Conheça o mundo dos colecionadores de plantas — Gama Revista
Dedo verde

A ostentação é verde

No mundo dos colecionadores de plantas, espécimes exóticos podem custar milhares de reais; em leilões, lojas especializadas e trocas de mudas, todo mundo procura aquele vasinho raro para completar sua selva particular 

Mariana Payno 26 de Setembro de 2020

As samambaias que invadiram os apartamentos de chão de taco em meados dos anos 2010 eram, afinal, só a porta de entrada para drogas mais pesadas: pileas, filodendros, antúrios, begônias, variegatas. Se você é um aficionado por plantas, provavelmente já ouviu esses nomes, sabe de cor suas inúmeras especificações e colocou mais de uma delas na wishlist de espécimes que adoraria chamar de seus. Para não deixar esmorecer a êxtase da descoberta de que cultivar uma pequena selva doméstica em meio à dureza das grandes cidades traz benefícios terapêuticos — e garante uma estética digna de likes —, os millennials encontraram nova graça na mania das plantas: a coleção de espécies raras e exóticas.

Estamos falando sobretudo de variedades tropicais, muitas nativas do Brasil — em geral, difíceis de encontrar na natureza; algumas em risco de extinção. Criadas em pequenas quantidades por produtores e colecionadores, circulam de maneira meio restrita pelo mercado, em poucas lojas especializadas, trocas informais de mudas e até leilões. As mais queridinhas são as da família Araceae, cuja característica marcante são as folhagens densas, em lindos formatos instagramáveis. Os nomes científicos são tão pomposos quanto os preços: Philodendron melanochrysum, Anthurium brownii, Philodendron verrucosum, Anthurium leuconeurum, Monstera variegata e Monstera adansonii laniata estão entre as espécies que podem custar de R$ 160 a R$ 2,5 mil.

Recém inaugurada em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, a loja Dois Trópicos chegou para explorar esse nicho. “Estamos tendo uma resposta boa, porque os colecionadores sentem um certo alívio de encontrar lugares com esse foco e não precisar mais ficar três meses procurando por uma planta”, conta Fernando Werney, um dos sócios da empreitada. Nem todo mundo, porém, entende a cena. “Tem as pessoas que sabem que pela raridade não dá para ser barato, mas tem gente que dá risada quando falo o valor de algumas plantas.”

Criadas em pequenas quantidades por produtores e colecionadores, as plantas raras circulam de maneira restrita pelo mercado

Para além da famigerada lógica da oferta e demanda que acomete qualquer modismo, há explicações para as cifras pouco amigáveis: aliado à produção em pequena escala e à dificuldade de encontrar essas plantas em ambientes naturais, está o fato de que muitas delas demoram para crescer — o que faz com que a versão adulta custe bem caro. É o caso das chamadas variegatas (aquelas com manchinhas de cores diversas nas folhas), entre as quais está uma das mais desejadas do momento, a Begonia maculata.

“Uma mutação faz com que a planta não tenha clorofila naquele local específico da folha”, explica o biólogo Renan Hernandes, que mantém a loja Art Concreto e viu a demanda pelas variedades exóticas aumentar nos últimos meses. “O problema de ter menos clorofila é que a planta não produz alimento por ali, então depende de suas outras partes, por isso demora mais para crescer. Isso gera um custo alto de produção.”

Há, ainda, as espécies importadas, cultivadas e comercializadas fora do país e que, de tempos em tempos, são lançadas por aqui como produtos super aguardados — algumas têm até fila de espera. “O Brasil não é o melhor lugar para ter plantas raras”, diz o barista Taniel Toy, 36, que entrou nesse universo há três anos e compartilha o dia a dia de sua farta urban jungle com mais de 40 mil seguidores no Instagram. “Temos uma política bem severa de plantas aqui +, o que dificulta esse comércio. Ainda são poucos os lugares especializados em plantas raras.”

Os unicórnios

O país, no entanto, é a terra natal de uma das espécies mais procuradas do mundo, o Philodendron spiritus-sancti. Endêmico de um único estado brasileiro, o Espírito Santo, e possivelmente desconhecido fora do círculo dos loucos por plantas, esse filodendro está entre os considerados criticamente em perigo de extinção pelo Centro Nacional de Conservação da Flora. O órgão atesta que desde 2000 não se encontram mais espécimes na natureza, mas há quem jure ter visto e fotografado um ou outro em seu habitat natural. Nas coleções urbanas, é igualmente raro. “Uma planta dessas em um leilão nos EUA pode bater US$ 5 mil, e no Brasil é o mesmo preço em reais”, diz Werney.

Variedades como o Philodendron spiritus-sancti são chamadas de “unicórnios” pelos colecionadores de plantas — aquelas que todo mundo quer e ninguém encontra. Uma opção são os leilões, que funcionam como no mercado de obras de arte e nos quais as amostras atingem cifras impensáveis como a mencionada pelo sócio da Dois Trópicos. Outra forma que os adeptos do hobby encontraram para finalmente conquistar um desses exemplares é a troca de mudas: uma raríssima por outra. A busca, porém, pode levar anos e anos.

O barista Taniel Toy com seu Philodendron maximum, uma das plantas raras de sua coleção

Toy é um dos poucos afortunados do planeta que ostenta um spiritus-sancti na varanda e, embora mostre isso de vez em quando, prefere não revelar onde, como e quando conseguiu adquiri-lo, por causa do furor que a espécie causa. “As pessoas tendem a achar que você se tornou um grande colecionador porque tem essa planta, mas é só mais uma”, afirma. Para ele, até pode ser. Afinal, outros unicórnios habitam sua selva, povoada principalmente por antúrios e por aquele conhecido como seu rei, o Anthurium veitchii. Uma mudinha dessa espécie nativa da Colômbia pode custar R$ 150; um espécime adulto e bem desenvolvido vendido por R$ 1,5 mil é considerado barato.

“Esse desejo acabou fazendo com que as pessoas entrassem em um consumismo doentio por plantas, virou uma coisa de shopping”

Para o médico e colecionador de begônias Paulo Tarso, 32, a busca é um pouco mais modesta. Um vaso da queridinha Begonia maculata chega a valer R$ 500, mas ele defende que plantas raras não necessariamente são plantas caras. “Nem sempre é a que o produtor lançou agora, caríssima e com fila de espera. Algumas só são vendidas em floriculturas ‘raiz’, mas por R$ 20 ou R$ 30; ou eram comuns em casas de vó, casas mais antigas, mas pouca gente conhece. Muitas vezes é falta de pesquisa”, diz.

Por isso, sua coleção depende de garimpo: além de lojas especializadas onde o preço costuma ser mais salgado, Tarso flana por floriculturas de bairro, viveiros de beira de estrada e até lugares mais batidos, como o Ceagesp, em São Paulo, em busca de mudinhas esquecidas. “Uma planta pela qual tenho bastante carinho é a minha Begonia heracleifolia. Era uma muda jogada para descarte em um viveiro, bem maltratada. Paguei R$ 30 por ela e cuidei com muita paciência até ela florescer”, conta. Conhecida como begônia-estrela, era uma planta de jardim comum antigamente, mas hoje em dia não se encontram muitas por aí.

A ostentação

Em sua jornada, Tarso descobriu no Instagram uma ferramenta frutífera. Seu perfil, dedicado às cerca de 50 begônias que cultiva, reúne 6,2 mil seguidores para trocar dicas. “Acaba virando uma rede de apoio tanto para o cuidado quanto para indicar lugares onde achar”, explica. Antes do movimento ganhar mais adeptos no último ano, colecionadores antigos já formavam grupos para trocar mudas e informações. Quando começou, Taniel Toy fez contato com pessoas que trouxeram plantas exóticas para o Brasil coisa de trinta anos atrás, quando a entrada dos espécimes no país não era tão dificultada.

O médico Paulo Tarso tem cerca de 50 espécies de begônia

De um lado, a exposição nas redes sociais e o surgimento dos chamados “plant influencers”; do outro, o aumento no consumo de plantas, que já vinha em boa toada há alguns anos e disparou na pandemia — são os fatores que possivelmente potencializaram a cena do colecionismo. “A partir do momento que se torna um hobby, você se aprofunda, quer entender mais e vai descobrindo um novo mundo”, diz Renan Hernandes, da Art Concreto.

Para ele, no entanto, nem tudo são flores. Seduzidos pelas fotos de lindas salas decoradas em inúmeros tons de verde, os seguidores transformaram as plantas em um verdadeiro objeto de consumo, obsessivamente desejado. “Esse desejo acabou fazendo com que as pessoas entrassem em um consumismo doentio por plantas, virou uma coisa de shopping. Você precisa comprar uma Begonia maculata, porque sem ela sua coleção não está completa”, avalia Hernandes.

“Criei um lema de que coleção de planta não é competição. Tenho visto que as pessoas só querem as maiores, tudo com urgência”

 

Toy, por exemplo, confessa que tem repensado a forma como fala com seus milhares de seguidores. “Criei um lema de que coleção de planta não é competição. Quando comecei era para mostrar que existiam outras espécies além daquelas que estávamos acostumados a ver e atualmente tenho visto que as pessoas não se preocupam com de onde a planta vem, só querem as maiores, tudo com urgência”, diz. Nessa ânsia meio selvagem, a ideia de bem-estar que o contato com a natureza poderia proporcionar acaba perdendo o sentido.

De qualquer forma, parece que a moda veio para ficar. Fernando Werney defende que os benefícios de cuidar das plantas, afinal, continuam ali, e a tendência é que quem começou com um vasinho, e gostou da experiência, não pare por aí. “É muito difícil alguém que vive essa troca dizer que não quer mais. Ao contrário: a pessoa se sente mais segura para comprar mais plantas até formar uma coleção”, observa ele.

A vantagem, segundo Hernandes, é que quanto mais você mergulha no universo das plantas, mais sabe cuidar delas. “Nenhum novato compra uma planta muito cara, porque quando entra no hobby, nem sabe que ela existe. Depois de um bom tempo, já vai ter outras, saber cuidar”, explica. E promete que as espécies da família Araceae — os folhudos antúrios e filodendros, por exemplo — não são tão difíceis assim de manter. Quer dizer, a boa notícia é que se você chegou ao ponto de pagar mais de três dígitos por uma planta, provavelmente você não vai matá-la.

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