Onde os Sonhos Acontecem - Robert Iger — Gama Revista

Trecho de livro

Onde os Sonhos Acontecem

O presidente da Disney, Robert Iger, rememora sua trajetória e compartilha aprendizados em livro recomendado por Bill Gates

28 de Agosto de 2020

POR QUE LER?

Como é comandar o maior império midiático do planeta? Há 15 anos à frente da Disney — que agregou, desde a fundação em 1923, 200 mil funcionários e um valor de mercado estimado em 190 bilhões de dólares —, Robert Iger resgata em uma autobiografia profissional sua trajetória na empresa. Em “Onde os Sonhos Acontecem”, recém-lançado no Brasil pela Intrínseca, o executivo compartilha as memórias de sua carreira, desde o início como funcionário da emissora americana ABC, e as lições que aprendeu pelo caminho.

No livro, ele recupera alguns dias de luta e os muitos dias de glória da Disney, da abertura de parques à ascensão das tecnologias digitais, passando pela fusão com a ABC, a aquisição de franquias como Marvel e Star Wars e a parceria com a Pixar. A relação de confiança entre Iger e Steve Jobs foi, aliás, fundamental para que os dois estúdios da animação se unissem — é o começo dessa história que o autor relata no trecho a seguir.

A leitura, um prato cheio de aprendizados corporativos, é recomendada por outro figurão dos negócios, Bill Gates. Não à toa: Iger foi eleito empresário do ano pela revista Time em 2019 e é considerado um dos CEOs mais bem-sucedidos do mundo — sob seu mandato, cuja característica mais marcante foi andar de mãos dadas com a tecnologia, a gigante do entretenimento cresceu ainda mais. Depois de lançar a plataforma de streaming Disney+, sucesso imediato, e de conquistar a maior bilheteria de cinema da história com “Vingadores: Ultimato” (2019), ele anunciou que deixaria o cargo em 2020, mas acabou voltando para ajudar o novo CEO a enfrentar a pandemia de coronavírus na empresa.


Depois que o acordo de paz com Roy foi selado, minha próxima tarefa seria descobrir se havia alguma chance de recuperar o relacionamento da Disney com Steve Jobs e a Pixar. Dois meses depois de ligar para Steve e dizer que eu fora nomeado CEO, voltei a entrar em contato. Meu objetivo final era de algum modo consertar as coisas com a Pixar, mas não podia pedir isso logo de início. A animosidade de Steve em relação à Disney já estava profundamente enraizada. O conflito entre ele e Michael fora um confronto entre duas pessoas de personalidade forte cujas empresas seguiam em direções diferentes. Quando Michael criticou a indústria de tecnologia por esta não respeitar o conteúdo o suficiente, Steve se sentiu insultado. Quando Steve sugeriu que a Disney estava criativamente falida, Michael se sentiu insultado. Michael fora um executivo criativo a vida inteira. Steve acreditava que estava certo, já que dirigia a Pixar, o estúdio de animação em ascensão. Quando a Disney Animation começou a decair ainda mais, Steve se tornou mais arrogante com Michael, porque achava que precisávamos ainda mais dele, e Michael odiava estar em desvantagem em relação a Steve.

Eu nada tive a ver com isso, mas não importava. Pedir que Steve simplesmente mudasse de ideia depois de ter encerrado a parceria e trucidado a Disney diante do público seria algo muito simples para ele. Não podia ser assim tão fácil.

Contudo, eu tinha uma ideia não relacionada à Pixar que considerei interessante para ele. Contei-lhe que gostava muito de música e que tinha todas as minhas armazenadas em meu iPod, que usava sempre. Eu vinha pensando sobre o futuro da televisão e me ocorreu que era apenas questão de tempo até termos acesso a programas de televisão e filmes em nossos computadores. Eu não sabia quão rápido a tecnologia móvel evoluiria (o iPhone ainda levaria dois anos para surgir), então o que eu imaginava era uma plataforma do iTunes para a televisão. “Imagine ter acesso a toda a história da televisão no seu computador”, falei. Se você quisesse assistir ao episódio da semana anterior de “Lost” ou algo da primeira temporada de “I Love Lucy”, estaria ali. “Imagine poder assistir a ‘Além da Imaginação’ sempre que quiser!” Aquilo estava a caminho, eu tinha certeza, e queria que a Disney estivesse na crista da onda. Eu achava que a melhor maneira de fazer isso seria convencendo Steve da inevitabilidade dessa ideia, a “iTV”, como a descrevi.

Steve ficou em silêncio por um tempo antes de dizer: “Voltaremos a falar sobre isso no futuro. Estou trabalhando em algo que quero lhe mostrar.”

Algumas semanas depois, ele voou para Burbank e veio até o meu escritório. A ideia que Steve fazia de uma conversa casual era olhar pela janela, fazer um breve comentário sobre o clima e começar logo a falar sobre os negócios em questão, exatamente o que ele fez naquela manhã. “Você não pode contar a ninguém sobre isso”, falou. “Mas o que você está falando a respeito de programas de televisão… é exatamente o que estamos imaginando.” Devagar, ele retirou um dispositivo do bolso. À primeira vista, parecia o iPod que eu usava.

“Este é o nosso novo iPod de vídeo”, explicou. Tinha uma tela do tamanho de dois selos postais, mas ele falava como se aquilo fosse uma sala de cinema IMAX. “Isso permitirá que as pessoas não apenas ouçam música, como também assistam a vídeos em nossos iPods”, disse ele. “Se lançarmos este produto no mercado, você colocaria seus programas de televisão nele?”

Concordei na hora.

Toda demonstração de produto de Steve era poderosa, mas essa foi uma demonstração pessoal. Dava para sentir seu entusiasmo enquanto eu examinava o dispositivo, e eu tinha uma profunda sensação de estar segurando o futuro nas mãos. Poderia haver complicações para colocarmos nossos programas em sua plataforma, mas no momento eu sabia por instinto que aquela era a decisão certa.

Steve reagia bem à ousadia, e eu queria sinalizar que poderia haver uma maneira diferente de ele fazer negócios com a Disney dali em diante. Entre as suas muitas frustrações, havia a sensação de que era muito difícil fazer qualquer coisa conosco. Todo contrato precisava ser avaliado e analisado nos mínimos detalhes, e não era assim que ele trabalhava. Eu queria fazê-lo entender que eu também não trabalhava assim, que tinha poder de tomar a iniciativa e que estava ansioso para descobrirmos esse futuro juntos, e rápido. Achei que, se ele respeitasse minha intuição e minha disposição de assumir aquele risco, então talvez, apenas talvez, a porta da Pixar pudesse voltar a se abrir.

Então voltei a dizer a ele que, sim, estávamos dentro.

“Tudo bem”, respondeu ele. “Volto a procurar você quando houver mais a discutir.”

Naquele outubro, cinco meses após nossa primeira conversa (e duas semanas depois de eu oficialmente me tornar CEO), Steve e eu subimos juntos ao palco no lançamento da Apple e anunciamos que cinco programas da Disney — incluindo três dos mais populares da televisão, “Desperate Housewives”, “Lost” e “Grey’s Anatomy” — agora estariam disponíveis para download no iTunes e para consumo no novo iPod com o player de vídeo.

Essencialmente, intermediei o acordo com a assistência de Anne Sweeney, que dirigia a ABC. A facilidade e a velocidade com que conseguimos deixá-lo pronto, combinado com o fato de que aquilo demonstrava admiração pela Apple e por seus produtos, surpreenderam Steve. Ele me disse que nunca conheceu alguém no ramo de entretenimento que estivesse disposto a tentar algo que pudesse desestruturar o modelo de negócios da própria empresa.

Quando entrei no palco naquele dia para anunciar nossa parceria com a Apple, a plateia a princípio ficou confusa, pensando: Por que o novo cara da Disney está ali com Steve? Só pode ser por um motivo. Eu não tinha roteiro, mas a primeira coisa que falei foi: “Sei o que vocês estão pensando, mas não estou aqui para isso!” Houve risos e lamentos. Ninguém mais do que eu desejava fazer aquele anúncio.

Produto

  • Onde os Sonhos Acontecem
  • Robert Iger
  • Intrínseca
  • 304 páginas

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