A Língua de Trump - Bérengère Viennot — Gama Revista

Trecho de livro

A língua de Trump

Livro da tradutora francesa Bérengère Viennot analisa a linguagem política vulgar e violenta de Donald Trump e questiona as consequências desse tipo de discurso para os sistemas democráticos

11 de Setembro de 2020

POR QUE LER?

Professora da Universidade Paris VII e especialista na tradução de notícias sobre política norte-americana, Bérengère Viennot trabalha há 20 anos para a imprensa francesa. Foi só nas eleições presidenciais de 2016, no entanto, que ela enfrentou o maior desafio de sua carreira: como traduzir as declarações de um político que não segue os códigos tradicionais? A linguagem de Donald Trump — vulgar e sarcástica, com uma sintaxe atrapalhada e frases confusas — não só impôs obstáculos para o trabalho da tradutora francesa, mas instigou as reflexões que estão em “A Língua de Trump”. Publicado originalmente em 2019 e editado em diversos países, o título chega ao Brasil pela editora Âyiné em boa hora, nas vésperas das novas eleições dos EUA e em um momento nacional totalmente dialógico com o retratado no livro.

Com exemplos de entrevistas, declarações e tweets, a conclusão a que a autora chega é que o modo Trump de se comunicar, além de demonstrar um descolamento da realidade, também configura um ato político violento. Não à toa, o presidente norte-americano fez escola entre líderes extremistas de direita que reproduzem e se valem da mesma forma discursiva para ganhar popularidade — caso do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Moldado por uma ironia afiada, o texto de Viennot nos faz rir de nervoso, ao permitir analisar nossa própria condição e despertar questionamentos sobre as consequências para os sistemas democráticos de uma linguagem política violenta e grosseira.

De quebra, também é interessante perceber na leitura o exercício da tradução — que, na versão brasileira, passa pelo francês, o inglês e o português — e como um mesmo tipo de discurso ecoa em diferentes línguas.


Gorjeio

Donald Trump é o primeiro presidente a fazer do Twitter uma ferramenta de comunicação predominante durante seu mandato. O Twitter nasceu em 2006, e se Barack Obama fez uso dele durante sua primeira campanha presidencial, admitiu jamais ter escrito ele mesmo uma mensagem na época.

Trump é completamente fã dessa rede social (“O Twitter é algo maravilhoso para mim, porque consigo transmitir a mensagem… talvez eu não estivesse aqui conversando com você como presidente se eu não tivesse uma maneira honesta de comunicar a minha mensagem”, ele declarou à Fox News em 15 de março de 2017) e despeja ali uma verdadeira logorreia. Ele parece acessá-lo assim que acorda e sempre encontra muitas coisas a dizer sobre uma série de assuntos. E quando não encontra, sempre repete: “MAKE AMERICA GREAT AGAIN!”.

O Twitter oferece um meio excelente de observar o modo de falar de Donald Trump. O famoso “despite the constant negative press covfefe” (“apesar da constante covfefe negativa da imprensa”) (sim, covfefe é feminino), publicado em 31 de maio de 2017, ilustra a que ponto ele tuíta impulsivamente. O Twitter é o método de comunicação ideal para ele: é uma mídia do momento, utilizada e lida por milhões de pessoas. Sua brevidade forçada permite elaborar 54 frases curtas e slogans e expressar à perfeição um estilo de pensamento fragmentado e sucinto. Em seu livro “How Trump Thinks”, Peter Oborne e Tom Roberts tiveram de construir um léxico da linguagem de Trump no Twitter. Eles começam explicando os códigos de pontuação usados por Trump:

“aspas” – cinismo
????? – descrença
!!!!!!! – descrença extrema
TUDO EM LETRAS MAIÚSCULAS – raiva

Em seguida eles categorizam o número de palavras que surgem com mais frequência. Na categoria “para atrair atenção e finalizar o tweet” temos, por exemplo, Wow!, que eles notaram trezentas vezes (os autores especificam que os números foram arredondados. Além disso, o trabalho foi interrompido em abril de 2017, portanto tem mais valor de ilustração do que de prova matemática). Na mesma categoria, sad! (“triste!”) aparece 250 vezes. Na categoria “Elogios (em geral autoatribuídos)”, encontramos o inevitável great (“ótimo”) e seu superlativo greatest (“o melhor”) por volta de… 4.400 vezes. Entre as outras categorias, naquela dos “Arrependimentos”, que inclui as fórmulas “Eu lamento”, “Sinto muito” e “Peço desculpas”, os autores observam maliciosamente zero ocorrências.

Para além da zombaria fácil, descobrimos que o Twitter é o melhor meio para comunicar sentimentos como se fossem fatos. É o reino dos instintos com voz própria, da praça pública, dos clichês fáceis e das frases vazias e descontextualizadas. Fortalecido por sua posição de autoridade, Trump pode propagar suas verdades e suas reações, ditadas por emoções e primeiras impressões e não por uma verdadeira reflexão. Ele não está absolutamente sozinho: no Twitter, paixões costumam irromper mas os debates raramente têm profundidade filosófica. O formato não se presta à reflexão intelectual: presta-se ao diálogo superficial e ao aforismo fácil. No caso de Trump, trata-se de um monólogo que serve para justificar suas escolhas e protrusões, e fazer uma verdadeira propaganda com pequenos clipes e slogans de louvor à sua glória e à de seu governo. E também, é claro, desgastar os meios de comunicação em geral e a imprensa em particular (de preferência o New York Times e a CNN), com exceção da Fox News.

Um exemplo de um tweet do dia 2 de agosto de 2018:

Uau, @foxandfriends acaba com seus concorrentes na audiência matutina. Morning Joe é um programa morto com muito poucos espectadores e, que pena, a Fake News CNN também tem resultados péssimos. Muito ódio e artigos cheios de imprecisão – previsíveis demais!

(O programa “Morning Joe”, da MSNBC, havia apresentado no dia anterior um debate sobre as suspeitas de obstrução da justiça por parte de Donald Trump, diante da investigação do promotor Mueller sobre um possível conluio entre a equipe de campanha de Trump e a Rússia. O programa Fox & Friends, por sua vez, é abertamente pró-Trump).

Um dos problemas no mundo virtual da internet é o sentimento de impunidade daqueles que se utilizam dela para fins prejudiciais. As pessoas trolam, assediam e insultam de forma anônima, escondidas atrás de suas telas, convencidas de que não terão de arcar com as consequências de seus atos, já que ninguém está ao lado delas para observá-las.

Para Donald Trump, o sistema é o mesmo: ele conta tudo o que passa por sua cabeça, como se estivesse sozinho nesse universo e não pudesse haver nenhuma consequência, nenhuma verificação de suas declarações. Para ele, o Twitter é uma espécie de alívio contra o estresse, o rascunho de um diário íntimo, no qual ele poderia contar tudo o que pensa antes de dedicar um tempo à reflexão, enquanto desfruta secretamente da certeza de ser lido por milhões de pessoas. O Twitter, por sua concisão e seu alcance, favorece um tipo de pensamento binário, um mundo de mocinhos e bandidos. Não há necessidade de justificativa, nem de fontes ou provas: no Twitter, Trump manipula com grande destreza o velho ditado segundo o qual uma pessoa precisa parecer convencida de ter razão para que se acredite nela. A única desvantagem: no Twitter, ele só prega para convertidos. Seus apoiadores veem nessas mensagens lapidares e peremptórias uma confirmação da precisão de sua política e de suas opiniões; seus detratores lamentam e se indignam com o que lhes parecem ser manifestações de orgulho e sequências de disparates.

Em um tweet de 31 de julho de 2018, por exemplo, sobre suspeitas de colaboração entre sua equipe de campanha e a Rússia durante a campanha presidencial:

O conluio não é crime, mas isso não tem a menor importância porque Não Houve Conluio (exceto por parte da Hillary desonesta e dos democratas!).

Fora que ele parece inventar um nome de um grupo de rock dos anos 1980 (na versão original, “Crooked Hillary and the Democrats”, soa muito bem, não?). Para Trump, basta afirmar no Twitter que não houve conluio para que isso seja verdade. Além disso, em 240 caracteres, as pequenas fórmulas de ofensa vão muito bem: “crooked Hillary”, mas também o “failing New York Times” e outras “fake news media”, matraqueadas incansavelmente, acabam deixando um rastro no inconsciente de quem as vê surgindo sem cessar. Segundo o historiador Michael Beschloss*, Trump alcança cerca de 100 milhões de pessoas através do viés das redes sociais. Isso é inédito na história presidencial americana, e o vocabulário que chega diariamente a todos esses ouvidos – ou melhor, a todos esses olhos – não pode deixar de causar impacto.

*Tamara Keith, “President Trump’s Description of What’s ‘Fake’ Is Expanding”, NPR, 2 de setembro de 2018.

Produto

  • A Língua de Trump
  • Bérengère Viennot
  • Âyiné
  • 140 páginas

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