Não Digam que Estamos Mortos, de Danez Smith — Gama Revista

Trecho de livro

Não Digam que Estamos Mortos

Voz jovem e promissora da poesia norte-americana contemporânea, Danez Smith participa da Flip 2020 e ganha primeira tradução no Brasil

Mariana Payno 13 de Novembro de 2020

POR QUE LER?

Negro, não binário + e soropositivo, o poeta e performer norte-americano Danez Smith carrega no corpo o perigo de morte — essa é a sensação que transparece de seus escritos dilacerantes. Um dos autores convidados da Flip 2020, que acontece em edição virtual a partir de 3 de dezembro, ele despontou nos últimos anos como uma das vozes mais promissoras e celebradas da literatura contemporânea dos EUA e ganha agora a primeira publicação de seus poemas no Brasil. A edição bilíngue de “Não Digam que Estamos Mortos”, com posfácio do artista Ricardo Aleixo e tradução do também poeta André Capilé, chega às livrarias no fim de novembro pela Bazar do Tempo.

O livro, finalista do National Book Award e vencedor do Forward Prize, dois prestigiosos prêmios da literatura em língua inglesa, começa com uma comovente e longa sequência de versos sobre como seria a vida após a morte para jovens negros mortos pela polícia: “caro número de distintivo / o que eu fiz de errado? / nascer? ser preto? te conhecer?”, diz um trecho. Os textos que se seguem não são menos viscerais — falam de racismo e do corpo negro, mas também de relações afetivas LGBTQI+, de sexo e de desejo, da convivência com o HIV. Com uma linguagem crua e íntima, como que feita de suor e de sangue, Smith convida o leitor a um mergulho profundo pelas veias do poeta.


Cara América Branca

deixei a Terra em busca de planetas mais escuros, um sistema solar rodando bem perto de um buraco negro. parti em busca de um novo Deus. eu não confio no Deus que nos foi dado. o aleluia de vovó só é superado pelo temor que ela nutre toda vez que o verão sangueseboso engole outra criança que costumava cantar no coral. leva seu Deus daqui. embora suas canções sejam lindas, seus milagres são inconsistentes. eu quero a fortuna de Lázaro para Renisha, quero que Chucky, Bo, Meech, Trayvon, Sean & Jonylah ressuscitem três dias após seus sepultamentos, seus fantasmas re-ofertados carne & sangue, carne & sangue re-ofertados a suas crias. deixei a Terra, tô tão de saco cheio do seu volta pra África, quanto do seu não enxergo raça. tampouco os álamos. não construímos seus barcos (embora deixássemos uma trilha de ancestrais pra nos guiar pra casa). não construímos suas prisões (embora sim, as construíssemos & também as lotássemos). não pedimos pra fazer parte da sua América (não somos a América, apesar de? seus frágeis nós, arrastando um vestido esfarrapado por Oakland?). firme não suporto o chão dos seus fundamentos. tô de saco cheio de chamar tua imprudência de lei. cada noite conto meus irmãos. & pela manhã, quando alguns não sobrevivem pra serem contados, conto as covas que deixaram. Estendo a mão ao povo preto & toco apenas o ar. seu truque de mestre, América. ora ele respira, ora não. abra-cadáver. macumba pra turista, feitiço que alega não praticar. dá logo uma pistola ao meu primo pra fazer o trampo por vocês. eu tentei, gente branca. tentei branquelos, mas passaram o funeral do meu mano fazendo planos prum cafezinho, falando alto demais ao lado de seus ossos. vocês deram uma olhada no rio o corpo inchado do menino depois da menina & depois da bofinha & pergunta: por que é que é sempre uma questão de raça? por que vocês insistem que seja sempre assim?! porque você marcou um asterisco no rosto lindo da minha irmã! chamou-a de bonita (pra uma garota negra)! porque cargas d’água meninas negras desaparecem sem nenhum sussurro?! porque não há amber alerts pra meninas de pele âmbar! porque Jordan explodiu. porque Emmett assobiou. porque Huey P. falou. porque Martin pregou. porque meninos negros sempre podem ser espalhafatosos demais pra viver. porque tomaram o tempo do meu avô e da minha avó, o tempo do meu pai, o tempo da minha mãe, o tempo da minha tia, o tempo do meu tio, o tempo do meu irmão e da minha irmã . . . quanto tempo você quer pra alcançar seu progresso? eu deixei a Terra pra encontrar um lugar onde os da minha cepa possam estar a salvo, onde os negros não são senão pessoas da mesma cor que a terra boa e úmida, até que isso exprima alguma coisa, eu desejo a vocês, bem, desejo guerra a vocês, dou-lhes nossas vidas pra apostar nada mais. deixei a Terra & toco em tudo que pedem a seus telescópios pra lhes mostrar. estou dando às estrelas o nome certo. & esta vida & esta nova história, esta história que não podem nos roubar, nem vender ou lançar ao mar, nem enforcar, espancar ou afogar, nem adonar ou balizar, nem berrar, silenciar ou enganar, nem asfixiar ou disfarçar, nem prender ou atirar, prender ou atirar, prender ou atirar, nem arruinar

isso, ainda que apenas isso, é nosso.

Nu

por você mandaria meu corpo lutar
contra meu corpo, deixaria meu sangue cantar

de rasgar-se aos pedaços, cordas ocas
do combate intravenoso dos cavaleiros brancos.

amor, eu quero & mal sei como
fazer muito mais. não fale comigo

sobre assaltos que poderia soltar sobre mim
o clã de células rebeldes ansiando

assistir ao incêndio do lar. amor,
me põe incêndio, se significar que tu

& eu temos uma noite sem barreiras,
exceto a pele. não se trata de perigo,

mas de crença, de ser desperdiçado
em seu nome. se o amor é um quarto

de vidraças partidas, deixe-me dançar
até que meus pés sejam só memória.

se o amor é um buraco largo o bastante
pra ser a boca de Deus, deixa-me abismar

dentro da treva sagrada & esquecer
o colorido da luz. amor, fique

em mim até que nossos corpos esqueçam
o que nos divide, até que suas mãos

sejam minhas mãos & seu sangue
seja meu sangue & seu nome

seja meu nome & o dele & o dele

Medo de Agulhas

ao invés de fazer o teste
você pega na palma da mão uma lâmina
e aperta tua orelha na ferida

Começou Bem Aqui

um humilde de joelhos. eu deixei ele me gravar, queria
me assistir ser monstro, não sabia que ele me deixaria

com abutres roçando minhas veias. eu: leão morto que segue
morrendo. ele: moscas que não deixam meu sangue em paz. o demônio

dorme nos meus olhos, minha língua, meu pau, meu fígado, meu coração. todo lugar onde houver sangue, ele dorme. & eu sabia antes de saber

& como, não sei contar. fantasmas sempre foram reais
& eu os aprendi agora. dizem que não é uma sentença de morte

como costumava ser. mas ainda é vida. morrerei nesta célula sanguínea.
estou aprendendo a me tornar todo o espaço que preciso. hoje eu ri.

por um segundo fiquei desassombrado. eu era o sol, não a luz
de alguma estrela morta. era o antes. estava negativo. mas não estou.

eu sou uma casa inchada de mortos, mas ainda uma casa.
a cama onde aconteceu é onde durmo.

Produto

  • Não Digam que Estamos Mortos
  • Danez Smith
  • Bazar do Tempo
  • 224 páginas
  • Lançamento em 24 de novembro

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