Recordações da Minha Inexistência, de Rebecca Solnit

Trecho de livro

Recordações da Minha Inexistência

Escritora, historiadora e feminista, Rebecca Solnit narra sua formação em um livro de memórias que escancara para o leitor a luta constante de ser mulher

Leonardo Neiva 05 de Março de 2021

POR QUE LER?

Logo no início de seu livro de memórias, a escritora, historiadora e ativista americana Rebecca Solnit conta como, ainda jovem, viu sua imagem no espelho se enevoar e recuar, como se ela estivesse desaparecendo do mundo. “Naquela época eu estava tentando desaparecer e aparecer, tentando estar em segurança e ser alguém, e esses objetivos muitas vezes conflitavam entre si”, explica a autora na sequência.

A experiência, de certa forma, ecoa por todo este “Recordações da Minha Inexistência” (Companhia das Letras, 2021), obra em que Solnit reconta sua juventude e seus esforços para se tornar uma escritora. A luta cotidiana de ser mulher, a busca por ser ouvida, a violência quase banal exercida contra seu corpo e o apagamento que com frequência a sociedade tentou forçá-la a aceitar a acompanham ao longo de sua formação, que teve início numa Califórnia marcada pelo punk, as drogas e a pós-contracultura.

Autora de “Os Homens Explicam Tudo para Mim” (Cultrix, 2017) e “A Mãe de Todas as Perguntas”, entre mais de 15 livros sobre temas como feminismo, história indígena e ocidental e mudança social, Solnit é uma das principais vozes da não-ficção contemporânea. Além de um testemunho dos avanços do feminismo e de outras questões sociais nas últimas décadas, seu livro mais recente é também um relato comovente sobre uma jovem atrás de seu lugar num mundo que parece incapaz de tolerar sua (in)existência.


A ameaça de violência passa a residir na sua mente. O medo e a tensão habitam seu corpo. Os que atacam obrigam você a pensar neles; invadem os seus pensamentos.

Mesmo que nenhuma dessas coisas terríveis aconteça com você, a simples possibilidade de acontecer e tudo ao redor que a faz lembrar disso, constantemente, acabam exercendo um impacto. Desconfio que algumas mulheres empurram tudo isso para algum cantinho da mente e decidem minimizar a realidade do perigo, de modo que este se torna uma subtração invisível de quem a mulher é e do que ela pode fazer. É algo não dito, algo impossível de ser dito.

Eu sabia o que estava se perdendo. E o peso daquilo me esmagava, naqueles anos em que eu estava começando, tentando criar a minha vida, ter uma voz, encontrar um lugar no mundo. Acabei conseguindo fazer tudo isso, porém mais tarde falei, brincando, que não ser estuprada foi o hobby mais intenso da minha juventude. Exigia considerável vigilância e cautela, motivando constantes mudanças de rota pelas cidades, bairros e lugares pitorescos na natureza, assim como pelos grupos sociais, pelas conversas e relacionamentos.

… mais tarde falei, brincando, que não ser estuprada foi o hobby mais intenso da minha juventude

Pode-se pingar uma gota de sangue num copo de água límpida e a água continuará parecendo transparente; podemos pingar duas gotas, seis gotas, e em algum momento a água não será mais límpida, não será mais água. Quanto disso entra na sua consciência até que ela se modifique? O que isso faz com todas as mulheres que têm nos seus pensamentos uma gota, ou uma colher, ou um rio de sangue? E se for uma gota todos os dias? E se você estiver apenas esperando que a água límpida fique vermelha? Qual o resultado de ver pessoas como você sendo torturadas? Qual a perda da vitalidade, da tranquilidade, da capacidade de pensar e fazer outras coisas? E como seria conseguir tudo isso de volta?

Na pior fase, eu dormia com as luzes acesas e o rádio ligado, para parecer que ainda estava acordada. (O sr. Young me disse que vários homens já haviam passado por lá perguntando em qual apartamento eu morava; é claro que ele não lhes dizia, mas isso alimentava meu nervosismo.) Eu não dormia bem e continuo não dormindo. Eu era, como dizem as pessoas traumatizadas, “hipervigilante” e montei minha casa de modo que ela também parecesse hipervigilante. Minha carne se tornou quebradiça de tanta tensão. Eu olhava para os grossos cabos de aço que sustentam a ponte Golden Gate e pensava nos músculos do meu pescoço e dos meus ombros, que me pareciam igualmente tensos e rígidos. Eu me assustava facilmente e me encolhia toda quando alguém fazia um movimento súbito perto de mim.

Estou contando tudo isso não por achar que minha história é excepcional, mas sim porque é comum; metade da Terra está recoberta pelo medo e pela dor das mulheres — ou melhor, pela negação desse medo e dessa dor; e até que as histórias que estão por baixo dessa camada vejam a luz do sol, isso não vai mudar. Digo isso para notar que nós nem conseguimos imaginar como seria o mundo sem esse estrago, tão comum e onipresente; mas suspeito que seria um mundo deslumbrante de tão vivo, e uma autoconfiança exultante, hoje tão rara, seria comum, e um peso seria retirado da metade da população, um peso que já tornou tantas coisas mais difíceis, ou impossíveis.

Também digo isso porque quando escrevi sobre esse assunto de uma perspectiva geral, com a voz objetiva dos editoriais e das investigações de cena, não cheguei a transmitir a maneira como isso nos faz mal, ou melhor, como isso me fez mal. Há uma passagem no livro de Sohaila Abdulali sobre sobreviventes de estupro que fala sobre certa voz — “uma maneira de relatar a história como um arco suave; com naturalidade, com entonação, mas sem uma emoção verdadeira. […] Podemos relatar muitos detalhes, mas deixamos de fora aqueles insuportáveis que ninguém quer ouvir”. No meu livro sobre o caminhar, escrevi: “Foi a descoberta mais devastadora da minha vida — que eu não tinha um verdadeiro direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade quando estivesse fora de casa; que o mundo estava cheio de homens desconhecidos que pareciam me odiar e desejavam me agredir por nenhum outro motivo além de eu ser mulher; que o sexo podia se tornar violento rapidamente e que quase ninguém mais considerava tudo isso um problema público, mas sim privado”. Porém essas frases também não chegavam a penetrar fundo e transmitir o que havia dentro da minha cabeça.

Estou contando tudo isso não por achar que minha história é excepcional, mas sim porque é comum; metade da Terra está recoberta pelo medo e pela dor das mulheres

O perigo fazia estrago nos meus pensamentos. Cenas de ataque surgiam espontaneamente, e às vezes eu as enfrentava imaginando vencer o combate, em geral por meio de golpes de artes marciais que não sou realmente capaz de executar; assim, eu matava para não ser morta, repetidamente, durante os anos mais terríveis daquela época, em cenas imaginárias que eram intrusivas, indesejadas, geradas pela ansiedade; era como viver numa casa mal-assombrada e uma maneira de tentar assumir o controle da perseguição desses fantasmas. Percebi então que obrigar você a pensar como um predador é uma das coisas que os predadores conseguem fazer com você. A própria violência havia penetrado dentro de mim.

Eu tinha maneiras mais etéreas de lidar com a coisa. Procurando por toda parte estratégias para a minha segurança, imaginei roupas de proteção; se imaginarmos uma vestimenta capaz de impedir um estrago, vamos imaginar uma armadura; e se você fosse eu, chegaria a essa tralha metálica medieval. Passei vários anos mergulhada no assunto; visitei armaduras em museus, li livros a respeito delas, imaginando estar dentro delas, desejando usá-las. No final desse período, uma amiga minha se tornou assistente de estúdio de uma artista nova-iorquina, Alison Knowles, cujo marido, Dick Higgins, era de uma família rica que fundara um museu dedicado às armaduras, o Higgins Armour Museum, em Worcester, Massachusetts. Escrevi uma carta perguntando se eu poderia contar com ele para experimentar uma armadura, tratando de tornar meu pedido alegre, cerebral, uma experiência interessante, e não uma fantasia nascida da minha agonia.

Nunca cheguei perto de armadura nenhuma, e era uma solução imaginativa, e não prática. Afinal, o que é uma armadura, se não uma gaiola que se movimenta junto com você? Mas talvez estar dentro dessa gaiola tivesse me libertado de alguma maneira. Ou talvez eu já estivesse numa armadura, ao mesmo tempo liberada e sufocada por ela: quando penso em quem eu era na época, e com frequência ainda sou, a superfície dura, reflexiva, defensiva da armadura me parece uma boa imagem. Há uma maneira de você colocar toda a sua consciência nessa superfície, ser espirituosa, vigilante, preparada para um ataque; ou apenas tão estressada que seus músculos travam e sua mente também. Esqueça suas profundezas de ternura, esqueça quanta coisa importante vive ali, sob a superfície e sob as superfícies. É fácil ser a armadura. Nós morremos o tempo todo para evitar que nos matem.

… obrigar você a pensar como um predador é uma das coisas que os predadores conseguem fazer com você. A própria violência havia penetrado dentro de mim

Imagens de levitação também surgiam espontaneamente quando eu relembrava ou imaginava algum ataque; muitas vezes sonhava que estava voando, mas não estava pedindo a liberdade total do voo, apenas imaginando sair do alcance, pairar uns metros acima da cabeça do perseguidor. Já que eu não podia ter um corpo sólido, blindado, quem sabe poderia então ter um corpo etéreo, demasiado etéreo para participar dos conflitos na superfície da Terra?

Eu imaginava isso com tanta intensidade que até hoje consigo sentir e me visualizar subindo até o nível da luz da rua em frente ao meu apartamento, pairando ali no halo da lâmpada — eu dentro da noite, a salvo não só dos predadores como também das leis da física e das regras que governam o corpo humano; e, talvez, a salvo da vulnerabilidade de ser uma criatura mortal que tinha um corpo e vivia na Terra e do peso de todo aquele medo e de todo aquele ódio.

Produto

  • Recordações da Minha Inexistência
  • Rebecca Solnit
  • Companhia das Letras
  • 264 páginas

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