Trecho do livro: Bebês e suas mães, de Winnicott — Gama Revista

Trecho de livro

‘Bebês e suas mães’

Trecho inédito de livro de Donald Winnicott, em que o psicólogo responde a cartas enviadas por ouvintes de um programa de rádio

17 de Abril de 2020

Este é o último episódio do que acabou sendo uma série bastante curta de conversas sobre mães e bebês.¹

Primeiro, vou falar de uma carta muito útil, enviada por uma ouvinte de Liverpool, que diz que ela continua a se interessar pelos problemas relacionados aos cuidados com o bebê mesmo que sua filhinha já esteja indo à escola. Essa mãe ressalta que dei a impressão de que livros sobre cuidados infantis não servem para nada, mas conta que aprendeu muito com eles e cita uma publicação, de autoria de um amigo meu, que concordo que seja imensamente útil. Entendi o que aconteceu. Tenho tentado mostrar que o manejo do bebê durante as fases muito iniciais é algo que vai além do que se pode aprender em livros; algo que, sob as condições adequadas, vem com muita naturalidade graças ao simples fato da maternidade da mãe. Eu acredito mesmo que aquilo que é natural pode ser prejudicado pelos livros caso a mãe se afaste porque está ocupada demais tentando aprender algo, enquanto que a coisa mais importante é proporcionar as condições certas para o desenvolvimento dos processos naturais. Fico muito contente, no entanto, de ter a chance de esclarecer que livros que trazem boas informações e que combatem a ignorância são do maior valor, especialmente à medida que o bebê se afasta dos estágios iniciais e depende cada vez menos de uma adaptação sensível às suas necessidades.²

Uma ouvinte de Bexleyheath, em Kent, fala justamente disso em sua carta. Ela diz: “Tenho certeza de que, se deixada em paz, a mãe comum estabelecerá um bom relacionamento com seu bebê e será bem-sucedida em atravessar o ciclo da natureza e em nutrir a criança com seu próprio corpo. Mas quantas de nós são deixadas em paz?”. Então ela prossegue com uma descrição sinistra do modo como seu bebê foi apresentado a ela na maternidade, um lugar que, tenho certeza, ela não teria qualquer outro motivo para criticar. “Vinte e quatro horas após nascer, minha filha foi trazida para ser amamentada pela primeira vez em meio a toda uma correria e confusão, sem que eu ainda nem tivesse tido a chance de segurá-la ou de fazer qualquer carinho que permitisse nos acostumarmos uma com a outra. Em uma das mãos, a enfermeira segurava com força a cabeça da bebê, com a outra, meu seio, também segurado com força, e então, e
um aperto doloroso, uniu a nós duas”. E assim por diante.

Aquilo que é natural pode ser prejudicado pelos livros caso a mãe se afaste porque está ocupada demais tentando aprender algo

Com que frequência ouvi histórias como essa e seus tristes desdobramentos? Posso continuar com a leitura? “Neste momento, estou à espera do nascimento de meu segundo filho, e se qualquer um” – essa parte está duplamente sublinhada – “tentar interferir nos momentos preciosos que teremos juntos, pegarei minha jarra de água e a arremessarei nessa pessoa […]. Com certeza esse seu programa de rádio se dirige às pessoas erradas!”.

Concordo com ela, mas, ao mesmo tempo, me preocupa porque posso ser mal compreendido. Quando dizemos essas coisas – e nenhuma afirmação é forte o suficiente –, não esquecemos que as mães devem muitíssimo a esses médicos e a essas enfermeiras que tornaram o parto um procedimento quase livre das tragédias terríveis que eram comuns cinquenta anos atrás.

Outra preocupação: quais seriam os efeitos de uma discussão desse tipo sobre uma jovem gestante? Por exemplo, uma mulher em Devon escreveu: “Serei internada em breve; será em um pequeno hospital ( já que não tenho ajuda em casa), onde, segundo me informaram, a mãe só vê de fato seu bebê nos horários de amamentação. Eu sei que, se somadas, serão muitas horas, mas gostaria de saber se, durante essas primeiras duas semanas – que certamente são fundamentais –, a mãe pode começar a entender as necessidades de seu bebê sem ter o berço a seu lado. Ficaria muito agradecida com qualquer conselho. […] Se o senhor acha que o tipo certo de contato com o bebê não pode ser estabelecido em uma instituição desse
gênero, farei os maiores esforços para organizar o nascimento de meu bebê em casa”.

Uma gestante que está prestes a dar à luz, sobretudo quando se trata do primeiro filho, precisa muito de médicos e enfermeiras em quem confie

Sinto que essa mãe não deveria mudar seus planos apenas com base em meu programa, isso porque há muitas outras coisas a serem consideradas. Uma gestante que está prestes a dar à luz, sobretudo quando se trata do primeiro filho, precisa muito de médicos e enfermeiras em quem confie, e seria melhor confiar em pessoas no aqui e agora (pessoas que, é claro, são humanas e imperfeitas) do que frustrar planos por conta de algo que uma voz lhe disse pelas ondas do rádio, ainda que seja verdade. Tudo depende do médico que atende a gestante, o qual, sem dúvida, pode concordar com a ideia de fazer o parto em casa; e então tudo estaria resolvido, pois ele se tornaria a pessoa responsável tão necessária nesse momento tão especial. Ao ler esta carta, primeiro tive a impressão de que não é uma boa ideia criticar um procedimento tão estabelecido, mas, no fim das contas, pensei que nós devemos poder falar desses assuntos, desde que tenhamos o cuidado de esclarecer que nos referimos a esse tema de maneira geral, e que nosso objetivo não é dar conselhos individuais. É como uma variação do ditado popular: a exceção não faz a regra.

Conheço uma jovem mãe que teve seu primeiro filho em um lindo hospital, que tomou anestesia e tudo mais, e cujo bebê foi levado e alimentado na mamadeira por uma enfermeira excelente, mas que não achava a amamentação uma boa ideia. O filho seguinte nasceu no mesmo hospital, mas a mãe conseguiu enganar as enfermeiras e permaneceu consciente durante todo o parto. Veja, ela queria saber como era passar pelo processo. Mas a alimentação desse segundo filho também ficou a cargo de uma enfermeira que preferia a mamadeira ao seio. O terceiro filho nasceu em casa. A mãe disse que aceitaria correr todos os riscos para provar que era capaz de amamentar. Ela conseguiu, mas quase sofreu uma nova derrota, porque a enfermeira que a acompanhou em casa após o parto também não confiava nos processos naturais. Ela só foi bem-sucedida depois de dispensar a enfermeira e pedir ajuda para alguém sem formação específica – algo muito corajoso a ser fazer, na minha opinião. Mas desde já devo acrescentar que as enfermeiras mudaram de atitude nos últimos anos e, cada vez mais, pode-se confiar que elas desejem que todo bebê mame no seio.

Ao falar sobre relações pessoais, eu disse algo desagradável sobre as sogras. Sinto muitíssimo. Não, eu não pretendo me passar por comediante, como foi sugerido em uma carta vinda de Tunbridge Wells. Vejo que não terei tempo para responder a todas as oito cartas que recebi, mas devo mencionar uma mensagem anônima vinda de Manchester. Esta carta não foi assinada porque é extremamente crítica. É possível que os detalhes do relacionamento entre uma mãe e seu bebê sejam um assunto delicado demais para qualquer um que não esteja envolvidos com o tema. Eu me pergunto o que você acha disso.

1- Roteiro do sétimo e último episódio da série “A mãe dedicada comum e seu bebê”, veiculado em 20 de fevereiro de 1952 como parte do programa A hora da mulher da BBC Light Programme, com produção de Isa Benzie. [N.E.]

2- Neste ponto, os dois parágrafos a seguir foram riscados e provavelmente não foram ao ar:

“A carta continua descrevendo o modo como a ouvinte conseguiu ajudar outra jovem mãe a iniciar a amamentação ao proporcionar de maneira calma o setting necessário e os dados factuais; conta também sobre como essa mãe ficou em pânico porque alguém se mostrou preocupado com uma ligeira perda de peso, de modo que o leite dela secou de imediato. Ela também ressaltou que o marido dessa jovem poderia ter ajudado, mas que ele era contra a amamentação, o que só aumentava as dúvidas da jovem mãe sobre sua capacidade de alimentar o bebê desse modo.

“Em um cartão-postal, uma avó de Streatham conta que a amamentação foi a coisa mais adorável de sua vida de casada. Ela conseguiu dar de mamar aos sete filhos, e acrescenta: ‘Agora sou uma avó com dez netos. Eu gostaria muito de saber o que mudou de lá para cá; hoje eles são muito mais bem cuidados’. Sempre me pergunto se médicos e enfermeiras, que hoje têm uma formação mais completa e entendem tudo sobre a promoção da saúde do corpo, não teriam, ainda, uma outra coisa a aprender: o fato de que, durante a maternagem de um recém-nascido, apenas a mãe é capaz de se sair muito bem na execução dessa tarefa, já que aquilo de que o bebê precisa é exatamente o que ela, e só ela, foi moldada para oferecer.”

Produto

  • Bebês e suas mães
  • Donald Winnicott
  • Editora Ubu

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