'Segredos', do premiado escritor Domenico Starnone - Gama Revista

Trecho de livro

Segredos

O novo romance de Domenico Starnone traz uma história de amor cheia de conflitos, em que um casal resolve revelar, um para o outro, seus piores fantasmas

13 de Junho de 2020

POR QUE LER?

Talvez muitos leitores brasileiros conheçam Domenico Starnone como “o marido de Elena Ferrante” — ou, pelo menos, o suposto marido: a verdadeira identidade da icônica autora da tetralogia napolitana é desconhecida, mas muitos desconfiam de sua esposa, a tradutora Anita Raja. Se a teoria é acertada ou não, dificilmente saberemos, porém fato é que Starnone e Ferrante compartilham muitas afinidades literárias. Há um reconhecido diálogo entre os temas, os personagens e a linguagem dos dois escritores italianos. E, além disso, o mistério identitário de Elena Ferrante e o fenômeno mundial em que ela se transformou despertaram um interesse global pela literatura da Itália e, em especial, pela obra de Starnone.

Não que ele precisasse muito desse empurrãozinho ou da alcunha de “marido” para angariar reconhecimento. Como um dos maiores romancistas italianos contemporâneos, o autor nascido em 1943 tem mais de dez livros publicados e levou, em 2001, o Strega, prêmio máximo da literatura no país. Sua obra, em geral, tematiza confrontos familiares que metaforizam retratos sociais, geracionais e culturais da Itália em linguagem fluida e sagazes costuras narrativas. Em “Segredos”, recém-lançado no Brasil em tradução do também premiado Mauricio Santana Dias, não é diferente.

O livro conta uma história de amor tempestuosa: em um relacionamento cheio de conflitos, Pietro, um professor, e Teresa, sua ex-aluna, resolvem confessar um ao outro seus piores segredos. Eles acabam se separando e construindo outras vidas, mas as revelações perseguem os dois — e o leitor, que, afinal, também quer descobri-las — como fantasmas, por toda a narrativa. Dividido em três partes, cada uma tendo um personagem como narrador (Pietro, sua filha Emma e Teresa), o romance revela perspectivas distintas sobre esse jogo de silêncios e confissões.


Daquela vez, brigamos de um jeito que parecia definitivo, não dava para voltar atrás depois das coisas que jogamos na cara um do outro. No entanto, mesmo naquela ocasião, conseguimos nos reconciliar. Ficamos abraçados até o amanhecer, rindo da garota de Arles, do pianista e docente de citologia. Mas agora estávamos assustados com o risco que havíamos corrido de nos perder. E foi aquele susto, acho, que nos levou logo em seguida a buscar uma maneira de marcar para sempre nosso dependência recíproca.

Teresa insinuou cheia de dedos uma proposta e disse: vamos combinar que eu te conto um segredo horrível meu, que nem a mim mesma nunca tentei dizer, e você me conta um seu equivalente, uma coisa que, se fosse descoberta, te destruiria para sempre. Sorriu como se estivesse me convidando para um jogo, mas lá no fundo me pareceu muito tensa. Logo me senti também ansioso, fiquei assustado, preocupado que ela, aos vinte e três anos, pudesse ter um segredo tão inconfessável. Eu, que estava com trinta e três, tinha um, e se tratava de uma história tão embaraçosa que só de pensar nela eu me ruborizava, baixava os olhos para a ponta dos sapatos, esperando que a perturbação passasse. Demos voltas em torno do assunto, nos perguntando quem confessaria primeiro.

— Primeiro você — ela disse, e o tom era imperioso e irônico, o mesmo que costumava usar quando transbordava de afeto.

— Não, primeiro você, preciso avaliar se seu segredo é tão horrível quanto o meu.

— E por que eu deveria confiar, e você não?

— Porque conheço meu segredo e acho impossível que você tenha um tão inconfessável.

Por fim, depois desse vaivém ela acabou cedendo, especialmente irritada — suponho — com o fato de eu não considerá-la capaz de ações inomináveis. Deixei que falasse sem interrupções e no final não consegui formular um comentário adequado.

— E então?

— É feio.

— Eu te avisei, agora é sua vez. E, se me contar uma tontice, vou embora e você nunca mais me vê.

Então me abri, a princípio de modo fragmentário, depois cada vez mais articulado, e não queria parar de falar, foi ela quem disse chega. Soltei um longo suspiro e disse:

— Agora você sabe de mim o que ninguém nunca soube.

— E você também sabe de mim.

— Não podemos nos deixar nunca, de fato estamos nas mãos um do outro.

— É.

— Não está contente?

— Estou.

— Foi uma ideia sua.

— Foi.

— Gosto de você.

— Eu também.

— Mas eu gosto muito.

— E eu muito, muito.

Poucos dias depois, sem bater boca, ao contrário, com um protocolo cortês que nunca tínhamos usado entre nós, decidimos que nossa relação estava encerrada e de comum acordo terminamos.

2.

No início, me senti aliviado. No fim das contas, Teresa era uma menina insubordinada e briguenta, qualquer frase minha gerava uma objeção, qualquer fraqueza, uma tirada sarcástica. Sem falar que ela discutia não só comigo, mas com todo mundo, lojistas, funcionários dos correios, guardas de trânsito, policiais, vizinhos, amigos próximos. A cada ocasião de embate ela intensificava uma risadinha que parecia de alegria, mas era de raiva, um som gutural que escandia frases cheias de insultos como uma censura. Pelo menos duas vezes saí na mão com gentalha que se esquecera de como tratar uma garota. Mas depois os dias foram passando, transcorreram semanas, acumularam-se meses de uma vagabundagem inconsequente, até que o alívio perdeu força e comecei a sentir falta dela. Ou melhor, percebi que o espaço desenhado por ela na quitinete em que tínhamos morado, ou ao lado de mim na rua, no cinema, em qualquer lugar, estava vazio, cinza. Que complicado, um amigo me disse certa vez, se apaixonar por uma mulher que em todos os aspectos é mais viva que nós. Meu amigo tinha razão: embora eu não fosse apagado, em Teresa havia um excesso de força vital, e quando ela transbordava, não havia barragem que a segurasse. Isso era lindo e me dava saudades, de vez em quando desejava revê-la. Mas aí, justo quando eu estava me convencendo de que não havia nada demais em ligar para ela, topei com Nadia.

Não quero me estender muito sobre Nadia: era esquiva, muito contida até quando dizia bom-dia, gentilíssima, o contrário de Teresa. Topei com ela na escola, era formada em matemática, cultivava ambições acadêmicas e aquele era seu primeiro emprego. No início não a notei, estava muito longe do tipo de mulher que me atraía, parecia totalmente alheia aos tempos de efervescência política, literária e erótica em que me senti imerso antes, durante e depois de minha relação com Teresa. No entanto, alguma coisa nela — difícil dizer o quê, talvez o rubor que não sabia disfarçar — me agradou à medida que as semanas passavam, cada vez mais, e comecei a girar em torno dela. Provavelmente pensei que conseguiria armá-la contra aquela tendência a enrubescer, ensinando-a a romper os limites em todos os campos de sua vida, com palavras e até com ações. À Teresa, nunca ensinei nada, mesmo ela sendo dez anos mais nova que eu, mesmo tendo sido minha aluna naquele mesmo colégio onde eu ainda dava aulas. E isso me amargurou algumas vezes, ela parecia ter nascido pronta, ao passo que Nadia estava fechada num círculo minúsculo além do qual nunca se arriscara.

Produto

  • Segredos
  • Domenico Starnone
  • Todavia
  • 152 páginas

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