Filosofia popular brasileira — Gama Revista

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Filosofia popular brasileira

Bruno Perousse / Getty Images

Em novo livro, autores exploram potencial filosófico de tradições e crenças populares, como o Carnaval, a capoeira e a umbanda

Leonardo Neiva 02 de Março de 2021

Na filosofia popular brasileira, o Carnaval vira uma sala de aula de história do povo; Mestre Pastinha, pensador da capoeira, é filósofo como Descartes; a umbanda solta um grito contra as imposições culturais estrangeiras, e o malandro, arauto da malemolência, é promovido a autoridade máxima de nossas contradições. Essas e outras análises do saber que permeia nossa cultura de rua estão em “Arruaças: Uma Filosofia Popular Brasileira”, livro que chegou em outubro de 2020 às prateleiras e que explora, através de textos curtos, a filosofia geralmente ignorada — seja por preconceito seja por um certo elitismo acadêmico — de nossas manifestações populares.

Para mexer nesse caldeirão de saberes, tradições e manifestações que marcam nossa cultura, foram precisos nada menos que um historiador, um filósofo e um pedagogo. São eles, respectivamente: o escritor, professor, historiador e ganhador do Jabuti por “Dicionário da História Social do Samba”, Luiz Antonio Simas; o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Rafael Haddock-Lobo, que lá coordena o Laboratório X de Encruzilhadas Filosóficas; e o escritor, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e aprendiz de capoeira Luiz Rufino.

A ideia de filosofia popular brasileira é uma brincadeira, até porque a filosofia no Brasil não é popular, é elitista, e de origem europeia

O título do livro contém um significado e uma provocação duplos. Além da arruaça tradicional, aquele já conhecido costume de promover confusão, baderna e gritaria pelas ruas, faz referência também às cadeiras de arruar, as liteiras em que os escravos carregavam suas sinhás pelas ruas das cidades brasileiras. As portinholas destas, de acordo com um texto introdutório assinado pelos três autores, “visavam proteger as sinhás dos perigos representados pelos desordeiros que incendiavam as ruas com suas fundangas, promoviam quizumbas nas encruzilhadas, as encruzas (…) e se entocavam em seus cafofos.” Em resumo, os arruaceiros.

“No subtítulo, brincamos com a ideia de filosofia popular brasileira para mostrar que isso só é possível com uma certa arruaça, no sentido de festa, mas também de luta”, explica à Gama Haddock-Lobo, o filósofo do trio. “No curso de filosofia, me chocava o descaso pela cultura brasileira. A ideia de filosofia popular brasileira é uma brincadeira, até porque a filosofia no Brasil não é popular, é elitista, e de origem europeia.”

O filósofo reforça que o livro nasceu de conversas e trocas de ideias entre os três autores, que aconteceram não em cima das carteiras das salas de aula, mas apoiadas sobre mesas de bar. “Ele não foi gestado nas instituições, foi na rua. Não é um texto para o público acadêmico, que vai ter até dificuldade para entender algumas pegadinhas do livro devido a um certo enrijecimento.”

A seguir, reunimos alguns dos principais exemplos de manifestações, tradições e ícones populares cuja filosofia bem particular a obra apresenta ao leitor.

A ascensão do malandro

Saído do catimbó nordestino, prática religiosa de origem indígena, o índio Zé Pelintra chegou ao Rio de Janeiro no início do século 20, onde “vestiu o terno de linho S-120, o chapéu Panamá, a gravata vermelha e o sapato bicolor”. Assim Simas descreve num capítulo do livro o surgimento do mítico malandro carioca, figura que para muita gente é ainda mais representativa da cidade do Rio que o Cristo de concreto armado que lhe faz sombra.

O malandro é aquele que se adapta, anda no fio da navalha e cria alternativas de vida no precário

Repleta de contradições, a filosofia do malandro é se adequar para transgredir, gingar para manter o equilíbrio e ganhar o jogo ao levá-lo para o seu terreiro, se apossar de suas peças e propor regras que o inimigo é incapaz de seguir. “É aquele que se adapta, anda no fio da navalha e cria alternativas de vida no precário. Ele cria soluções de resistência nas frestas do poder instituído. O Zé Pelintra é icônico na perspectiva de construção incessante de vida, é uma figura típica de culturas de fresta”, explica o historiador.

Nas palavras de Rufino, o malandro é doutor da rua, sabedor das manhas, mestre curador dos males do corpo e do espírito. Embora tenha irmãos em várias culturas e países, o malandro carioca é único, representante de uma cidade erguida do “cruzo” — o encontro de culturas e saberes —, e não da “eloquência francesa”. Nasce graças ao projeto excludente da metrópole, que obriga a maior parte da população a fazer muito com pouco. Por isso, em seu texto, o pedagogo defende: seu Zé Pelintra para prefeito do Rio.

Um grito dos Brasis

Assim como a capoeira e o samba, o candomblé e a macumba são uma sabedoria do pisar. De acordo com Haddock-Lobo, isso significa que, em cada terreiro que botamos o pé, é preciso saber agir segundo a lei do lugar. A umbanda não é uma nem duas, mas um encontro entre saberes ancestrais: o indígena e o banto, vindo da África. Juntos, lutam contra a colonialidade, contra a ideia importada de uma identidade nacional, que pensa poder decidir entre o que é brasileiro e o que não é.

A ordem e o progresso inscritos na bandeira nacional refletem a filosofia positivista do francês Auguste Comte. “O samba das macumbas, o surgimento da umbanda, tudo isso ameaça essa ideia cientificista, esse saber rigoroso pregado pelo positivismo, que inventa uma identidade brasileira”, diz o filósofo. Sob esse olhar, a umbanda acaba sendo uma junção de culturas, povos, tribos contra um inimigo que ameaça sua existência. Por isso, Haddock-Lobo afirma que o grito que inaugura a umbanda acontece em muitos lugares ao longo desses Brasis. Um grito que significa, ainda nos dias de hoje, um apelo para a formação de um país aberto às ruas.

O corpo como liberdade

A encantaria é uma manifestação religiosa praticada em alguns estados do Norte e Nordeste do Brasil, que une a tradição dos voduns do Maranhão, de origem africana, e a pajelança indígena. Nela, os encantados não são espíritos que retornam da morte para o mundo dos vivos, mas pessoas e animais que, embora tenham vivido, não chegaram a morrer. Em vez disso, encantaram-se, ou seja, tornaram-se invisíveis ou se transformaram.

Para Simas, a encantaria é território fértil para refletir sobre a relação com o outro, pensar na linguagem do corpo como possibilidade de liberdade e na transformação como forma de negar a mortandade. A prática pode até abrir caminhos para ampliarmos as teorias do conhecimento e do ser. “Quem não vê nisso um manancial para o pensamento é porque está mesmo normatizado pelas gramáticas enfadonhas do desencanto.”

Filósofo do movimento

“Capoeira é tudo que a boca come e tudo que o corpo dá.” Assim Pastinha, baiano considerado um dos maiores mestres da capoeira da história, definiu a arte que definiu boa parte de sua vida. Pensador do jogo da capoeira, Pastinha é apontado por Rufino como “filósofo negro-africano”, que “fez problematizações sobre questões filosóficas tanto quanto Descartes, Espinoza e Merleau-Ponty”. Segundo o pedagogo, ele mesmo aprendiz da nobre arte, o velho capoeirista tratava a capoeira como uma força criativa que contraria as lógicas da dominação e fornece elementos para a invenção da vida.

Todas as dimensões que se cruzam a um padrão dominante resguardam filosofias, presenças, lógicas de saber, sistemas de linguagem

Espécie de sabedoria gingada, a filosofia da capoeira combate a desumanização usando o jogo, o movimento, rearranjando as partes fragmentadas e invocando a memória coletiva e a ancestralidade. O bonito nela, assevera o professor, não é fazer, mas mostrar que poderia ter feito. Seus grandes mestres — categoria na qual, além de Pastinha, também estão incluídos Canjiquinha, Noronha e muitos outros — escreveram pela linguagem do corpo obras que abordam de forma sofisticada temas que vão da política à educação, do pertencimento à memória, da alegria à dor.

Diz o pedagogo que, como ato filosófico, a capoeira nos convoca a enfrentar nossa presença implicada ao outro com quem se joga. “Todas as dimensões que se cruzam a um padrão dominante resguardam filosofias, presenças, lógicas de saber, sistemas de linguagem. Talvez seja uma dificuldade nossa, por causa da extrema ocidentalização, não reconhecer isso.”

Gramática da batida

Investir no potencial pedagógico do tambor, alternativa à narrativa instituída, é essencial para representar a complexidade da história de um país como o Brasil, defende Rufino no livro. Essa gramática, levada a cabo por meio da batida, sugere maneiras de escrever sobre batalhas e beleza. A presença do tambor, diz o pedagogo, “talvez seja um dos principais símbolos de contra-ataque a uma política de dominação que opera interditando linguagens e domesticando corpos.”

Quando jovem, Simas teve provas concretas do potencial de ensino do samba. Como conta em um de seus textos, foi graças a escolas do Carnaval carioca, como Caprichosos de Pilares e Em Cima da Hora, que entrou em contato com temas e histórias que os livros didáticos não ensinavam. “Foi escutando samba-enredo que eu, ainda menino, soube da Guerra de Canudos, da peleja do caboclo Mitavaí contra o monstro Macobeba, da literatura de Lima Barreto, do drama da seca do Nordeste, da vida fabulosa do pai de santo Hilário de Ojuobá.”

Resistentes a se encaixar em modelos prontos, as escolas de samba já cantaram desde louvores à ditadura até narrativas que foram apagadas pela história oficial. Para Simas, elas não precisam se reduzir ao papel de empresas turísticas. Em vez disso, podem e devem ser instituições culturais de vanguarda, “terreiros em que o canto celebrado em tambor escuta a voz potente de brado de vida daqueles que, muitas vezes, cantaram na fresta a chance de um Brasil que, devorado, comido, pelintrado e cuspido pela brasilidade, pode ser mais generoso.”

Produto

  • Arruaças: Uma Filosofia Popular Brasileira
  • Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino, Rafael Haddock-Lobo
  • Bazar do Tempo
  • 200 páginas

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