importante, e de fato teve uma repercussão muito grande, saiu numa página dupla no New York Times. Meu chefe até elogiou, falou que essa foto está entre as cinco mais emblemáticas que o jornal publicou da época do coronavírus. Mas pensando em fotografia documental, realidade brasileira, não sinto que seja uma foto tão emblemática. Para mim foto forte são as que ganharam o Pulitzer, por exemplo. O Fabio Bucciarelli, no NYT, fez um trabalho importantíssimo no hospital de Bergamo, um material muito forte dentro dessa perspectiva do fotojornalismo, uma coisa mais hardcore. A foto do Copan é bem diferente, eu ganhei um público muito diferenciado, foi repostada por museus, institutos de arte, teve vários compartilhamentos. Sem dúvida é uma foto muito estética, mas mais arquitetônica. Não é uma foto que considero jornalismo puro. Por isso não gosto tanto dela.

Último dia de cinemas abertos em São Paulo, em 16 de março de 2020
©Victor Moriyama / The New York Times
  • G |Como você aborda os lugares e as pessoas que quer fotografar?

    V.M. |

    Essa pergunta é meio difícil. Eu sempre tenho ideias do que quero fotografar, meu chefe tem as dele, é um diálogo permanente sobre as maneiras de cobrir a situação no Brasil. E como você já sabe, minha perspectiva sempre é da desigualdade social, de temas que mostram o lado fraco da corda. Costumo ter um roteirinho de situações que eu gostaria de fotografar e, chegando nos lugares, tento criar uma intimidade com as pessoas ali, mas é uma coisa meio natural. Você começa a bater papo, falar da vida, e aí a fotografia surge naturalmente. Eu acredito que uma foto boa é uma foto íntima. Quer dizer que você tem uma relação mínima de intimidade com aquela pessoa, não é chegar apontando a câmera, que é uma coisa extremamente agressiva. Acho que é um pouco por aí.

  • G | Em dez anos de carreira, você já retratou quase todas as questões mais violentas das relações sociais e ambientais no Brasil. O que te aproximou desses temas?

    V.M. |

    Acho que minha formação. Meus pais são sociólogos e têm uma formação de esquerda marxista, meu pai foi do movimento estudantil. Lembro do dia em que a minha mãe comprou o “Trabalhadores”, livro do Sebastião Salgado. Ela estava maravilhada com o trabalho dele. Eu era muito jovem, acho que quando vi aquilo, nem entendi, mas realmente pode ter sido uma peça decisiva na minha opção por virar fotógrafo, mesmo que inconscientemente. Esses temas com que trabalho são os que me motivam. Quando preciso sugerir histórias e pautas, sempre vou partir dessa premissa de uma sociedade extremamente injusta no Brasil, com uma concentração de renda das piores do mundo e que me deixa extremamente envergonhado. Claro que falo do lugar de uma classe média branca, privilegiada, mas que se incomoda radicalmente com esse sistema em que a gente vive. É essa nossa visão romântica de jornalista, mas de que a gente consegue contribuir para uma sociedade mais equilibrada expondo o lado mais fraco da corda.

  • G |Como você se aproximou da Amazônia? E o que te levou a criar o @historiasamazonicas?

    V.M. |

    Eu trabalho lá há bastante tempo. Acho que já faz uns cinco ou seis anos, costumo ir para lá de três a seis vezes por ano, mais ou menos. Uma época achei que queria morar na Amazônia, passei um tempo lá, fui para Belém. Não deu muito certo e acabei voltando. Mas tenho um amor muito grande pela natureza e sou um ativista ambiental, nessa luta para que a natureza fique de pé. Faço trabalhos para o GreenPeace, além de outras instituições ligadas ao meio ambiente, e também fui muito para a Amazônia porque há um interesse muito grande de jornais estrangeiros nesse tema. Por isso o Brasil se faz tão importante, afinal de contas, é o pulmão do mundo. E aí uma história puxa a outra, porque você vai tendo informações locais que ninguém sabe no eixo Rio-São Paulo-Brasília. Eu faço parte de uma comunidade no instagram chamada Everyday Climate Chance, um coletivo de fotógrafos ativistas pelo clima. A gente posta fotos das mudanças climáticas ao redor do mundo e outras coisas que estão acontecendo nesse sentido. Em 2019, decidi criar uma comunidade parecida, o @historiasamazonicas. Agora está um pouco parado, mas a ideia é reunir fotógrafos e fotógrafas da América do Sul que tenham um trabalho sobre a Amazônia para colocar o assunto em pauta, mostrar o que está acontecendo.

  • G |Como você começou a fotografar?

    V.M. |

    Faz muito tempo, com uma câmera que peguei do meu irmão. O que me motivou muito no começo foi a cena de grafite em São Paulo, isso em 2003, 2004. Mas [profissionalmente] teve um momento chave na minha vida: foi em 2010, quando o Pedro Ivo Prates, editor de um jornal em São José dos Campos, O Vale, me chamou para trabalhar com ele. Foi minha grande escola, antes não tinha dimensão do que eram as agências de notícias. O Pedro foi meu único editor na vida e me ensinou muito. Fiquei dois anos no jornal e cobri coisas muito importantes, como a retomada do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Também fui pro Haiti e morei durante uma semana na comunidade do Pinheirinho, na época da reintegração de posse. Foi uma baita escola.

Tem uma capacidade esquisita que a gente vai desenvolvendo para aguentar o tranco das coisas que vê

  • G |Quem você tem seguido?

    V.M. |

    De uns tempos para cá, algumas amigas e amigos reclamaram que eu não os seguia, porque no meu Instagram eu só sigo fotógrafos. Daí eu comecei a segui-los. Mas é que a minha conta é estritamente profissional, se é que existe essa separação. Não fico postando fotos minhas…bom, esses dias eu postei uma foto da minha mãe. Mas foi meio por acaso. Voltando à pergunta, difícil dizer, acho que tem uma geração que está chegando com força e tem o pessoal da velha guarda. Minha principal referência é o James Nachtwey, que tem um trabalho maravilhoso. Sebastião Salgado, sem dúvida nenhuma, não tem jeito. E tenho uma relação de carinho com a agência VII. Tem uns fotógrafos ali, como o Ed Kashi, com quem eu fiz uma mentoria…Cresci vendo as fotos dele na National Geographic. A Lynsey Addario também, uma fotógrafa de guerra maravilhosa. E tantos outros.

  • G |Neste momento em que a imprensa enfrenta vários ataques, qual a importância da fotografia documental?

    V.M. |

    O papel da imprensa, entre tantos outros, é incomodar. Porque depende da gente fazer as perguntas que os governantes, ou quem quer que seja, não queiram que sejam feitas. O ataque à imprensa faz parte desse discurso de intolerância que o atual o governo brasileiro perpetua, porque tudo que vai contra as ideias dele é colocado como inimigo, característico dos governos autoritários. Eu e toda a classe jornalística sentimos muito que a sociedade brasileira esteja caminhando para isso, mas, ao mesmo tempo, a gente não apanha calado, porque o nosso papel é expor os processos de corrupção, desvios de conduta, que não condizem com os comportamentos esperados dos agentes públicos. Nesse sentido tenho muito orgulho de ser jornalista. Estou lendo aqui o “ela disse”, que é um livro com os bastidores da reportagem de Jodi Kantor e Megan Twohey, duas repórteres do New York Times que ganharam o pulitzer do ano passado com uma investigação extensa sobre os casos de assédio do Harvey Weinstein e que impulsionou o movimento #MeToo. Nosso papel é esse: investigar, denunciar.

  • G |Queria te fazer a mesma pergunta que você fez quando entrevistou Sebastião Salgado: como lida internamente com toda a carga emocional do seu processo de documentação?

    V.M. |

    Eu tenho uma maneira de lidar com a espiritualidade, fazer um descarrego energético, de me limpar de toda essa situação que a gente vive. Só recentemente encontrei mecanismos, espirituais mesmo, de limpeza energética. Eles me dão uma aliviada nessa carga toda que a gente carrega. Porque você não pode achar que vai ao cemitério fotografar mortes por coronavírus e logo depois virar as costas e tomar uma cerveja. Claro que tem uma capacidade esquisita que a gente vai desenvolvendo. É como um coveiro me disse ontem, que depois de lá ele vai tomar uma cerveja, é normal. Porque está no cemitério todo dia, e se for muito afetado por aquilo, não vai conseguir trabalhar. Muitas pessoas não aguentariam ser coveiras, médicas ou fazer alguns trabalhos que exigem algumas condições com que emocionalmente não lidam bem. Acho que com fotojornalista é um pouco por aí, tem que ter estômago e toda uma série de qualidades emocionais para aguentar o tranco das coisas que vê. Porque a violência é tremenda.

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