Um Brasil menos polarizado — Gama Revista
©Fabrizio Lenci

Um Brasil menos polarizado

A emergência de uma pandemia pode ser responsável pela reunificação do Brasil e por uma nova onda de solidariedade. É o que diz à Gama o psicanalista e youtuber Christian Dunker

Isabelle Moreira Lima 29 de Março de 2020

A pandemia do novo coronavírus está trazendo uma nova onda de solidariedade, afinal, “todos nós temos um vulnerável”, diz o psicanalista Christian Dunker, professor titular da Universidade de São Paulo e autor da “Reinvenção da Intimidade” (Ed. Ubu, 2017). “Há uma percepção social imediata de que populações inteiras estão em risco de vida e isso move as pessoas pela solidariedade”, afirma.

Para ele, esse pode ser o fim também da polarização que o Brasil passou a viver na última década, um tempo de se reunificar como sociedade e se reaproximar dos que se distanciaram, ainda que fisicamente vivamos o oposto, avalia Dunker, que também tem um canal no Youtube.

Leia a entrevista em que fala sobre os efeitos do confinamento, um possível fim da polarização, individualidade e o sentimento de pertença.

  • G |A situação que vivemos hoje, de isolamento e confinamento, muda alguma coisa na polarização que vivíamos tão intensamente até ontem?

    CHRISTIAN DUNKER |

    A pandemia de Covid-19 chegou no pior momento do Brasil, quando estávamos em mobilidade econômica e polarização social. Só que a inépcia do nosso presidente, a atitude de negar a gravidade da situação e até de ridicularizá-la, tornou-o presidente alguém inaceitável. Ele conseguiu a façanha de se tornar um inimigo espontâneo da população brasileira. Isso tem efeitos conciliatórios. Nós podemos nos altercar, nos dividir em torno de nossas convicções políticas e religiosas, mas quando há um terceiro mais poderoso, a nossa tendência é discernir. O nosso processo de união ocorre pelo externo. Infelizmente, isso acontece no momento em que a gente precisa de nossas referências simbólicas. A gente está em situação de desamparo, incerteza, a gente apela para quem reputa saber ou tem entendimento prático do que fazer. E nessa hora a gente está vendo é que quem governa na prática é o Rodrigo Maia [presidente da Câmara dos Deputados], o [ministro da Saúde, Luiz Henrique] Mandetta, o Drauzio Varella, a imprensa, que são pessoas que estão de forma paralela assumindo a responsabilidade pela crise. Autoridade não é algo que se põe no bolso, é efeito do que você faz.

  • G |Sairemos dessa mais unidos?

    CD |

    Estou em contato intenso com a imprensa e as pessoas me contam o que está acontecendo. Ouvi que um grupo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro foi para a rua bradando que iam pegar o vírus e transmitir para a minha família, numa tentativa de mostrar que ele não existe. Aquele grupo está se reduzindo a olhos vistos e precisa aumentar a força do delírio para não ver os fatos. Esse grupo acaba, pelo hilariante e pelo ridículo, fazendo o fiel da balança ao contrário. Quando as pessoas se chocam com estados muito elaborados de enlouquecimento, recuperam sua razão. Um grupo como esse funciona como um fator de esclarecimento e de retomada de consciência, que já está acontecendo. Começam as panelas agora contra Bolsonaro, pessoas que eram porta-vozes dessa proposta, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), mudam sua posição. Os que não a invertem, como Olavo de Carvalho [guru da família Bolsonaro], fazem um papel abaixo do ridículo, o que funciona como paródia involuntária. São imposições que produziram a polarização e estavam instrumentalizando para que ela continuasse muito mais além do processo eleitoral, enraizando-a no Brasil mais profundo. O vírus veio também para curar as pessoas – mentalmente.

  • G |A importância do grupo muda nesse novo contexto?

    CD |

    Muda a olhos vistos, para o bem e para o mal. Não estávamos parados, a vida estava acontecendo: havia pessoas se separando, famílias se formando, amores em curso, decisões cruciais da vida privada em vias de se dar. A necessidade da quarentena precipita as coisas. As pessoas vão morar juntos, muita gente foi para o interior, saiu das metrópoles. Em um segundo nível, há uma mobilização tensa dos quais a quarentena quer dizer morticidio, os que vivem na rua, em compressão territorial, os que dependem do seu trabalho diário para conseguir comer. Há uma percepção social imediata de que populações inteiras estão em risco de vida e isso move as pessoas pela solidariedade. Isso nos deu a primeira lição de humildade e estamos em forte curso para solidariedade.

  • G |E o que vai ocorrer de negativo?

    CD |

    É possível que tenhamos momentos de erupção de violência, como vimos nas cadeias. O medo social também vai crescer, o preconceito contra a população de profissionais da saúde, que são atacados quando tomam trem porque estão “contaminados”, ou contra pessoas que espirram. Há uma nova tensão social, uma nova geografia que não é mais a de vermelhos contra roxos de vergonha. É uma tensão que tenta localizar o perigo, que é própria da situação de epidemia. A epidemia sempre vem da China, do outro, dos que considerávamos perigosos e agora confirmam nossos temores. A epidemia tira o melhor e o pior das pessoas. Aquele cara que já é meio zero a esquerda vai negar a pandemia, vai fazer com que os trabalhadores continuem a ir à fábrica, não vai se importar em contaminar os outros. Ele não quer pagar salário e não seu aluguel, vai se aproveitar da situação. Ao mesmo tempo, outros que estavam apagados no Brasil começam a ser vistos. O que estou vendo é inquietude de todos os lados, pessoas tentando se ajudar. Todos nós temos um vulnerável, um idoso, alguém que tem problema respiratório, alguém que não tem como se virar, que vai à falência. O sofrimento pode melhorar a pessoa também, faz com que ela olhe para o lado.

  • G |O que faz alguém sentir-se parte de um grupo, de uma turma?

    CD |

    A gente pertence a uma relação, não a uma pessoa. Para produzir isso, precisamos de um gosto pela experiência da dissolução de si, em uma relação em que a nossa individualidade é provisoriamente suspensa. Essa experiência não vale para a massa, mas para comunidades, onde se tem uma experiência comum, que é asseguradora e indutora do nosso sentimento de pertença. Quanto mais a gente quer ser único e especial, menos a experiência do comum vai acontecer e mais vamos nos sentir não pertencendo, como um alienígena.
    Um elemento importante é a fidelidade à experiência. Fala-se muito em fidelidade, mas geralmente de forma um tanto quanto patológica, associada a contrato. Fidelidade a uma pessoa é posse. A palavra-chave aqui então é compartilhar, algo muito difícil para a nossa época porque comporta risco. Você compartilha afeto com alguém, como a empatia, e de repente é traído. Você sente que compartilhou, mas o outro não; ele trocou, e compartilhar não é trocar. O sentimento de pertencimento deriva da possibilidade de compartilhar.

  • G |Como definir a ideia de identidade coletiva e individual? Há uma tensão entre as duas?

    CD |

    São duas definições correlatas. Não faz sentido falar sobre identidade individual se ela não estiver ligada à coletiva, seja a da família, de raça, classe, futebol ou outros elementos formativos de identidade.
    Há um conjunto de imposições que no começo a pessoa quer seguir e que chama de amor. Mas em algum momento ela passa a cobrar essas regras de pertencimento. Há aqueles que sofrem porque não conseguem ter identidades coletivas e outras individuais. E há ainda os que se veem absolutamente sozinhos, mas que estão totalmente identificados com o universo coletivo da moda, do sucesso, e, portanto, estão muito massificados, mesmo que fisicamente isoladas.

  • G |Ao longo da história da humanidade, é possível observar maior protagonismo de uma ou de outra?

    CD |

    Há laços sociais predominantemente holistas, como ainda hoje a gente vê na Índia, onde as identificações coletivas são muito mais importantes do que as individuais. Mas, a partir da modernidade, mede-se a classificação individual como mais importante. Há um relativo declínio da força do holus, da identificação mais coletiva das grandes narrativas: as religiões, o cânone literário, a pertinência à família, a lógica de fidelidade a empresas que se tinha até os anos 1970.
    Tem gente que diz que essa oposição entre o indivíduo e o coletivo foi substituída por estados mais esterilizados. Dentro do processo de individualização, há vários subcapítulos: o narcisismo, o egoísmo, o pertencimento.

  • G |E ao longo das trajetórias individuais?

    CD |

    A adolescência é o momento em que o conflito é agudo, em que há uma grande aspiração individualista junto com uma grande inspiração coletivista. Tornar-se adulto é acomodar-se a identificações coletivas. A velhice é um momento de reindividualização brutal, em que a gente valoriza as experiências coletivas que tivemos ao longo da vida, para o bem e para o mal.

  • G |O grupo – e o sentimento associado a ele – funciona de forma sempre positiva?

    CD |

    Não, ele tem uma incidência ambígua sobre o sujeito. Ele oferece segurança, pertinência, meios de defesa contra outros grupos, mas inversamente ele exige obediência, coerção das regras de pertinência. Para pertencer àquela comunidade, você tem que portar seus traços de inclusão. É um problema estrutural dos modos de individualização. E isso leva à criação de grupos cada vez menores. Se antes havia uma grande narrativa de natureza religiosa ou laboral, hoje os grupos se deslocaram para a afeição estética, os modos de vida, de consumo, de expressão de gênero. As segmentações são cada vez menores e têm a vantagem de exigir menos coerção. Elas são procuradas porque oferecem mais liberdade.
    Por outro lado, elas exercem pior aquela função de produção de segurança e de pertinência autêntica. Se você pode migrar em seus grupos identificatórios semana a semana, isso produz um sentimento de não pertinência autêntica com nenhum deles. E esse deslocamento produz patologias do conflito entre processos de individualização e coletivização: o sentimento de vazio, de solidão e de tédio.

  • G |As desigualdades de diferentes ordens, que ainda caracterizam o Brasil, impactam as relações e definem lugares sociais?

    CD |

    No Brasil, a desigualdade é altíssima e seu tratamento histórico é baixíssimo. As classes média, média alta e alta sentem um perigo cada vez maior de serem confundidas; quando um novo grupo consegue manter o mesmo tipo de consumo que o seu, a sua identidade é perturbada. É um fenômeno que afeta o narcisismo das pessoas. Um exemplo simples: você cultua um grupo que une rock a música sacra e se sente uma pessoa muito diferenciada porque você tem esse gosto musical “sofisticado”. Esse grupo começa a fazer um sucesso imenso e todo mundo passa a conhecê-lo, talvez até mais do que você. Você se sente invadido, como se um bem seu tivesse sido tirado, alguém te roubou um fragmento do seu gozo.
    O consumo de cultura ainda é uma forma de dizer que o poder adquirido é legítimo. Quando a pessoa consegue cruzar essa barreira tão difícil que é a desigualdade social no quesito econômico, ela enfrenta uma resistência inusitada, a que Freud chamava de narcisismo das pequenas diferenças.
    Um marcador mais crítico da desigualdade é a religião, com a emergência de uma nova forma da teologia da prosperidade, que diz que a ascensão social é uma travessia amparada por um destino divino. Ela conta com um padrão de pertinência arcaico: obediência a padrões de vestuário e de linguagem, crenças que confrontam os saberes instituídos, da ciência, das práticas sanitárias ou de saúde. Esse enfrentamento é parte da funcionalidade desse tipo de identificação. E outros modos de coletivização passam a ser vistos como artificiais.

  • G |Esses exemplos parecem terrivelmente familiares…

    CD |

    As reformulações pelas quais o Brasil passou, tanto para um lado, quanto para o outro, engendraram derivas de identificação, de pertinência e de perda de pertinência, que se associam com novas formas de sofrimento. Há também uma série de consequências e instrumentalizações políticas desse sofrimento, regressivas mas também progressivas. Há um novo universo que, para o bem ou para o mal, em dez anos conseguimos criar aqui no Brasil.

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