Trecho do livro Observações Sobre um Planeta Nervoso — Gama Revista

Trecho de livro

Observações Sobre um Planeta Nervoso

Novo livro do britânico best-seller Matt Haig investiga por que estamos cada vez mais ansiosos e traz propostas para manter a sanidade

20 de Junho de 2020

POR QUE LER?

“Eu já tinha falado sobre a minha saúde mental em ‘Razões Para Continuar Vivo’. Mas a questão não era mais por que devo ficar vivo? Desta vez, era uma mais ampla: como viver em um mundo louco sem enlouquecer?” Foi esta pergunta, cada vez mais urgente, que instigou o premiado autor britânico Matt Haig a escrever suas “Observações Sobre um Planeta Nervoso”, livro publicado originalmente em 2018 e que chega agora ao Brasil pela editora Intrínseca.

O título dá conta de sintetizar o conteúdo da obra: o que está ali são mesmo observações bem genuínas, nascidas de uma vivência pessoal, mas embasadas pela curiosidade de saber mais sobre esse tal planeta, hiperconectado, onde a ansiedade e o cansaço imperam. Haig parte da própria experiência com a depressão e os gatilhos gerados pelas redes sociais para traçar uma relação entre a superexposição a estímulos online e a saúde mental de uma sociedade cada vez mais nervosa. O autor fala de si mesmo, mas de forma a incluir o leitor em um “nós” — o que aconteceu com ele poderia acontecer com qualquer um que tenha um estilo de vida parecido.

Por isso, o livro traz, além de uma análise do social a partir do individual, dicas e propostas para manter a sanidade num mundo cheio de desequilíbrios e, principalmente, na internet. É uma receita que já havia funcionado bem no best-seller “Razões Para Continuar Vivo” (Intrínseca, 2017), que dominou as listas de mais vendidos do Reino Unido por quase 50 semanas. Talvez seja porque Haig diz, de modo simples e direto, coisas que todos estamos precisando ouvir.


“Espelhos”

Os neurobiólogos identificam o “efeito espelho” como uma das rotas neurais que é ativada, no cérebro dos primatas — inclusive o homem —, durante a interação com os outros.

Numa época conectada, os espelhos se tornaram maiores.

Quando as pessoas ficam assustadas depois de um acontecimento horrível, o medo se espalha como um incêndio digital.

Quando as pessoas sentem raiva, a raiva germina.

Mesmo quando pessoas com opiniões contrárias às nossas mostram uma emoção, sentimos uma coisa parecida. Por exemplo, se por alguma razão alguém que esteja on-line ficar furioso com você, é pouco provável que você acate a opinião dele, mas bastante provável que adote a mesma fúria. Isso se vê todos os dias nas redes sociais: pessoas discutindo entre si, combatendo a posição oposta à sua, mas refletindo o mesmo estado emocional do outro.

Já fiz isso muitas vezes, e é por isso que Andrea estava desapontada comigo. Eu tinha me envolvido numa discussão com alguém que me chamou de “menino mimado”, ou “esquerdinha”, ou que tuitou “O LIBERALISMO É UM DISTÚRBIO MENTAL”. Estou cansado de saber que discutir pela internet não é a maneira mais satisfatória de passar o pouco tempo que temos na Terra, mas mesmo assim faço isso, às vezes meio sem controle. Reconheço isso agora. E preciso parar com isso.

Seja como for, a questão é que mesmo sendo politicamente muito diferente das pessoas com quem discuto, do ponto de vista psicológico nos damos corda reciprocamente e alimentamos os mesmos sentimentos raivosos. Oposição política, mas reflexo emocional.

Certa vez, quando estava em estado de ansiedade, tuitei uma coisa idiota.

“A ansiedade é meu superpoder”, disse.

Não quis dizer que ansiedade seja uma coisa boa. Quis dizer que a ansiedade era tão ridiculamente intensa que nós, que a temos em excesso, passamos pela vida como um ansioso Clark Kent ou um atormentado Bruce Wayne, conhecendo o segredo de quem somos. E que isso pode representar o peso de uma incontrolável torrente de pensamentos e desespero, mas também, ocasionalmente, nos convence de que tem um lado positivo.

Por exemplo, no meu caso, estou grato por ter me forçado a parar de fumar, a estar fisicamente saudável, que tenha me feito entender o que era bom para mim, e quem se importava comigo e quem não se importava. Sou grato por ter me levado a tentar ajudar outras pessoas que vivem isso e sou grato por ter me levado — durante os bons momentos — a viver a vida mais intensamente.

Foi essencialmente isso o que escrevi em Razões para continuar vivo. Mas naquele tuíte eu não tinha me expressado muito bem. E, de repente, estava chamando a atenção no Twitter.

Decidi deletar meu tuíte, mas já tinham capturado a imagem e estavam cerrando fileiras para dirigir sua ira contra mim.

“SUPERPODER???? VSF!!!” “@matthaig1 É VENENOSO”

“Delete sua conta”, “Idiota de merda” e assim por diante.

E você continua ligado, assustado, observando essa trombada que você mesmo causou, enquanto sua linha do tempo vai se enchendo com dezenas, depois com centenas de pessoas bravas convencidas de que ganham um ponto cada vez que tocam um nervo exposto. Aliás, “tocar um nervo exposto” é uma expressão irrelevante para quem tem ansiedade. Todo nervo é um nervo exposto.

A raiva se torna contagiosa e quase uma força física irradiando da tela. Meu coração começou a bater duas vezes mais rápido. Tudo parecia estar chegando ao fim. O ar tornou-se espesso. Fiquei encurralado. Comecei a me sentir um pouco como se a realidade estivesse derretendo. “Que merda, que merda, que merda.” Me perdi num breve ataque de pânico. Senti uma insana combinação de culpa, medo, raiva defensiva, e decidi nunca mais tuitar sobre meu modo de sair da ansiedade.

É melhor guardar algumas coisas para nós mesmos.

Mas também — e mais importante — eu queria achar um jeito de impedir que a opinião dos outros sobre mim se tornasse minha própria opinião sobre mim. Queria criar uma espécie de imunidade emocional. As redes sociais, quando você se envolve demais, podem fazer com que você se sinta dentro de uma bolsa de valores na qual você — ou sua personalidade virtual — é a ação. E quando as pessoas começam a chegar, você sente que seu preço está disparando. Queria me ver livre daquilo. Eu queria ficar psicologicamente desconectado. Para ser um mercado autorregulado, do ponto de vista psicológico. Sentir-me à vontade com meus próprios erros, sabendo que todo ser humano vale mais do que eles. Permitir a mim mesmo entender que conheço meus mecanismos internos melhor que um estranho. Poder deixar que outras pessoas achem que sou um idiota sem sentir que sou mesmo. Preocupar-me com outras pessoas, mas não com suas incompreensões a meu respeito dentro da fábrica de opiniões que é a internet.

Como manter o equilíbrio na internet: uma lista de mandamentos utópicos que raramente observo, porque são dificílimos

1. Pratique a abstinência. Principalmente a abstinência de redes sociais. Resista a qualquer excesso inconveniente para o qual você se sinta atraído. Fortaleça os músculos da privação.

2. Não digite sintomas no Google a menos que queira passar sete horas convicto de que estará morto antes da hora do jantar.

3. Lembre-se de que ninguém se importa realmente com o seu aspecto. Eles se importam com o aspecto deles. Você é a única pessoa no mundo preocupada com sua cara.

4. Entenda que o que parece real pode não ser. Quando o romancista William Gibson pensou pela primeira vez na ideia daquilo que ele chamaria de “ciberespaço” no conto “Burning Chrome” [Queimando filme], de 1982, ele definiu-o como “alucinação consensual”. Acho essa definição muito útil quando fico preso demais à tecnologia. Quando isso afeta minha vida não digital. Toda a internet está distante do mundo físico. Os aspectos mais poderosos da internet são reflexos do mundo offline, mas réplicas do mundo exterior não são o mundo exterior real. É a internet real, mas não passa disso. Claro, você pode fazer amigos reais na internet. Mas a realidade não digital é ainda um teste útil para essa amizade. Assim que você sai da internet — durante um minuto, uma hora, um dia, uma semana — é incrível como ela desaparece depressa de sua mente.

5. Entenda que as pessoas são mais do que uma postagem em redes sociais. Pense em quantos pensamentos conflitantes você pode ter num só dia. Pense em todas as posições contraditórias que já assumiu na vida. Revide a opiniões na internet, mas nunca deixe que uma opinião apressada defina um ser humano completo. “Cada um de nós”, disse o físico Carl Sagan, “é, de uma perspectiva cósmica, precioso. Se um ser humano discorda de você, deixe-o assim. Em cem bilhões de galáxias, você não encontrará outro igual.”

6. Não siga pessoas que detesta. Foi isso que prometi a mim mesmo desde o dia de Ano-Novo de 2018, e até agora deu certo. Seguir pessoas que odeia não proporciona foco a sua justa indignação. Alimenta-a. De uma maneira perversa, isso reforça também sua câmara de ressonância, fazendo você achar que só as opiniões alheias são extremas. Não procure coisas que o façam infeliz. Não se compare a outras pessoas. Não se defina em relação a outros. Defina-se pelo que você é. E navegue de acordo com isso.

7. Não entre no jogo das avaliações. A internet adora avaliações, sejam as da Amazon, do TripAdvisor e do Rotten Tomatoes, sejam as de fotos, atualizações e tuítes. Curtidas, favoritos, retuítes. Ignore-os. Avaliação não é sinônimo de valor. Nunca se julgue por meio delas. Para agradar a todo mundo você teria de ser a mais insípida das pessoas. William Shakespeare é provavelmente o maior escritor de todos os tempos. No Goodreads, ele tem uma média medíocre de 3,7.

8. Não passe a vida preocupado com o que está perdendo. Não seja budista quanto a isso — está bem, seja só um pouco budista. A vida não é ficar satisfeito com o que você está fazendo, mas com o que você está sendo.

9. Nunca troque uma refeição ou horas de sono pela internet.

10. Permaneça humano. Resista aos algoritmos. Não passe a ser uma caricatura de si mesmo. Desligue os pop-ups de publicidade. Saia de sua câmara de ressonância. Não permita que o anonimato transforme você numa pessoa com vergonha de estar desconectada. Seja um mistério, não um número. Seja alguém que um computador jamais poderia desvendar. Mantenha a empatia. Quebre padrões. Resista a tendências robotizantes. Permaneça humano.

Produto

  • Observações Sobre um Planeta Nervoso
  • Matt Haig
  • Intrínseca
  • 320 páginas

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