Contra Mim, de Valter Hugo Mãe — Gama Revista

Trecho de livro

Contra Mim

O escritor português Valter Hugo Mãe revisita anotações reunidas durante 15 anos e lança livro com memórias de sua infância e adolescência

Mariana Payno 08 de Janeiro de 2021

POR QUE LER?

Os fãs de Valter Hugo Mãe bem sabem que a sua literatura tem ares de intimidade confessa: o pescador que queria ser pai, a menina islandesa, o artesão japonês — para listar alguns dos protagonistas de seus romances — parecem, afinal, veículos para ideias que brotam do âmago do autor e se transformam em reflexões líricas na mente de personagens quase sempre improváveis. Pois, no novo “Contra Mim”, esse exercício de questionamento poético do mundo nasce mesmo da realidade.

O livro, apresentado como “o mais pessoal” do escritor português, reúne passagens de sua infância e adolescência, organizadas em uma espécie de autoficção da memória a partir de textos colecionados ao longo de 15 anos. Em um ano de isolamento e introspecção como foi 2020, Hugo Mãe olha para dentro de si e compartilha a conversa íntima com os leitores, na tentativa de “chegar mais próximo de me suportar e, essencialmente, suportar a contingente distância a que estão os outros”, escreve.

A cada capítulo conhecemos um pouco mais do universo lúdico do menino: sua relação com os pais, com o irmão morto antes de ele nascer, com a história recente de Portugal, com a vizinhança, com os bichos, com o próprio corpo, com as descobertas. “Contra Mim”, na verdade, revela o embrião de uma literatura sensível como a de Valter Hugo Mãe, que conquistou tantos leitores brasileiros: uma criança curiosa que aprende a ler as sensações do mundo buscando sempre as palavras exatas para descrevê-las.


Subitamente, causou muita impressão a cura instantânea dos meus cravos. Ouvia dizer-se de muitas crianças curadas de algum modo, à força da vontade do mesmo São Bento, mas o dizer-se não era constatar-se assim, visto, testemunhado sem distância.

Passou a palavra pela escola e em redor da nossa casa. Algumas pessoas não fizeram caso, mas outras, as mais aflitas, olhavam-me com uma fome de felicidade grande, como se eu pudesse ter descoberto algo que precisavam de descobrir também. Era comum, nesses dias, passarem-me a mão pela cabeça dizendo uma prece, uma palavra, algo muito rápido que parecia ter tanto de católico quanto de certa bruxaria. Assustava-me.

Era comum, nesses dias, passarem-me a mão pela cabeça dizendo uma prece, uma palavra, algo muito rápido que parecia ter tanto de católico quanto de certa bruxaria

Por duas vezes, fui ultrapassado pelas situações. Na loja do senhor Pinho, quando lá corri a buscar rebuçados, uma mulher disse que eu era o menino da graça de São Bentinho. Disse-o numa surpresa, gritando. Era para que não me deixassem fugir. Tinha um neto recém-nascido que não parava de chorar. Estava ainda a fechar a moleirinha e a alma não lhe sossegava. Afirmava ela que o menino ia a tempo de mudar a alma. Aberta a moleirinha, ainda podia ser outro. Ser melhor. Esperei, impedido de sair.

Quando entrou a moça com o menino nos braços, que chorava sempre e debelava-se, a mulher mandou que mo desse para o colo. Creio que foi a primeira vez que peguei num bebé. Peguei nele cheio de medo. Podia cair, era pesado, não parava quieto, eu haveria de ser culpado de lhe fazer mal. E a mulher pediu que pusesse suavemente uma das mãos na cabeça do menino. Era para que se lhe mudasse a alma. Assim o fiz, e o menino calou-se. Sossegou. A mulher declarou que já estava, e chorou. Fui embora. Pensei que queria muito também ser um santo, se o pudesse ser sem uma pretensão vaidosa. Voltei para a escola num susto.

Quando chegava atrasado, nem que três minutos, era hábito que me batessem na cara. Uma ou duas vezes. Parava à porta, a professora levantava-se da sua mesa encostada no canto interior, abeirava-se do ponto onde eu aguardava, iluminado pelo clarão do dia nas janelas generosas, e batia-me sem interesse por qualquer explicação. Depois de mudar a alma de um bebé, sentei-me com a face a arder, sem chorar, para não arriscar ser batido de novo, talvez com a régua que podia partir ossos, que podia desfazer para sempre as minhas mãos agora tão curadas.

Passava a mão pela minha cabeça e dizia que as crianças não têm pecados. São por aprender

Mais tarde, uns dias mais tarde, ao pé da casa da dona Maria Guinalda, estava uma velhota, muito velhota, sentada, com ar de finar-se e encarquilhada, tanto quanto os xailes pretos que a cobriam. Disseram que o menino da graça de São Bentinho lhe haveria de fazer bem e chamaram-me à beira. A velhota tomou a minha mão pequena e, talvez porque fosse da mão que o milagre se fez, levou-a à boca desdentada. Mordeu-a como pôde. A fazer umas cócegas repulsivas. Muito repulsivas. Esperei. Olhei para outro lado. Pensei que ter a sorte de um milagre trazia obrigações. Julgo que era a dona Maria Guinalda que dizia: milagrinhos. Os dias estavam cheios de milagrinhos, e eu seria um deles.

Lembro-me de atravessar a rua. Havia uma árvore do lado de lá, no passeio, até mesmo atrapalhando o passeio, e ali, a dividir com o campo dos castelos de madeira onde eu brincava, sob a árvore de tamanho descomunal, pensei que haveria de ser sempre puro, para suportar pelos outros todas aquelas aflições, e que alguma perversão começava nesse esclarecimento. Não era o mesmo que ser livre. Era o contrário. Para tal propósito perdíamos a liberdade por completo.

Quando a tia Milinha me perguntava por pecados, eu não confessava nada. Mas prometia nunca mais voltar a errar. E ela aceitava que eu lhe dissesse assim. Passava a mão pela minha cabeça e dizia que as crianças não têm pecados. São por aprender. Não sabem da maldade. Sorte a das crianças para sempre, era a evidente solução.

Mais tarde, convenci-me de que não resolvi a conta. Mas talvez tenha resolvido infinitamente o espírito torpe da professora

Talvez durasse apenas duas semanas, apenas alguns dias. As coisas esqueciam-se à pressa. A televisão dava notícias grandes que preocupavam a pobreza de todos e era pouco costume que algo bom se discutisse longamente. Mas ainda lembro de na escola a professora me bater as mãos limpas. Julgo que se convencera de que eu escondia os dedos sãos sob os curativos, como se lhes pintasse o próprio sangue para imitar feridas que não existiam. E então me bateu com a cana nos dedos enquanto gesticulava alguma conta de dividir, que eu odiava. E muito me doeu e, por horas, marcou a pele. Que pena que voltasse a ter as mãos desfeadas depois de tanto me demorar a graça de uma cura. A professora mandou que fosse ao quadro fazer diante de todos a conta de dividir que era grande, difícil, praticamente impossível para o meu espírito poético, inexacto. Assim desenhei o enunciado da conta e, incapaz de método, calma, ciência ou qualquer justificação, movido pela simples imagem de que, no fim, aquilo devia parecer uma pirâmide de algarismos invertida, escrevi à sorte os algarismos da esquerda, depois os da direita, de modo que aquele triângulo fosse o mais certinho possível, com um bocadinho de números deixados de lado para os que iam fora, os que ficavam de resto. Tomei nisso dez segundos, olhei. A professora, profunda por uma vez, disse: está muito bem, vá sentar-se. Os colegas todos da turma pasmaram perante como resolvi uma conta de dividir impossível sem pensar, sem usar os dedos em cálculos, sem tempo. Mais tarde, convenci-me de que não resolvi a conta. Mas talvez tenha resolvido infinitamente o espírito torpe da professora. Talvez se tenha percebido de como um aluno podia bloquear no medo, a segurar as suas mãos milagradas, sem poder mais do que suplicar por viver. Era certamente o que se vira ali. À deriva, em desamparo, com a mão magoada de me haver batido, traçando na pele a fustiga da cana, eu nunca poderia mais do que deitar-me à mercê. Ela terá sentido vergonha. Terá temido o mesmo São Bento que me curara as mãos que se atrevera a desprezar.

Produto

  • Contra Mim
  • Valter Hugo Mãe
  • Biblioteca Azul
  • 256 páginas

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