‘A arte é uma extensão da nossa política para este mundo’ — Gama Revista
Jaider Esbell

‘A arte é uma extensão da nossa política para este mundo’

Em exposição na 34ª Bienal de São Paulo, o artista Jaider Esbell, de ascendência Makuxi, defende que a manifestação artística é uma forma de disseminar os saberes e a luta dos povos indígenas

Leonardo Neiva 01 de Dezembro de 2020

Autodenominado neto de Makunaima, um ancestral mítico de seu povo, Jaider Esbell, 41, deixou sua aldeia, na terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, aos 18 anos. Incentivado pelos parentes, o índio Makuxi, então recém-chegado à idade adulta, partiu rumo à capital Boa Vista procurando continuar seus estudos. Por lá encontrou não só uma oportunidade de estudar, mas também um trabalho como eletricista na Eletrobras e novas formas de dar vazão à sua verdadeira vocação: a arte.

Inspirado pela mitologia dos Makuxi, no início Esbell escrevia e pintava obras que depois jogava fora. Até que não teve mais jeito de segurar dentro de si a pulsão do artista. Em 2010, três anos após se formar em geografia pela Universidade Federal de Roraima, ganhou uma bolsa da Funarte para escrever seu primeiro livro, “Terreiro de Makunaima – Mitos, Lendas e Estórias em Vivências”. Em 2011, também começou a desenvolver sua primeira coleção de pinturas, num trabalho que até hoje mescla questões sobre sua ancestralidade, a mitologia Makuxi, os saberes e a luta de seu povo.

“Quando tive contato com os fragmentos da nossa cosmologia, senti que havia uma coisa especial, que ainda não sabia se chamar arte”, conta Esbell, que hoje participa da exposição “Vento”, parte integrante da 34ª Bienal de São Paulo, com a série de pinturas “A Guerra dos Kanaimés”.

Embora parte da programação da Bienal tenha sido adiada para 2021, a mostra está aberta para visita presencial no Pavilhão Ciccillo Matarazzo até o dia 13 de dezembro. No evento, o artista também integrou uma live dedicada aos cantos dos povos Tikmũ’ũn e um minicurso à distância sobre o tema, que acontece até 10 de dezembro.

Em entrevista a Gama, Esbell conta sobre sua jornada da terra indígena onde morava à cidade, fala da arte como um retrato da ancestralidade e mecanismo de luta de um povo e sobre a importância do momento atual para a arte indígena contemporânea.

  • G |Sua arte tem uma responsabilidade de retratar sua ancestralidade? Como ela reflete a cosmologia dos povos Makuxi?

    Jaider Esbell |

    Minha trajetória artística está diretamente relacionada com minha ancestralidade. Tenho a reivindicação de ser neto de Makunaíma. Isso se reflete na minha primeira obra, onde mostro essa pesquisa sobre minha trajetória e a de meu povo. Ela começa no momento em Makunaima corta a grande árvore, muito tempo atrás, e esse corte resulta no que a gente chama de Monte Roraima. Nossa cosmologia vem desse lugar, essa árvore é nossa raiz maior. Dentro dela, existem entradas para nosso mundo interior. A Raposa Serra do Sol é a terra de onde eu venho, hoje demarcada. Fica numa região de fronteira com a Guiana e Venezuela. O livro passa por vários momentos da história da colonização e, mais recentemente, por essa insistência em nos tirar de nosso lugar, quando fazendeiros tentaram de todos os modos extinguir nosso povo ou nos expulsar para a Guiana. Então meu trabalho está ligado à minha ancestralidade de uma forma política muito bem elaborada.

  • G |Você saiu da Serra do Sol aos 18 anos em direção à capital Boa Vista. Como foi esse processo?

    JE |

    Foi um ato contínuo desde a minha infância, uma tentativa dos meus parentes de inclusão, de negar nossa identidade para passarmos a ser somente cidadãos brasileiros. Eu nasci nessa região no meio de um conflito cruel, na época em que as fazendas estavam empenhadas num processo de nos desestabilizar. Ao mesmo tempo, tive acesso a fragmentos da nossa mitologia, e isso me lançou a um lugar de curiosidade. Fui para a escola com sete anos e acabei me afastando das raízes do meu povo para me dedicar aos estudos da língua portuguesa. Com a escolarização, veio também o aumento da consciência. Fiz o ensino fundamental e médio, mas o distrito em que estudava não me dava alternativas para continuar. Me mudei para Boa Vista aos 18 anos em busca de trabalho e meios para estudar. Em seguida, fiz concurso, me tornei funcionário público federal. Pela empresa estatal, viajei Brasil adentro, conhecendo outras realidades. Ao mesmo tempo, ia produzindo literatura, desenhos, e jogando fora essas produções. Até que não consegui mais abafar essa latência. Procurei dar vazão a essa criatividade com editais. Em 2010, encontrei o da Funarte e consegui uma bolsa de R$ 30 mil. Comecei então a trabalhar na primeira obra, que foi lançada só em 2012. Antes disso, em 2011, já tinha começado a criar minha primeira coleção de pinturas.

  • G |Quando você se descobriu artista e contador de histórias?

    JE |

    Isso veio desde a infância. Quando tive contato com os fragmentos da nossa cosmologia, senti que havia uma coisa especial, que ainda não sabia se chamar arte. Mais para frente, passei a me denominar artista. Falava para alguns amigos e eles riam, porque de fato eu não produzia nada consistente. Mas sempre soube que era artista, mesmo antes de ir para a cidade.

  • G |Qual a importância de apresentar numa Bienal uma arte que fala tanto de memória e ancestralidade indígena?

    JE |

    Esse é um lugar que estamos buscando alcançar, através do meu trabalho e do de vários outros artistas. É a ampliação da nossa luta, do nosso movimento de resistência. A arte é uma extensão da nossa política para este mundo. Ela leva nossas demandas a gente que nunca saberia da nossa existência por outros caminhos. A arte motiva e faz com que mais pessoas reivindiquem seus lugares na trajetória histórica do país. Além de trazer a nossa luta, nossa política de resistência, ela também resgata algo maior que o sofrimento e a morte, que é a nossa riqueza tecnológica. Nossos conhecimentos são tecnologias poderosíssimas. A lingua, as rezas, os cantos, a forma de se comunicar com outros mundos, nosso modo de transitar no universo desde sempre enquanto culturas completas. Se o branco não tivesse aparecido, continuaríamos vivendo da mesma forma, plenamente, como sempre atravessamos o tempo.

  • G |Sobre a série “Guerra dos Kanaimés”, que você vai apresentar na Bienal, o que representam os kanaimés, figuras que parecem bastante ambígua?

    JE |

    Logo que comecei a produzir as pinturas em tela, trouxe essa imagem que é muito comum na nossa região. O kanaimé é um espírito que reúne as forças que vêm de orações tradicionais e do conhecimento sobre plantas de poder e sobre o poder dos animais. Ele é muito temido por praticar uma ideia de justiça na nossa sociedade. É uma pessoa num momento de transe, de metamorfose, que ataca e depois se desfaz de sua forma, voltando a ser um humano. Um ser a serviço das comunidades, diretamente relacionado ao equilíbrio social. Muitas vezes acaba se tornando nosso algoz, quando o ataque vem de um outro povo. Atualmente, ele também é colocado à disposição da luta. Durante a demarcação do território, alguns dos nossos parentes estavam iludidos pelos invasores e foram trabalhar com eles. Os nossos kanaimés, que defendiam a nossa terra, lutavam contra os kanaimés dessa turma, que queria deixar a vontade do invasor prevalecer. Eu trouxe essas obras para São Paulo para fazer essa relação de mundo. Por exemplo, quem decide que o preço do arroz subiu, que a carne ficou mais cara? Desconfiamos que haja forças ocultas trabalhando por trás dessas decisões, um tipo de kanaimé. O capitalismo é um demônio muito grande e opera de um modo em que nem ele escapa de seus próprios efeitos. É um ciclo que não tem fim, uma força autodestrutiva.

  • G |Como é a relação do povo Makuxi com a natureza?

    JE |

    Quando defendemos a manutenção do nosso território, estamos tentando dizer que a natureza está em nós enquanto completude. Estamos integrados nesse ambiente. O Makuxi tem uma relação muito próxima com as nascentes de água, as fontes de alimentos, os bosques que fornecem frutos, caça e pesca. Quando solicitamos que as fazendas de arroz e de gado sejam retiradas é porque sabemos que aquilo não está integrado num contexto de cosmologia. O gado causa erosão, destrói vegetações e mata animais menores. Os fazendeiros usam o fogo para renovar o pasto. Para produzir, o arroz necessita de veneno e agrotóxicos. Então é uma forma de reivindicar que aquele lugar se mantenha o mais preservado possível, porque é um dos últimos recantos onde podemos ver a vida de forma mais completa, sociedades humanas vivendo em integração com o ambiente que a gente chama de natureza.

  • G |Na Bienal, você vai participar de um encontro em que serão apresentados os cantos do povo Tikmũ’ũn, ou Maxakali. O que o canto significa para eles?

    JE |

    Falo com ressalvas, porque não sou Maxakali. Os cantos estão muito relacionados com a transição de mundo. Os Maxakali cantam para encaminhar os mortos à sua aldeia, para chamar os espíritos que curam. Quando nasce uma criança e quando morre uma pessoa, canta-se para tudo. Está muito relacionado a esse contexto da cura, de um trabalho espiritual maior. Temos que entender que os cantos como meio de comunicação, como uma linguagem profunda, são sagrados. Para que se tornem conhecidos, precisamos quebrar o protocolo desse povo, o uso restrito desses cantos, para colocá-los numa Bienal.

  • G |Como é o seu trabalho junto ao povo Makuxi?

    JE |

    Trabalho sempre em parceria com as comunidades da Raposa Serra do Sol. Os caciques confiam no meu trabalho porque sabem que é transparente, que fala a verdade, denuncia e exalta a importância de manter o território preservado, livre dos fazendeiros e garimpeiros. As escolas me convidam para ajudar os professores no atravessamento de muro. Eles têm curiosidade de saber como se viaja para São Paulo, como se dialoga. Digamos que é um trabalho de educação de abordagem. Eu faço esse trabalho tanto do lado de cá quanto de lá, promovendo uma aproximação não violenta entre esses mundos. A própria ciência acadêmica ainda repete procedimentos violentos, não compreendendo a importância de cada detalhe da cultura, atropelando protocolos e tentando impor o seu valor. Estou pleiteando agora um título de notório saber pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sou apenas um jovem, mas que isso sirva de exemplo para que as universidades reconheçam nossos mais velhos, nossos conhecedores e as mulheres como mestras de saberes que não se encontram nas bibliotecas, por mais completas e bonitas que sejam.

  • G |É esse trabalho que você desenvolve na Galeria de Arte Indígena Contemporânea?

    JE |

    É o meu estúdio, que chamei de galeria por estratégia. Se as linguagens artísticas passam por esse espaço chamado galeria, decidi criar isso para fazer parte desse mundo. É um lugar de experimentação, de fluxo, aproximação. Lá consigo acolher um artista, hospedá-lo, oferecer uma estrutura de apoio e produção. Recebo pesquisadores de vários lugares do Brasil e do mundo e encaminho para as comunidades, aproximo as lideranças para que dialoguem e decidam se vão trabalhar juntas. É um lugar de socialização e experimentação de interatividade.

  • G |As redes sociais hoje te ajudam a divulgar sua obra?

    JE |

    Artisticamente, nasci dentro do Facebook. Foi uma ferramenta que me ajudou muito a vender e manter uma rede de pessoas que dialogam com meu trabalho, pesquisadores, professores e outras lideranças pelo Brasil e o mundo. Com certeza fez toda a diferença. Pude experimentar ainda mais a ideia da autonomia. Não tive que me submeter a um galerista e entrar numa relação meramente comercial ou até exploratória. A rede social é fundamental porque me dá essa vazão para trabalhar tanto a imagem quanto o texto e participar das discussões sem intermediários. Posso intermediar, articular e até escrever um texto jornalístico para falar do meu próprio trabalho. Fiz muito isso no início, porque não era conhecido, então eu mesmo escrevia e levava aos jornais.

  • G |Como a arte indígena se insere hoje no cenário da arte contemporânea brasileira? Falta um olhar mais atento em relação a ela?

    JE |

    Estamos apenas dando um primeiro passo, muito bem desenhado pelo Ailton Krenak, uma figura central nesse trabalho. Hoje tentamos ampliar esses horizontes. Estamos falando da necessidade de essa diversidade ser mostrada, compreendida, respeitada e praticada. Há o risco de, se não tomarmos cuidado, sermos enquadrados no modelo padrão da arte, dando muita visibilidade para a obra de uma pessoa e esquecendo a pluralidade. Cada exposição vem fazer essa denúncia histórica, de que a gente quer, necessita e reivindica um lugar de escuta e de fala para nossas demandas, de valorização dos nossos conhecimentos no campo capitalista. Porque se o mundo é capitalista, precisamos falar a mesma língua para sermos entendidos.

  • G |Dá para dizer que o momento atual é positivo para a arte indígena?

    JE |

    Quero reforçar que meu trabalho não é uma carreira individual. Apenas emprego meu corpo, minha voz, minhas sensibilidades nesse movimento maior. Ao longo dessa trajetória, têm surgido artistas que cada vez mais aprendem a se articular com a fala e o deslocamento em ambientes urbanos. Não estamos procurando ser absorvidos pelo sistema da arte, mas mostrar que temos nosso próprio sistema. Tudo em nós é arte, é natureza. Por questão de diálogo, temos que nos afastar dessas coisas e nos adequar a um contexto de galeria.Somos povos completos, temos tudo, inclusive a noção das técnicas artísticas. Devo assinar uma curadoria para o MAM no ano que vem, então é um momento muito especial para nossas práticas. Com muito custo, temos conseguido constituir essa ideia da autonomia e do protagonismo quando ocupamos um museu, apresentando socialmente uma narrativa. Temos alguns exemplos no Brasil de que a arte indígena contemporânea veio para ficar, não vamos deixar que seja apenas uma moda do início dos anos 20. Também não queremos destruir o sistema das artes, mas ampliá-lo, dar uma força a mais para essa estrutura que já existe.

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