Os Tais Caquinhos, de Natércia Pontes — Gama Revista

Trecho de livro

Os tais caquinhos

Novo romance da cearense Natércia Pontes acompanha a rotina de um pai e duas filhas em um apartamento abarrotado de coisas

Mariana Payno 29 de Janeiro de 2021

POR QUE LER?

Descrito como “um romance de formação trágico e comovente”, o novo livro da cearense Natércia Pontes — finalista do Jabuti com os contos de “Copacabana Dreams” (Cosac Naify, 2012) — realmente entrega os risos nervosos que promete. A trajetória moral, no entanto, não é de um protagonista solo, mas de uma família de três: um pai acumulador e suas duas filhas adolescentes, dividindo a vida com as tralhas em um apartamento atulhado de caixas de papelão, livros mofados, montanhas de papéis, louça suja, pouca comida, muitos cacarecos e insetos mil.

“Os Tais Caquinhos”, que sai em fevereiro pela Companhia das Letras, dá ao leitor aquela sensação ambígua de atração e repulsa. As descrições da vida no apartamento 402 são sentidas, por vezes gráficas demais, quase escatológicas — mas é justamente essa atmosfera de eterno desajuste que move a vontade de avançar pelas páginas para descobrir onde as mentes e corpos dessa família disfuncional, mas estranhamente unida, vão parar.


Um sofá sobre o outro, e não há um só lugar para sentar

Berta e eu andávamos de saco cheio uma da outra. Ao longo dos anos, ardia uma dinamite improvisada à base de fúria, hormônios, umidade, calor, desamparo logístico, sujeira, incompreensão sobre a vida, pó sobre os talheres, perna solta de barata incrustada no sabonete ressecado. Apesar de tudo havia os nossos sonhos bons, tais como: desenhar incessantemente esboços de quartos aconchegantes e fingir que se vive no hábitat ideal para uma adolescente limpa, bem-cuidada, respeitada, digna de receber edredons macios, abajures de luz tênue, cômodas higienizadas, e, claro, com todas as gavetas funcionando perfeitamente, roupas bonitas, cortinas diáfanas, tapetes felpudos, cortiça em formato de coração pregada na parede e abarrotada de fotos de festas de aniversário memoráveis; debaixo dela, um baú carregado de agendas entupidas de recortes da revista Capricho, assinada anualmente, sem que a dispendiosa assinatura fosse jogada na cara a cada vez que houvesse uma pequena discussão, incluindo os sonhos bons e todas as pernas de insetos imagináveis (alocadas nos canais do ouvido, por exemplo). Acho que o grande susto veio no dia em que Lúcio falou que era importante sentir fome. Depois do colégio, quando chegávamos em casa e não havia sofá para esticar as pernas e jogar os livros pelos ares, Berta e eu derretíamos de vontade de comer um belo prato de arroz, carne moída e feijão. Fantasiávamos com uma jarra espumante de suco de abacaxi. Mergulhávamos na possibilidade intangível de saborear, ao fim do almoço, cubinhos de sorvete de abacate, cobertos por uma generosa calda de leite condensado. Mas o que havia era um pinga-pinga incessante que inchava a pintura do teto, um pote de margarina onde repousava uma cebola velha.

Acho que o grande susto veio no dia em que Lúcio falou que era importante sentir fome

Havia também minhas questões quanto às roupas de Berta, visivelmente mais bonitas e preservadas e interessantes que as minhas. Então eu costumava surrupiá-las e manchá-las e perdê-las, o que fazia com que Berta estivesse constantemente irritada comigo. Uma vez, depois de não termos almoçado por mais um dia e de termos telefonado para Lúcio e recebido a sábia lição de que, sim, era muito importante sentir fome, Berta bufou porque não conseguia achar uma saia jeans. Então, já habituada a mentir, eu menti, já habituada a desafiá-la com ironia e desdém, eu desafiei Berta com ironia e desdém. Ela explodiu com uma fúria desconhecida e me disse com os olhinhos de gafanhoto, borbulhantes de alguma certeza gloriosa, esbravejando, você não sabe de nada, você não sabe de nada! Foi aí que ela abriu as gavetas quebradas da cômoda e tirou enfurecida todas as minhas peças de roupa, incluindo calcinhas encardidas e fitilhos avulsos e meias sem par e biquínis frouxos, então pegou toda a montanha de roupas e, como um estivador enérgico, lançou cada uma delas pela janela, quatro andares abaixo. Não satisfeita, catou todos os meus sapatos molambentos e jogou-os também janela afora. Lembro de ver o meu tênis amarelo traçar uma parábola perfeita e ir parar no terreno baldio logo à frente. Lá embaixo, no pátio comum, nossos amigos do prédio, e mesmo as vizinhas que doavam ovos, desviavam dos tamancos e das sandálias, berrando selvagemente sob a chuva de farrapos que pousavam em suas cabeças: “Não pa-ra! Não pa-ra! Não pa-ra!”.

Sopro dormente, checagem

Eram como os de Jesus Cristo. Ossudos e brancos, veias azuis retorcidas e saltadas. Mesmo com unhas encravadas (os cantinhos nodosos e encrespados, lembrando os córneos de um bode velho), os pés eram elegantes, dramáticos e compunham um detalhe vistoso de Lúcio. Berta herdou pares semelhantes — e enormes, mesmo para alguém de seu tamanho. O tio Rubens costumava irritá-la durante as férias na praia. Ele fincava o calcanhar na areia úmida e traçava a reta mais comprida que conseguisse, usando a outra perna de apoio. Por fim, carimbava os cinco dedos na areia e perguntava fingindo surpresa: “Quem passou por aqui?”. Morríamos de rir com a suposta pegada de Berta, até que uma onda apagasse a calcadura gigante, sem deixar rastro algum. O mar seguia indiferente, arrulhando espuma… Prumm, prummm… A respiração era um rastro.

Sempre que me batia uma aflição, e sentia meu coração galopar no peito, ia até o quarto de Lúcio só para aferir a subida e descida de sua enorme barriga branca

Os mesmos pés de mármore que mais pareciam mãos pousavam esticados, recebendo a luz anêmica que escapava da janela. Da rua, os faróis dos carros rareavam vez ou outra iluminando com uma intensidade débil os tubos de papelão ocos, os arquivos mortos, escaninhos vazios, revisteiros empilhados, cupons fiscais de farmácia, tampas de caixas soltas, refis de canetas secos e mais uma variedade de objetos pardos e cobertos de poeira. Brilhando entre eles e sobre o tecido áspero do colchão desforrado se assentavam as impecáveis plantas dos pés. Eu avançava o quarto de pouquinho em pouquinho; tarde da noite as goteiras pingavam mais mansas. A respiração suspensa do apartamento se confundia com a minha. Lúcio dormia em decúbito dorsal, o umbigo inchado revelando-se por entre as casas esgarçadas da camisa de botões. Sempre que me batia uma aflição, e sentia meu coração galopar no peito, ia até o quarto de Lúcio só para aferir a subida e descida de sua enorme barriga branca, a confirmação de que respirava e dormia como alguém vigoroso e com saúde plena e que jamais fosse desaparecer. Inspira, expira, inspira, expira. No escuro daquele jazigo de traças e umidade, recuperava o ritmo calmo da minha respiração, imitando a dele, sentindo no topo do cocuruto uma dormência irradiar e cobrir meu corpo num sopro morno e bom. A luz passageira de um carro acariciava meu rosto, me despertando do transe. Então esquecia que vivia no apartamento mais sujo do mundo e ia dormir em paz.

Produto

  • Os Tais Caquinhos
  • Natércia Pontes
  • Companhia das Letras
  • 144 páginas

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