O Corpo Interminável, de Claudia Lage — Gama Revista

Trecho de livro

O Corpo Interminável

Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, romance da carioca Claudia Lage narra a trajetória de um filho que tenta resgatar a história da mãe desaparecida durante a ditadura militar

Mariana Payno 18 de Dezembro de 2020

POR QUE LER?

Nascida no auge da ditadura militar, em 1970, a carioca Claudia Lage se torna, com o romance “O Corpo Interminável”, uma das vozes que evocam a memória desse período de horror em um Brasil contemporâneo que caminha para a repetição dos erros do passado. Para isso, desenterra fantasmas ficcionais, mas baseados na realidade, ao narrar a trajetória de Daniel, um filho que procura resgatar a história da mãe, guerrilheira desaparecida durante aqueles anos de exceção.

Em sua busca, o rapaz se depara com as intermitências dos fatos históricos — e também da escrita, por meio da qual tenta organizá-los. Entre a vida de sua mãe e a de outras mulheres que sofreram e se perderam de vista, silêncios familiares, lacunas da memória e múltiplas verdades moldam a narrativa que ele tenta reconstruir.

Com temática urgente, a obra venceu na semana passada o Prêmio São Paulo de Literatura, como Melhor Romance de Ficção de 2019. O reconhecimento vem na esteira de uma série de trabalhos relevantes de Lage como escritora e roteirista: uma das autoras da novela “Lado a Lado” (2012), ela já tinha sido finalista do prestigioso prêmio paulista, com “Mundos de Eufrásia” (Record, 2009), e do Prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos), com “Labirinto da Palavra” (idem, 2013).


Melina faz perguntas que não posso responder. Quando você gosta de alguém, quer se aproximar não só da pessoa, mas também da sua história. Não bastam os pensamentos e emoções verbalizados, confirmados, na voz, no corpo, no olhar, não bastam, você gosta de alguém e quer mais. Quer aquilo que está por trás de todas essas coisas primeiras e primárias, mas eu não tinha respostas. Nada palpável, que poderia repetir sem erros. Há muitos erros entre a vida e as palavras, eles se tornam evidentes na medida em que nos aproximamos uns dos outros. O mais perigoso talvez seja o de deduzir que a pessoa à sua frente é decorrência do que lhe aconteceu ou do que lhe faltou, quando somos feitos de tantas interferências e interseções. Se eu digo para Melina que fui um menino sensível, rodeado de livros, que tinha um caderno no qual escrevia incessantemente, logo me vem a imagem do garoto de joelhos ralados pulando o muro de casa, tacando pedras em cachorros e matando com estilingue passarinhos. Fui esses meninos, mas sou e não sou nenhum. Se uma lembrança tão pequena já nos coloca contra a parede, o que dizer do resto, do que se evita lembrar, de tudo de que não tivemos conhecimento, essas lacunas insistentes — quanto maiores, mais capazes de nos contradizer.

Foi como assumir que não havia mais nada que eu pudesse fazer, a não ser deixá-lo afundar no esquecimento. O pai adoeceu da memória antes de adoecer do corpo

Mostrei à Melina o que escrevi, quando não apagava ou jogava no lixo. Ela me pediu que continuasse, mas para que estender isso, a agonia desse menino que nunca vou recuperar, e para quê, não é a mim que buscava quando escrevia, quando acreditava que era possível com a escrita capturar pessoas e acontecimentos, eu a via assim, como um organismo, algo concreto, como uma fotografia, a escrita como a alma revelada de uma foto, uma possibilidade de olhar por dentro e entender um instante, o instante. Mas não é possível, tudo escapa, e tudo que Melina leu e lê é apenas o sintoma desse escape. Tudo que já contamos um para o outro também, o pouco que pudemos reter, o tanto que não conseguimos captar. Melina me fala que não tem conseguido visitar o pai na casa de repouso. Foi uma decisão difícil, levá-lo para lá. Foi como assumir que não havia mais nada que eu pudesse fazer, a não ser deixá-lo afundar no esquecimento. O pai adoeceu da memória antes de adoecer do corpo. O seu corpo sempre foi forte e resistiu. No dia em que o levei para o asilo, tive um pressentimento. O que aconteceu, perguntei a ele, antes de sairmos. Eu adoeci, foi a resposta rápida, como se fosse algo muito natural, e a sua mãe também, antes de mim. Ela sempre foi mais fraca. O meu pai se orgulhava dos seus músculos. Um dia você vai entender, a minha mãe disse, quando o expulsou de casa. Precisamos conversar, filha, ela também me disse no hospital, antes de morrer. Ouvir a minha mãe me chamar daquele modo, remontando ao nosso vínculo primordial, foi um aviso que eu não podia ter ignorado. Alguma ancestralidade se perdeu ali, no que ela não pôde me dizer. Enquanto você escreve, Daniel, eu tento juntar as lembranças, essa mistura de imagens e palavras, mas o que consigo? Algo aparentemente verdadeiro, porque semelhante a uma possível realidade, algo profundamente falso, justamente porque apenas se assemelha.

Esse é o verdadeiro sofrimento desse filho, que não consegue imaginar a mãe como uma pessoa que se pode encontrar na esquina, uma pessoa que existiu

Sinto muito, digo à Melina, mas olho o que escrevo como uma tentativa, um esforço. Qualquer coisa que escrever agora será ao redor de um centro inseguro, uma descrição que pouco alcança, nada revela, uma junção de palavras e efeitos, não me reconheço e não posso me reconhecer em nenhum lugar ali. Não lembro de nenhuma sensação de conforto ao dormir na cama da minha mãe, não era nela nem em seu sorriso que pensava, mas na sua ausência e na sua morte nunca confirmada, no seu corpo que não estava, que não se podia ver nem tocar, isso me assombrava, como um monstro no armário, mas muito pior do que um monstro no armário, porque eu sentia em minha pele, era um horror real. E o adesivo arranhado na janela, é verdade, existe, está lá, na casa do meu avô, no apartamento em que fui criado e para o qual não consigo voltar, o apartamento que esvaziei o mais rápido possível assim que ele faleceu, que está à venda, à espera de outros moradores, outras ocupações. Há mesmo um pedaço de adesivo arranhado na janela de madeira do quarto da minha mãe que depois se tornou o meu, mas para que fazer disso algo importante? Para que essa melancolia, uma moça olhando a janela antes de dormir, antes de acordar e desaparecer, olhando a imagem de um ator ou de qualquer outra coisa de que ela gostasse, para quê, me pergunto, te pergunto, essa visão idílica de algo que se esvai, mas resiste. Eu quase escrevi, talvez tenha escrito, não importa o quanto se tente apagar algo, destruir alguém, sempre há alguma coisa que sobrevive: mas não, cairia mais uma vez nessa busca idílica, uma imagem literária de uma sofrida e bela esperança, não, até os restos são abandonados, escondidos ou destruídos. Nada sobra. Ninguém. É tão pouco falar do adesivo na janela e da moça que o olhava, um esforço, sei, de arrancar essa moça do passado desse menino, desse filho, como algo inalcançável, uma imagem etérea e única num retrato, e trazê-la para o quarto, para a casa, colocá-la andando entre os cômodos e se preparando para dormir, ou acabando de acordar, esse é o verdadeiro sofrimento desse filho, que não consegue imaginar a mãe como uma pessoa que se pode encontrar na esquina, uma pessoa que existiu, mas é tão pouco quando há algo maior aí que se cala, pessoas que foram arrancadas de suas casas, de suas famílias, e sumiram depois de longas sessões de torturas, jogadas no fundo do mar, incineradas em fornos a lenha, industriais, ou enterradas em cemitérios clandestinos. São a essas pessoas transformadas em corpos que a moça que olhava o adesivo na janela se une, e não é que a agonia desse filho que perdeu a mãe, que só a encontrou no momento da despedida, não importe, não só importa como se junta a outros filhos e filhas, uma grande massa de crianças e adultos arrancados da própria vida. Se fosse escrever novamente sobre isso, o que não farei, eu contaria que antes de fechar o apartamento do meu avô pela última vez, antes de olhar a sala e os outros cômodos vazios, a pintura velha e ressecada, as paredes com as marcas dos móveis, o chão desgastado de tantos passos, eu, munido de pano e detergente, pano e alvejante, pano e removedor, escova de cerdas finas, escova de cerdas grossas, tirei o restante do adesivo, a maldita cola grudada havia décadas na madeira, arranquei tudo com vigor, com empenho, e, por que não dizer, por que não enfatizar, com raiva, e depois ainda passei óleo de peroba, uma camada, duas, três, muitas, não há nada mais ali.

Produto

  • O Corpo Interminável
  • Claudia Lage
  • Record
  • 196 páginas

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