Por que as unhas gigantes não são apenas uma questão de vaidade — Gama Revista

Por que as unhas gigantes não são apenas uma questão de vaidade

Unhas artificiais são absorvidas pelo mercado de luxo enquanto carregam discussões de classe, raça e gênero

Gabriel Monteiro 29 de Março de 2020

Unhas grandes, decoradas, estilo ostentação, vivem momento de glória. A influência vem de artistas como Lizzo, Bilie Eillish, Cardi B e Rosalía, cantoras que usam a nail art como parte de suas identidades visuais e espalham o movimento. Além delas, o clã Kardashian-Jenner, com as irmãs influenciadoras Kim e Kylie postando, compartilhando e transformando o ornamento em desejo.

No Brasil, um alongamento de unha pode chegar a R$ 300 e demandar uma manutenção mensal que gira em torno de R$ 170. Existe ainda o terceiro e mais importante serviço, que é o da pintura, aplicação de pedra, piercing e o que mais a criatividade do nail artist permitir — e o cliente estiver disposto a pagar.

As unhas trabalhadas ganharam tal status que são assinadas por manicures de alto padrão, da mesma maneira que designers badalados assinam roupas de luxo. É o caso de Jenny Bui e Mei Kawajiri, ambas em Nova York, que atendem celebridades. Por aqui, destaque para Roberta Munis, que produz as novas sensações em estilo, como os formatos pontudo stiletto, o quadrado coffin e o ovalado almond.

A nail artist brasileira trabalha com alongamento há quatro anos e virou referência no assunto. Entre suas clientes, celebridades como Sabrina Sato, Camila Pitanga, Anitta, Taís Araújo e até mesmo Paulo Gustavo. “Sinto que o estilo está se popularizando e até os homens estão aderindo. É uma informação de moda, mais do que um acessório, é uma forma de expressão”, conta Roberta.

As unhas longuíssimas se tornaram marca registrada da cantora catalã Rosalía, como no clipe de “Aute Couture”

Garras afiadas

A unha alongada não é nova, e, se hoje Rihanna usa, é porque Diana Ross usou; se a colombiana Kali Uchis ostenta, é porque a porto-riquenha Ivy Queen fez antes; e se Karol Conka é a representante brasileira atual, Alcione está nessa história há anos. Mas o que diferencia o movimento agora é o uso intencional das unhas longas como símbolo de poder feminino e como homenagem às mulheres que colocaram essas garras para fora antes.

Para a funkeira carioca MC Rebecca, que cresceu admirando os ícones Rihanna e Alcione, as garras afiadas são símbolo de feminilidade, mas que não a impedem de realizar as atividades do dia a dia: “Elas podem passar a ideia da mina que não lava uma louça ou que não faz muita coisa em casa para não borrar ou quebrar. Eu cuido da minha casa sem deixar minha vaidade de lado. Em um lugar onde somos vistas sempre como domésticas, as unhas e também o cabelo, mostram a força de uma mulher negra.”

Existem indícios dessas maxiunhas desde a China e o Egito Antigo. Elas eram alongadas com metal, osso e marfim e serviam como signos de identificação social no período. Mas nem o objeto nem a técnica tiveram presença significativa no Ocidente até a década de 1950, quando a unha de acrílico foi patenteada nos EUA por um dentista. E, no começo, ela servia apenas como prótese, caso alguém perdesse a unha original.

Antes disso, e por um bom tempo depois da criação da acrílica, se estabilizou o consenso de que a unha curta, no máximo a pintada em tom de nude ou pastel, aparentava alinho, higiene, discrição e elegância. Era o padrão para a elite e representava o que se esperava das mulheres: recato.

Para além da questão de gênero, o estilo da unha também está associado a uma construção social de beleza, baseada nas diferenças de classe e raça. Esse é o conceito apresentado por Milliann Kang, professora da Universidade de Massachusetts, em “The Managed Hands: Race, Gender and the Body in Beauty Service Work”. Com o auxílio de outra obra, “Black Sexual Politics”, da escritora Patricia Hill Collins, a professora mostra como o visual da mulher de elite, branca e heterossexual foi a base para as normas de aparência. Dessa figura se desenhou o ideal para a textura de cabelo, o tipo de corpo e até mesmo o estilo de unha.

A autora escreve que a unha que se desviava desse padrão foi automaticamente associada à sexualidade insinuante, à pobreza e a não branquitude. Um emaranhado complexo de estereótipos supostamente negativos da classe trabalhadora e das mulheres em geral, principalmente as negras, que, com o tempo, foi ressignificado como uma imagem de poder por esse grupo.

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Black power

E, de fato, foram as mulheres negras que assimilaram as unhas desviantes. A relação se tornou tão intrínseca na construção de identidade que a modelo norte-americana Donyale Luna foi a primeira garota negra a estampar uma capa da Vogue, em 1966, e fez isso com postiças nas mãos. Durante a década de 1970, Donna Summer não só incorporou o modelo como usou em vermelho vibrante. Mas talvez a representante mais icônica do passado seja Florence Griffith-Joyner, mais conhecida como Flo Jo. Corredora e atleta olímpica, ela bateu em 1988 os recordes de 100 e 200 metros rasos, ambos em vigor ainda hoje. Mas foram suas unhas grandes — nas cores da bandeira norte-americana e dourada, como as medalhas de ouro que ganhou — as mais comentadas nas manchetes de jornais.

Detalhes que importam: as unhas e as medalhas da corredora Flo Jo durante as Olimpíadas de Seul (1988) ©Gettyimages

Nos anos 1990, elas foram equiparadas a joias nas mãos das cantoras de hip-hop Lil’ Kim, Missy Elliott e Mary J. Blige — equivalência bling bling feminina, foi o visual ostentação dessas mulheres na época. Enquanto os homens colocavam máscaras de diamantes nos dentes e sobrepunham colares de ouro no pescoço, elas adornavam as unhas no mais alto nível, pintando com imagens de dólares, furando com argolas e aglomerando cristais.

Hoje, a ascensão das unhas acontece com celebridades negras reafirmando o nail art como parte de sua história. Mas há também um mercado interessado em somar dinheiro sem necessariamente dizer de onde tudo isso veio. “Assim como as tranças, as unhas de acrílico são as próximas na fila das características dos grupos marginalizados, que uma vez foram vistas de maneira negativa, mas viraram mainstream. É mais um exemplo da elite se apropriando de uma cultura negra sem sofrer nenhuma consequência”, escreve a jornalista Akesha Reid, no Refinery 29. Nessas unhas, com muito espaço para trabalhos artísticos, há também lugar para uma longa lista de créditos.

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