Imagens da Mulher no Ocidente Moderno — Gama Revista

Trecho de livro

Imagens da Mulher no Ocidente Moderno

Vencedora do Prêmio Abeu, trilogia da socióloga Isabelle Anchieta desvenda estereótipos femininos construídos desde o século 15 em pinturas, esculturas e filmes

Mariana Payno 11 de Dezembro de 2020

Não é qualquer livro acadêmico que atrai a atenção do grande público no Brasil — muito menos um daqueles calhamaços de quase 700 páginas. Para toda regra, porém, uma exceção: a trilogia “Imagens da Mulher no Ocidente Moderno” (Edusp, 2019), da socióloga Isabelle Anchieta, se esgotou nas livrarias em menos de seis meses e tem fila de espera para a segunda edição. Um trabalho que conquistou não só os leitores, mas também os críticos: a publicação acaba de vencer o Prêmio Abeu, da Associação Brasileira de Editoras Universitárias, que reconhece as melhores obras científicas do país.

O título já diz muito, tanto sobre os motivos do sucesso quanto sobre o conteúdo dos três volumes. Fruto de oito anos de pesquisa teórica e de campo (Anchieta viajou por arquivos, bibliotecas e museus da Europa e dos EUA perseguindo as imagens), eles trazem uma detalhada análise sobre a representação da mulher em pinturas, esculturas e filmes desde a transição da Idade Média para a Era Moderna, no século 15. Um prato cheio não só para quem se interessa por questões de gênero, mas por história, arte e cinema.

De leitura acessível, os livros exploram cinco estereótipos femininos que se popularizaram na cultura ocidental: a bruxa, a índia tupinambá canibal (veja no trecho abaixo), Maria, Maria Madalena e as atrizes hollywoodianas — com direito a nomes como Ava Gardner, Audrey Hepburn, Marilyn Monroe e Jane Fonda. A autora não mostra apenas a criação das imagens no contexto da sociedade patriarcal, mas como as próprias mulheres se apropriaram delas. “Elas também souberam fazer uso e proveito do fascínio que provocavam, invertendo os jogos de poder”, diz.


O caldeirão da bruxa é made in Brasil

Esta pode ter sido, entre as trocas estabelecidas entre a iconografia das índias e a das bruxas, a maior “exportação” feita pelo Brasil de um estereótipo internacionalmente reconhecido: o caldeirão da bruxa. O utensílio era de fato utilizado pelas tupinambás no século XVI. Tal hipótese faz sentido quando se observa a série de imagens de bruxas e de índias e a articulação das datas do aparecimento da iconografia do caldeirão nas imagens. De fato, é surpreendente: o caldeirão canibal só aparece nas imagens das bruxas após aparecer junto às índias tupinambás. Desde então, torna-se a conexão central entre as bruxas, as índias, o canibalismo, a luxúria, o diabo e o inferno.

Nos rituais antropofágicos dos tupinambás, os caldeirões estavam ligados a costumes que envolviam diretamente as índias. Eram especialmente três as funções rituais: produzir a bebida, o cauim; escaldar a epiderme da vítima com água quente; e, por fim, fazer o “mingau” de vísceras humanas. A primeira função do caldeirão, a produção do cauim, estava visceralmente ligada ao motor cultural indígena: a vingança e seu ritual, a antropofagia. Trata-se de uma bebida alcoólica, preparada por meio da fermentação da mandioca, milho ou caju, que eram mastigados pelas índias. As imagens de Staden, Jean Cousin e De Bry e os relatos (Staden, De Léry e Thévet) confirmam: “São as mulheres que preparam as bebidas. Usam raízes de mandioca e cozem-nas em grandes panelas” [1]. Seu consumo, no entanto, não é aleatório. O cauim funcionava como um “marcador temporal” de dimensão coletiva e de trocas intercomunitárias, que afirmava a relevância de acontecimentos como a perfuração do lábio dos meninos, o final da reclusão iniciática das meninas após a primeira menstruação, uniões, o nascimento de uma criança e o fim do luto de um índio da tribo [1].

No entanto, a cauinagem mais completa, que durava quase três dias ininterruptos, era a que antecedia o ritual antropofágico. O fim da bebida e a embriaguez de todos (exceto a do matador) definiam o momento do assassinato do prisioneiro. Tanto que Hans Staden alertava que “devíamos tomar cuidado especial com os Tupinambás duas vezes por ano […] quando o milho, que eles chamam de abati, fica maduro, e com o qual preparam a bebida e com ela comem seus inimigos. Alegram-se o ano inteiro já por conta da época do abati” [1].

Na figura 7.11, vemos na extremidade esquerda um grupo de seis mulheres mastigando a espécie que está em uma vasilha no chão. Ao lado, de pé, uma índia controla um grande caldeirão. O tamanho e o peso podem ser adivinhados na comparação com a índia, chegando quase à sua altura. Abaixo, outras índias transferem a bebida para pequenas vasilhas, enquanto outras duas índias carregam seus filhos nas costas e olham duas crianças a sua frente. A presença delas nas imagens marca, em Staden, o domínio da esfera feminina.

O artista francês Jean Cousin também ilustra a fabricação do cauim pelas índias. Destaca, em sua série antropofágica, a presença da grande panela. Em um zoom, elege a mastigação na grande vasilha como expressão dessa grotesca fabricação da bebida (figura 7.12).

Curiosamente, estamos diante da tópica de quatro mulheres ao centro, em uma imagem que cita [2] as índias de Albrecht Dürer (figuras 6.9-6.13). Jean Cousin repete não só o número, mas também a forma robusta e a posição dos corpos: agachadas. Mulheres belas e nuas, mas que se prestam a um ato grosseiro, o cuspir. O efeito produzido é dúbio: nojo e atração.

A bebida fermentada também é associada à belicosidade e à masculinidade do índio em outra imagem de Cousin (figura 7.13). Aqui, a índia é responsabilizada pelo êxtase e o descontrole que movem a vingança nas batalhas dos índios guerreiros. Novamente, temos quatro índias nuas ao redor do caldeirão. Agora estão distribuindo o cauim em pequenas cumbucas para uma centena de índios guerreiros. Os homens se embriagam; um deles cai no chão e vomita [3]. A bebida consumida rapidamente e em excesso [4], sem acompanhar nenhum alimento, era um modo de provocar o vômito, o que habilitava os índios a se sentirem bem temporariamente e retornarem a mais uma cuia de cauim. A resistência e a voracidade do seu consumo eram tidas como prova da virilidade do guerreiro [5]. As expressões de raiva nas faces, os braços erguidos bradando armas (a maça, o arco e pedaços de pau), a cantoria e o barulho feito pelo balanço dos maracás nos oferecem essa atmosfera belicosa.

O comportamento dos índios contrasta com o das índias. Altivas oferecendo o cauim, parecem calcular seus efeitos e manipular a reação dos homens por meio de artifícios, nesse caso a bebida, que funciona como motor da desordem e da periculosidade masculina. Estabelece-se, aí, uma relação próxima daquela atribuída às bruxas com suas poções e feitiços, como podemos perceber nesta passagem escrita pelos inquisidores de O Martelo das Bruxas: “Esses remédios são misteriosos” e destinados “a provocar danos em dobro contra os homens, isto é, no corpo e na alma, de modo que os homens possam se entregar mais ainda a todos os vícios” [6].

[1] Hans Staden, “Hans Staden: Primeiros Registros Escritos e Ilustrados sobre o Brasil e seus Habitantes” [1557], 1999. [2] A citação indica que Jean Cousin teve acesso às imagens das índias de Dürer, realizadas provavelmente em 1515, antes de sua publicação na obra de Jean de Léry, datada de 1578.[3] “Eu os vi não só beberem três dias e três noites consecutivas, mas ainda depois de saciados e bêbados a mais não poder, vomitarem quanto tinham bebido e recomeçarem mais bem dispostos que antes” (Jean de Léry, “Viagem à Terra do Brasil” [1578], 2007). [4] “E, como são refinados beberrões, alguns há que em uma reunião sorvem mais de vinte potes de cauim…” (Idem). [5] Renato Sztutman, “Cauim Pepica: Notas sobre os Antigos Festivais Antropofágicos”, 2007. [6] Heinrich Kramer e James Sprenger, “The Malleus Maleficarum”, 2007, tradução livre.

Produto

  • Imagens da Mulher no Ocidente Moderno
  • Isabelle Anchieta
  • Edusp
  • 696 páginas

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