Samuel Wainer: O Homem que Estava Lá — Gama Revista

Trecho de livro

Samuel Wainer: O Homem que Estava Lá

Gama publica com exclusividade um trecho da nova biografia do jornalista Samuel Wainer, figura relevante para o Brasil do século 20

Mariana Payno 18 de Setembro de 2020

POR QUE LER?

Fundador do jornal Última Hora, Samuel Wainer (1912-1980) revolucionou a imprensa brasileira no início da década de 1950: deu aos profissionais bons salários; ao design das publicações, novos ares; à parcela vulnerável da população, mais visibilidade. Com isso, se consagrou como um dos maiores nomes da história do jornalismo no país — mas não só: atraído pelo poder e movido por fortes convicções ideológicas, Wainer foi testemunha e protagonista de acontecimentos decisivos para o Brasil contemporâneo, do Estado Novo de Getúlio Vargas aos derradeiros anos da ditadura militar.

Baseado em uma ampla pesquisa, com fontes inéditas, “Samuel Wainer: O Homem que Estava Lá”, lançado hoje pela Companhia das Letras, revela inúmeras facetas do jornalista. Entre as descobertas da autora, a colega de profissão Karla Monteiro, estão o local de nascimento de Wainer, que chegou a ser tema de uma CPI nos anos 1950, e o conteúdo de extensos documentos sobre ele, produzidos pelo Departamento de Estado Americano na época do golpe militar. Sua participação nos embates que antecederam a derrocada da democracia em 1964 é tema do trecho a seguir, que Gama publica com exclusividade.

O episódio é um entre os vários que mostram como Wainer, ao longo da vida, colecionou inimigos e alimentou amizades influentes. Nas paredes de sua casa figuravam fotos ao lado de personalidades como Mao Tsé-tung, Brigitte Bardot, Golda Meir, John F. Kennedy, Salvador Allende e Pablo Neruda — lembranças de um tempo de “deleite de Gatsby”, na definição do amigo e também jornalista Paulo Francis, um momento anterior à perda do Última Hora com a chegada da ditadura.

Esse período e outros menos glamurosos estão nas memórias de Wainer que não se puderam censurar e que foram publicadas postumamente pela Record, em 1987: a autobiografia “Minha Razão de Viver” teve 20 edições e vendeu 400 mil livros, fez barulho e cutucou muitas feridas. Mais imparcial e equilibrado, mas igualmente intrigante, é o novo e aguardado retrato da vida dessa figura histórica tão relevante para os rumos que o Brasil tomou no século 20.


Talvez agindo com a anuência de Jango, no dia 1º de novembro Samuel bateu atabalhoadamente à porta do embaixador dos Estados Unidos. “Com grande urgência”, conforme relatara Lincoln Gordon, em telegrama confidencial ao Departamento de Estado dos Estados Unidos. De acordo com a revista Time, Gordon detinha o título de maior especialista em economia latino-americana, tendo sido um dos articuladores do Plano Marshall, de recuperação da Europa, e também da Aliança para o Progresso, programa do presidente Kennedy. Desde 1961 servia no Brasil. Ao entrar na casa do poderoso homem, Samuel não sabia bem o que queria. Para Gordon, “a história é tão surrealista que a inclinação é achar que se trata de fantasioso vapor da imaginação brilhante de Wainer. Mas, infelizmente, ele é uma das figuras que invariavelmente aparecem ao lado de Goulart nos momentos de crise e especificamente foi onipresente nos encontros para planejar o estado de sítio”.

Seguramente só a visita de Samuel, mesmo que ele nada tivesse dito, já parecia fora de contexto. Se os Estados Unidos metiam a colher na política interna para favorecer a direita, Lincoln Gordon era o chefe da cozinha. Nas eleições de 1962, montara um esquema milionário de doações financeiras aos candidatos de oposição a João Goulart, usando intermediários como Ibad e Ipes. Também não devia escapar a Samuel o fato de que se tornara persona non grata naquele país. Sua ficha corrida no Departamento de Estado somava mais de mil páginas. Nas citações de Gordon, era o “evil genius”. Em setembro de 1958, Carleton Sprague Smith, que ocupava o cargo de adido cultural no Brasil, encontrou-se com o jornalista no bar do Hotel Serrador. Em seu relato da conversa, ele ponderou:

Talvez esteja cansado dos comunistas? E quer ser subornado para ficar mais amigável com os Estados Unidos? Estas ideias passaram pela minha cabeça, mas não houve a menor sugestão disto da parte dele, nem uma dica. […] Estava completamente natural e amistoso. Nós nos conhecemos há quinze anos, quando, posso afirmar, ele definitivamente trabalhou para os Estados Unidos.

Naquela visita surpresa a Lincoln Gordon, Samuel pareceu-lhe — quase — fora de si: “É pessoalmente muito próximo de Goulart, a quem o presidente vê muito frequentemente e que parece exercer sobre ele algum tipo de fascinação de gênio do mal”. Nas quatro páginas de relatório, o embaixador tentou resumir a conversa de mais de duas horas. Nas palavras de Samuel, Jango estava “desesperado”, sabia-se um mau administrador e também não ignorava que não teria tempo de fazer algo construtivo como presidente. Desse dilema, surgira uma conclusão: “trocar o mandato pelas reformas de base”. Quando o embaixador quis saber como isso poderia se dar,

Wainer disse ter dito a João Goulart em janeiro passado que, no curso de um ano, ele conseguiu o plebiscito e a restauração do regime presidencialista. E que agora teria um ano para conseguir o estado de sítio para de fato agir. Entretanto, a frustrada tentativa de outubro foi prematura. A intenção era mesmo que fosse recusada pelo Congresso e, então, o Congresso seria fechado. A partir daí, Goulart decretaria duas reformas imediatas: a reforma agrária e a reforma eleitoral. […] Todos ficariam elegíveis à presidência, menos o próprio Goulart. O problema, segundo Wainer, era que muitas pessoas não confiaram em sua disposição de deixar o poder. A desconfiança da esquerda e a natural oposição da direita frustraram o plano.

Samuel assegurou repetidas vezes a Gordon que o presidente admitia a hipótese de renunciar, trocando o cargo pela garantia das reformas, que a ideia estava fixa na sua cabeça: “Descreveu o conceito (que ele próprio deve ter inventado) como romântico, mas daria a Goulart o nome na história, como o [Benito] Juárez do Brasil, o homem que realmente teria popularizado social, econômica e politicamente a estrutura do país”. Na opinião de Samuel, “uma respeitável e legítima ambição”. Gordon, então, perguntou por que o presidente achava que o plano daria certo agora, se recentemente falhara. Wainer balançou a cabeça. Não podia ter essa convicção, mas, sem dúvida, causaria mais distúrbios internos. “As razões pelas quais ele me procurou foram me inteirar dessa perspectiva, evitar que me engane com os sinais aparentes de restabelecimento da tranquilidade e reabrir o diálogo com os Estados Unidos, porque nossa simpatia poderia ser muito importante no curso dos próximos eventos.”

Ao concluir o memorando, uma advertência:

Nós devemos levar a sério a possibilidade de que a frase “trocar o mandato pelas reformas de base” tenha passado pela mente primitiva e infantil de João Goulart. Eu posso entender por que ele e Wainer estão tendo problemas para convencer os outros que o presidente renunciaria. Por uma curiosa coincidência, Wainer descreveu Goulart como alguém a quem o poder aborrecia. As mesmas palavras, idênticas, foram usadas pelo próprio Goulart em conversa comigo, em agosto.

Gordon tirou suas próprias conclusões acerca do caráter de Samuel, que, certamente, não correspondiam à realidade. Ele nunca fora um golpista nato, do calibre de Carlos Lacerda. Mas, para o embaixador, vinha fomentando saídas autoritárias para o encurralado governo. Inclusive, em junho de 1962, dissera literalmente a Henry Kissinger ser a favor de um regime similar ao da Iugoslávia, um Brasil nacionalista e socialista. “O aviso de Wainer de que Goulart pode tentar alguma ação violenta nos próximos dias ou semanas deve ser levado a sério, para dizer o mínimo”, concluiu Gordon.

Produto

  • Samuel Wainer: O Homem que Estava Lá
  • Karla Monteiro
  • Companhia das Letras
  • 576 páginas

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