Eu não nasci mãe, de Lua Barros — Gama Revista

Trecho de livro

Eu não nasci mãe

Novo livro da educadora, mãe de quatro e influencer Lua Barros reflete sobre formas mais saudáveis e acolhedoras de exercer a parentalidade

Mariana Payno 06 de Novembro de 2020

POR QUE LER?

“É importante que você saiba: este livro não aponta uma direção nem indica o melhor caminho”, escreve a educadora parental Lua Barros logo nas primeiras páginas de “Eu Não Nasci Mãe”. O alerta está também na contracapa e no prefácio de Bárbara Amaral: o livro que investiga conflitos usuais na criação dos filhos, a ser lançado neste mês pela Editora Nacional, não tem a intenção de ser um manual para mães, pais e cuidadores aflitos. Ao contrário, a ideia de Barros é construir junto com o leitor uma noção de parentalidade mais leve, porém crítica às idealizações.

No entanto, ao investigar e questionar o mito da mãe infalível e propor reflexões sobre temas como culpa, respeito, autonomia e emoções, a autora – que, além de atender pais e mães e dar palestras sobre o assunto, é criadora da Rede Amparo, de acolhimento a mulheres e gestantes – traça algum direcionamento para o que seria, segundo ela, um exercer mais saudável da parentalidade. Uma opinião que parte de alguém com conhecimento de causa: além da própria experiência como mãe de quatro filhos e educadora na área, Barros se apoia nos estudos de nomes como a pedagoga Maria Montessori, o pediatra e psicanalista D.W. Winnicott e a pesquisadora Brené Brown.

Parece que Lua Barros não pretende que “Eu Não Nasci Mãe” seja lido como um manual – mas se quiser, pode.


O conceito de reprodução humana criou no inconsciente coletivo a percepção de que filho é uma continuação da nossa existência. Num passado muito recente, as crianças deveriam levar adiante a profissão de seus pais e avós, numa postura de honra às conquistas daquela família. Era comum atribuir à criança a responsabilidade de perpetuar o nome de seus antepassados – e hoje, mesmo que essa ideia não faça mais tanto sentido, ainda estamos presos a ela, mas agora de forma um tanto mais refinada.

Desde o momento do nascimento, buscamos as afinidades que nos conectam a essas crianças. O olho do pai, o nariz da mãe, a braveza da tia e por aí vamos, sempre tentando encaixar aquele ser que acabou de chegar ao mundo em espaços que já são ocupados por outras pessoas. Seguimos tentando nos ver através da existência da criança, reafirmando semelhanças no sentir e no agir. Desejamos que ela seja mais do que nós fomos, mas não permitimos que esse caminho seja composto de erros ou de escolhas que não estejam alinhadas com as nossas crenças. Essa busca por moldar os filhos é uma forma tentar controlar quem o outro é, mas em algum momento essa corda arrebenta, trazendo rupturas dolorosas para todos na família.

É preciso abandonar o papel do pai-herói, aquele que salva, resgata dos perigos, tem todas as respostas e nunca erra.

É preciso desistir do papel da mãe sacrificada, aquela que se abandona, se perde e se larga pelos filhos. Aquela que, para ver a criança feliz, dá o que não tem ou, ainda, aceita viver infeliz.

Essas idealizações sobre como seremos amados por essas crianças não cabem mais. Nossos filhos são capazes de nos amar pelo que nós somos – e isso é, estranhamente, desconcertante. Eles nos veem exatamente como somos, nem mais, nem menos. E isso é bem difícil de encarar. Com eles, não sustentamos nossas máscaras, porque eles próprios nos desnudam.

São os nossos filhos que nos mostram nossa pior e nossa melhor versão. Só eles são capazes de apertar botões que escondemos até de nós mesmo. Eles são aquela visita sem noção que levanta o tapete sob o qual escondemos nossa poeira emocional. E isso só acontece porque o amor entre pais, mães e filhos é o mais íntimo, o mais cru que existe. No curso da história, a gente aprendeu o contrário, que esse amor paternal ou maternal é sublime, irretocável e cego. Entretanto, ao aceitar essa teoria, nos esquecemos de que o amor cego não enxerga, e sem se ver a gente não segue.

Precisamos ampliar o entendimento do nosso papel como cuidadores. Nos tornamos pais embriagados pela ideia de que vamos educar uma criança. E essa perspectiva vem da ideia de que os filhos são nossos. E aquilo que é nosso precisa ser controlado, certo? Mas tente enxergar essa situação por outro prisma. Imagine que são os filhos, na realidade, que têm a missão de vir a este mundo para nos educar. Para que a gente se liberte das amarras do ego, do controle e se entregue à incrível jornada de observar um ser nascer, crescer e se desenvolver sob a nossa orientação.

E antes que você saia em busca de respostas prontas nestas páginas, vamos refletir juntos? Qual você acredita ser o seu papel como pai, mãe, padrasto, madrasta, cuidador de uma criança? Percebe que, ampliando esse espaço dos pais para receber padrastos, madrastas e outros cuidadores, a gente tem a chance de reavaliar como interagimos com as crianças ao nosso redor? Percebe que todos podem ter exatamente o mesmo papel?

Todos os adultos que se dispõem a cuidar ou educar uma criança deveriam desejar ser seu guia. E o guia é a pessoa que, por já ter percorrido uma estrada, acaba por adquirir conhecimento. É alguém que inspira respeito e que olha para seu discípulo também com respeito, entendendo suas limitações, seus medos e suas inseguranças.

O guia segura a lanterna e mostra a direção, mas não percorre o caminho sozinho. Ele abre espaço para a falha, para o erro, porque sabe que não há crescimento ou transformação sem tropeços. O guia é alguém confiável que espera daquele que orienta não a devoção, mas sim o reconhecimento e a parceria. Ele estabelece uma relação potente, onde o que sabe menos não deve nada e ele percebe que vai aprender muito também no processo de ensinar. Um guia margeia a estrada e é a referência quando a vista embaça. Ele reconhece que não é capaz de fazer parar de chover, mas atravessa a tempestade ao lado de seu discípulo. O guia é alguém demasiadamente humano com um único superpoder: o de ver quem as pessoas são verdadeiramente.

A gente está o tempo todo falando sobre empatia, sobre olhar as necessidades do próximo e sobre como o mundo anda de cabeça para baixo. Os que são pais e mães olham para seus filhos e depositam neles a esperança de um futuro melhor: desejam que os filhos sejam bons, respeitosos, justos. Querem que sejam éticos, amorosos, curiosos, e também independentes e felizes. Se sobrar tempo, que tenham autoestima, sejam seguros e − por que não? − fiéis aos seus preceitos. Praticamente uma versão moderna de Deus.

Mas, olha, Winnicott falou: não existe criança sem adulto. E se você não começar a trabalhar agora alguma dessas virtudes, não vai ter santo certo na sua causa. Educar é, sobretudo, um ato de coragem. E leva tempo.

Diante dos desafios mais complicados que as crianças apresentam, devemos responder com aquilo que lhes falta. Seu filho está dando um escândalo por ter transbordado emocionalmente? Ajude-o a se reorganizar com serenidade. Está sendo grosseiro e respondendo? Devolva com palavras amáveis, ditas de maneira firme. Não quer comer? Coloque uma mesa cheia de cores e sabores. Espere. Acredite. Respeite. É mais simples do que a gente pensa, mas pode levar mais tempo do que a gente quer.

Mas qual é a grande dificuldade em ser guia, já que essa postura parece tão nobre?

Para escolher ser guia, temos que abrir mão do controle. Ou, pelos menos, ter maior consciência sobre como controlamos nossos filhos, o quanto tiramos deles a autenticidade, a possibilidade de se expressarem e o quanto tolhemos sua autonomia e autoconfiança. O quanto nos fazemos importantes em vidas que não são nossas, num processo simbiótico e nada saudável para as relações parentais.

Produto

  • Eu Não Nasci Mãe
  • Lua Barros
  • Editora Nacional
  • 168 páginas

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