Entrevista com Salvador Macip sobre os cuidados para a próxima pandemia — Gama Revista

Conversas

‘É preciso aprender agora o que não aprendemos com pandemias passadas’

Divulgação

Salvador Macip é autor de ‘As Grandes Epidemias Modernas’. Gama conversou com o catalão sobre as epidemias ao longo da história e o que deve ser feito para lidarmos com as próximas

Daniel Vila Nova 09 de Novembro de 2020

Em 2009, o escritor, médico e pesquisador catalão Salvador Macip escrevia um livro sobre microrganismos, infecções e pandemias. O médico, que trabalhou dez anos no hospital Mount Sinai, em Nova York, dizia para seus editores que o tema era desconhecido pelo grande público, mas que merecia atenção — afinal, uma nova pandemia poderia acontecer a qualquer momento.

Os editores consideraram a afirmação um exagero, mas o livro foi encomendado. Poucos meses depois, o surto global de H1N1 se tornou a maior crise sanitária do ano e os editores, que antes duvidavam, passaram a considerar Macip um visionário capaz de prever o futuro.

O autor, entretanto, garante que não é dotado de qualquer poder sobrenatural. “A possibilidade de uma nova pandemia era conhecida por qualquer pessoa que estudasse o tema”, afirma o cientista. “Pandemias acontecem em ondas ao longo das décadas.”

O surto de H1N1 foi incorporado ao livro e, no último capítulo, o autor alertou para a importância de se preparar para uma próxima pandemia. O alerta, entretanto, não foi ouvido. “Eu não sabia quando, mas sabia que teríamos uma nova crise como a do H1N1. A pandemia de 2009 foi leve, logo não foi percebida como um perigo. Mas o perigo de uma nova pandemia, mais grave, sempre existiu.”

Dez anos depois, o coronavírus parou o mundo e a previsão de Macip — e de tantos outros cientistas — se tornou verdadeira. No final de 2019, o escritor e seus editores decidiram revisitar o livro escrito em 2009, criando uma nova edição que abordasse a pandemia do covid-19.

“As Grandes Epidemias Modernas: A Luta da Humanidade Contra os Inimigos Invisíveis” (Editora Nacional, 272 págs., R$ 59,50) chega ao Brasil em 17 de novembro. Gama conversou com o autor e cientista sobre as respostas ao vírus ao redor do mundo, o histórico de pandemias ao longo do tempo e o que deve ser feito para evitar uma nova crise com as mesmas proporções.

  • G |Cientistas e pesquisadores já apontavam para a possibilidade de uma pandemia de proporções globais e alertavam que o mundo não estava preparado para tal crise. O que poderia ter sido feito?

    Salvador Macip |

    Evitar uma nova pandemia é praticamente impossível, vírus e bactérias evoluem e sempre haverá uma chance de um microrganismo mais agressivo iniciar um novo surto. Mas há coisas que nós podemos fazer para nos prepararmos e tudo começa ao encarar o meio ambiente de forma global e conectada. Um conceito novo, que existe há cerca de cinco anos, é o da saúde planetária — onde olhamos para a saúde do planeta como um todo. Nós estamos invadindo o habitat natural de animais, expulsando essas criaturas de lá e lidando com bichos que normalmente não temos contato. Isso nos expõe a uma série de novas doenças que normalmente não teríamos de nos preocupar.

  • G |Qual preparação é necessária para o futuro?

    SM |

    Mesmo tomando essas precauções, não conseguiremos prevenir 100% das pandemias. É importante entender que isso irá acontecer de novo e que pandemias podem ser muito pior do que isso. Um vírus mais infeccioso ou mortal poderia matar dez, 15 ou 20 milhões de pessoas ao invés de um milhão e meio. Portanto, quando a próxima pandemia vier precisamos estar prontos, o que significa estabelecer uma coordenação global, com protocolos eficientes e diretrizes claras. Atualmente, estamos correndo atrás do prejuízo e apenas reagindo ao que aparece, operando na tentativa e no erro. Mas já temos noções de quais ações funcionaram e quais não funcionaram. Diversos países têm protocolos para terremotos, incêndios e inundações. Precisamos também de protocolos para pandemias. Esse tema já foi discutido ao redor do mundo, mas nunca foi implementado. Os cientistas avisaram, mas os políticos jamais ouviram. É um problema global e precisamos consertar isso para que, na próxima pandemia, sejamos capazes de salvar mais vidas.

  • G |No seu livro, você também analisa pandemias do passado. Quais as principais diferenças de pandemias passadas com a atual?

    SM |

    Por alguma razão, temos a ideia de que pandemias são algo do passado e que, com a atual tecnologia e conhecimento científico, conseguimos controlar vírus e bactérias. E isso não é verdade. Até conseguimos controlar, mas não de maneira imediata. Essa é a primeira grande pandemia da era moderna, o que a torna única. Há coisas positivas e negativas. A resposta científica a pandemia é a primeira grande diferença. Todos os cientistas estão trabalhando de maneira coordenada, tentando encontrar uma vacina para o vírus. Isso é algo inédito na história, tantos cientistas e tantos recursos dedicados a um único problema. Teremos uma vacina após um ano, quando vacinas normalmente levam de 15 a 20 anos para ficarem prontas. Isso é incrível e só poderia ter acontecido nos dias de hoje.

  • G |Há algo que torna essa pandemia mais difícil de ser combatida nos dias de hoje?

    SM |

    A maneira com que vivemos nos dias de hoje tornam pandemias mais possíveis e rápidas de se espalharem. Viajamos muito e nos movemos bastante. É a primeira pandemia onde não há fronteiras no mundo. Podemos viajar para qualquer lugar em uma questão de horas e, doenças que no passado ficariam em um único lugar hoje se espalham por toda a parte. Estamos mais preparados, tecnologicamente e cientificamente, para lidar com os desafios, mas ao mesmo tempo as doenças se espalham bem mais rápido. Há também a questão da informação e da comunicação. Essa é a primeira pandemia na era da comunicação global e a internet mudou completamente a maneira com que respondemos a uma pandemia, positivamente e negativamente. Podemos comunicar de maneira rápida a qualquer pessoa do mundo as informações relevantes, mas a desinformação opera na mesma velocidade.

  • G |Quanto tempo levou para as pandemias do passado acabarem?

    SM |

    O comportamento de toda pandemia depende das características do microrganismo que a causa. Elas não seguem um único padrão, depende muito de quão agressivo e de como o vírus espalha. Por exemplo, a AIDS é uma pandemia que ainda não acabou. Temos mais ou menos sob controle, mas a pandemia continua e provavelmente não vai embora até termos uma vacina. No passado, as pandemias matavam muitas pessoas e só acabavam quando adquiríamos imunidade de rebanho. Foi assim que a maioria das pandemias foram resolvidas, mas houve algumas que duraram mais de cem anos. As primeiras pandemias no império Romano aconteciam em ondas ao longo de décadas pois não havia maneira de pará-las. A diferença que temos hoje é que somos capazes de criar uma vacina e temos a sorte de que esse vírus é estável o suficiente para que os efeitos da vacina durem meses, se tudo der certo.

  • G |Sei que é difícil fazer previsões, mas é possível imaginar um prazo para o fim da covid-19?

    SM |

    Acredito que não vamos ter que esperar muito mais, é provável que pelo menos uma vacina seja aprovada até o final do ano. Mas não será algo rápido, a vacina não é o fim e sim o começo do fim e levará um bom tempo até termos vacinados milhões de pessoas ao redor do mundo para obter a imunidade global. Precisaremos produzir muitas vacinas e distribuí-las e algumas podem exigir uma segunda dose. Além disso, haverá países que serão vacinados primeiro. Os EUA, o Reino Unido, a Rússia e a China estão produzindo as vacinas, logo é bem provável que eles a recebam primeiro. Países mais pobres provavelmente terão de esperar mais tempo. Eu acredito que até o final de 2021 conseguiremos vacinar boa parte da população e que 2022 será um ano mais ou menos normal. Ainda existirão surtos aqui e ali de coronavírus, mas eles não serão capazes de iniciar uma nova pandemia.

  • G |Há uma grande preocupação em algumas partes do mundo com a segunda onda da pandemia. Como a atuação de diferentes lideranças políticas afetaram a maneira com que a covid-19 se espalhou pelo mundo?

    SM |

    As pandemias sempre acontecem em ondas, você tem um grande número de infectados e age para resolver a situação. Os números diminuem, você relaxa e aí os números sobem de novo. É normal ver esse tipo de onda, mas em alguns lugares a primeira e a segunda se sobrepõem. Estamos no meio da segunda onda aqui na Europa. Já na Ásia, a segunda onda é pequena. Nas Américas, a primeira e a segunda onda estão juntas. Isso é resultado de como os políticos responderam ao problema. Temos dois extremos: na Ásia já havia algum tipo de preparo para essa crise por conta das experiências passadas, como a SARS. Esse conhecimento aliado a uma liderança responsável possibilitou bons resultados. Enquanto isso na Europa, nós duvidamos e esperamos muito para adotar medidas protetivas. Nas Américas foi ainda pior, pois houve tempo para se preparar. Era possível ver o que estava acontecendo no oriente e tomar as medidas necessárias, mas vocês têm uma série de péssimos líderes.

  • G |O Brasil e os EUA atuaram de maneira oposta a países como China e Nova Zelândia, que obtiveram ótimos resultados. Quão prejudicial foi essa má liderança?

    SM |

    O problema de políticos que não entendem ciência é que eles podem ser perigosos em tempos de crises. É preciso reagir rápido em uma pandemia e países como a China, Taiwan e a Nova Zelândia provaram que era possível. Mas diversos países americanos, do norte ao sul, demoraram a responder ou diminuíram a importância da doença. Bolsonaro foi muito mal na resposta à pandemia, assim como Trump. A consequência é que várias pessoas morreram. Em Manaus, o vírus andou livremente pela cidade, quase 60% da população foi infectada e houve uma taxa de mortalidade altíssima. O vírus é o mesmo e as pessoas são as mesmas ao redor do mundo, a única diferença é como os líderes respondem à crise. Quando tudo isso acabar e nós olharmos para os números, veremos quais políticos souberam lidar com a crise e quais não. Obviamente, nem todo político é cientista e sabe reagir a uma pandemia, mas eles precisam escutar cientistas. Trump comprou briga com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, as pessoas que mais sabem sobre vírus no mundo. O preço pago em termos de vidas perdidas é incalculável. No futuro, temos de encontrar uma maneira para que essas decisões não dependam apenas dos políticos. Logo, um presidente ruim não conseguirá destruir um país inteiro. É necessário um protocolo de resposta que até o pior líder do mundo pode seguir. Não podemos deixar alguém que não entende a ciência controlar a gestão de uma pandemia em tempos de crise, é algo muito perigoso.

  • G |A próxima pandemia é inevitável, só não sabemos quando ela acontecerá. Qual lição devemos aprender com a crise atual?

    SM |

    Se for para aprender uma única lição dessa pandemia, devemos aprender a estar preparados. Preparados para o pior, inclusive. É preciso pensar no pior cenário possível e se preparar para ele. Se preparar para o pior vírus do mundo, um vírus muito infeccioso e mortal. Estabeleça os protocolos, hospitais, laboratórios e pesquisas. Reúna uma estrutura pronta para receber infectados. Se não acontecer, ótimo. Mas se acontecer, você estará pronto. Nós já falhamos em aprender com pandemias passadas. Não aprendemos com a pandemia de 2009, que teve um começo bem similar ao covid-19. A diferença foi que a imunidade natural aconteceu de maneira rápida pois já estávamos expostos à vírus similares. Mas isso foi um golpe de sorte. E foi um erro não considerar não se preparar para uma próxima pandemia onde não tivéssemos tanta sorte. É isso que está acontecendo agora, temos um vírus para o qual não temos proteção e a pandemia está fora de controle ao redor do mundo. É provável que tenhamos algum tempo até a próxima pandemia, dez, 15, talvez 100 anos. Não sabemos quando ela irá acontecer, mas devemos nos preparar o mais rápido possível. É preciso aprender agora o que esquecemos de aprender no passado.

  • G |Em 2009, falhamos em estabelecer protocolos que nos protegessem de uma futura pandemia. Como garantir que não cometamos o mesmo erro?

    SM |

    Eu não estou muito otimista quanto a isso. Receio que, assim que essa pandemia acabar, as pessoas não vão querer falar sobre a próxima. Quando eu dei entrevistas em 2009 para a primeira versão deste livro, as pessoas não queriam falar sobre a próxima pandemia. Assim que tudo isso tiver passado, há um perigo real de deixarmos para depois a procura de uma solução. Estaremos cansados de falar sobre vírus e isolamento social, o tempo irá passar e se não houver pressão públicas não teremos uma resposta pronta para a próxima pandemia. Precisamos começar a pensar na próxima crise agora.

Produto

  • As Grandes Epidemias Modernas: A Luta da Humanidade Contra os Inimigos Invisíveis
  • Salvador Macip
  • Editora Nacional
  • 272 páginas

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