Seja Homem: A Masculinidade Desmascarada, J.J. Bola — Gama Revista

Trecho de livro

Seja Homem

Com prefácio de Emicida, livro do escritor congolês J.J. Bola reflete sobre a construção da masculinidade e propõe formas de redefini-la

Mariana Payno 30 de Outubro de 2020

POR QUE LER?

O que o mito de que “menino não chora”, os discursos de Donald Trump, as brincadeiras de “lutinha”, a alta taxa de suicídios entre homens jovens, os trolls do Twitter e a agressividade em competições esportivas têm em comum? Tudo isso está coberto pelo manto da masculinidade — costurada pela sociedade patriarcal, a noção do que é “ser homem” se emaranha às mais diversas manifestações da nossa vida social, política e cultural. Desfiá-la, fio a fio, é o que propõe o escritor congolês radicado em Londres J.J. Bola em sua coletânea de ensaios “Seja Homem: A Masculinidade Desmascarada”, que chega agora ao Brasil pela editora Dublinense.

A máscara a que alude o subtítulo do livro tem várias faces, que Bola aborda a cada capítulo — o amor e o sexo, a saúde mental e as redes sociais, o esporte e a política —, mas todas elas carregam a insensibilidade e a resistência à demonstração de fraquezas pelos homens. Evocando as próprias memórias, tradições sociais e culturais e diversos estudos da área, o autor traça um panorama bem completo de como a ideia convencionada de masculinidade condiciona o estar privilegiado dos homens no mundo e afeta a sociedade como um todo — e faz isso considerando também as questões de raça, classe e sexualidade que pesam na balança dos privilégios.

Mais do que esboçar um cenário analítico, Bola propõe maneiras de descosturar o manto do “homem de verdade” para forjar uma nova (e menos nociva) ideia de masculinidade, disposta a dissolver estereótipos e a atender às demandas por igualdade de gênero. De quebra, a edição brasileira do livro traz um prefácio de Emicida, que também reflete sobre a “trajetória ao que de fato pode significar ser um homem”.


O poder político é patriarcal e o poder patriarcal é político. Ou melhor, a dominação masculina através do espectro político é um instrumento de poder. E visões ideológicas opostas, que de modo geral são vistas como posições contrárias do mesmo sistema, com frequência têm uma característica em comum: a masculinidade. Neste cenário, o porquê de tantos homens jovens se radicalizarem — seja por meio do jihadismo, do neonazismo, dos movimentos de supremacia branca, como os alt-rights, ou pela intervenção de qualquer outro movimento político violento centrado nos homens — é uma questão que tem sido menosprezada, especialmente na grande mídia. Em outras palavras, não é uma coincidência que, no seu livro Healing from hate: how young men get into — and out of — violent extremism (“Curando-se do ódio: como homens jovens entram — e saem — do extremismo violento”), o sociólogo Michael Kimmel argumente que a masculinidade é a principal causa para tantos jovens continuarem a entrar em movimentos políticos violentos — a masculinidade é a cola social que mantém todas essas identidades unidas.

Kimmel acredita que os jovens envolvidos nesses movimentos carregam um sentimento de “direito lesado”, por acharem que não receberam aquilo que, por princípio, tinham o direito de receber, isto é, que eles não receberam as regalias que esperavam ganhar pelo fato de serem homens. Como resultado, muitos indivíduos consideram que a sua masculinidade está em perigo e que, portanto, devem tomar medidas extremas — normalmente violentas — para protegê-la. Um exemplo de tal mentalidade está muito bem descrito em um artigo do Washington Post intitulado How masculinity, not ideology, drives violent extremism (“Como a masculinidade, e não a ideologia, estimula o extremismo violento”). Nele, a jornalista Dina Temple-Raston relata a trajetória de um adolescente do estado de Minnesota que vendeu o pouco que tinha (iPhone, tênis e computador) para comprar uma passagem para a Turquia e depois ir à Síria para se unir ao Estado Islâmico. O rapaz dizia: “Eu achava que estava lutando ao lado de um povo oprimido… Que eu iria enfrentar outro exército… Era como se eu estivesse fazendo um gesto realmente nobre, isso me dava sentido”. Mas, no fim, o adolescente acabou sendo preso pelo FBI, acusado de terrorismo.

Do outro lado do espectro político, temos a retórica do quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, durante toda a campanha eleitoral, usou um discurso sexista e racista para atrair e ganhar apoio dos homens brancos norte-americanos (e também das mulheres brancas norte-americanas, que constituem 53% do seu eleitorado), uma parcela da população bastante descontente com a sensação de que seus direitos e privilégios estavam sendo ameaçados. Trump — também chamado de Ronald McDonald Trump, Agente Laranja e, por um dos meus apelidos favoritos, Cheeto Benito —, disse o seguinte em resposta ao movimento #MeToo e às alegações de agressão e má conduta sexual apresentadas contra um indicado à Suprema Corte, o juiz Kavanaugh: “Esses são tempos muito assustadores para os jovens homens nos Estados Unidos”. O que ele estava querendo dizer? Bom, o que Trump estava chamando de assustador é a ideia dos homens enfim serem responsabilizados pelos seus atos do passado, pelos seus atos do presente e por suas ações do futuro, a subversão do cenário atual, onde os homens ainda podem com facilidade sair impunes das suas transgressões (e vamos ser claros: ele está falando bem especificamente dos homens brancos). Pois é, serem responsabilizados pelas suas ações é “assustador” para os homens jovens nos Estados Unidos; as jovens do país, por outro lado, temem pela violência de gênero: estupro, abuso sexual e assédio. Não dá para comparar uma coisa com a outra.

A prestação de contas é realmente o momento mais temido por aqueles que se aferram aos seus direitos e privilégios, porque eles sabem que ter cada uma das suas ações fiscalizadas é uma prerrogativa dos pobres, dos oprimidos e dos desamparados — eles sabem muito bem que ser privilegiado é não ser julgado. E o julgamento em geral recai sobre as mulheres, e não sobre os homens. Em uma sociedade patriarcal, as mulheres são responsabilizadas com ostensiva regularidade, a ponto de serem agressivamente culpadas por coisas pelas quais elas não são responsáveis, mesmo no âmbito político, onde é comum vermos as falas e ações sofrerem um escrutínio muito mais rigoroso quando partem de uma mulher. Tanto que é uma pergunta recorrente: e se uma mulher tivesse usado a mesma retórica de Donald Trump? Não é lá muito verossímil imaginar que ela continuaria na Casa Branca por tanto tempo quanto ele, talvez ela não conseguisse nem mesmo se eleger. E é, na verdade, uma comparação até difícil de visualizar. Para chegarmos nela, no entanto, basta observarmos toda a vigilância em torno de Hillary Clinton: embora ela não seja de maneira alguma uma política sem defeitos, Hillary Clinton recebia olhares muito mais críticos do que os direcionados para Trump quando sua campanha eleitoral “saía dos trilhos”. E temos também Alexandria Ocasio-Cortez, congressista norte-americana do partido democrata, de origem latina, que enfrenta constantes abusos com base em questões de gênero. Ainda assim, no final das contas, a conclusão é uma só: independente de serem homens ou mulheres concorrendo para os cargos de liderança política, todos eles estão tomando decisões que afetam muitas e muitas pessoas ao redor do planeta e portanto devem ter seus atos avaliados de maneira igualitária.

O que nos traz de volta para um dos elementos centrais do problema. Neste nosso deteriorado contexto, cada vez mais homens estão cometendo atos políticos de violência nos Estados Unidos, o que é reflexo de um complexo processo histórico. No entanto, o que vemos é que, embora o terrorismo seja constituído por atos de violência em busca de objetivos políticos, a mídia não é capaz de compreender as barbáries provocadas por homens vinculados a movimentos de supremacistas brancos como terroristas. Pelo contrário, a mídia perpetua a ideia de que atos terroristas são ações politicamente violentas cometidas somente por minorias muçulmanas — quando, por exemplo, temos um evidente ato de terrorismo doméstico em casos como o de Cesar Sayoc, o “Homem-Bomba dos Correios”, que, em outubro de 2018, foi acusado de fazer ameaças e enviar dispositivos explosivos a proeminentes políticos democratas, a figuras ligadas à filantropia e à sede da CNN em Nova Iorque (um ataque contra alvos que se apresentam como declarados oponentes de Donald Trump, diga-se de passagem). Na prática, esses atos políticos de violência são rotulados como crimes executados por “lobos solitários”, ou seja, alguém que age sozinho e não é motivado por uma ideologia política. Mas quantos ataques violentos de lobos solitários vamos ter que aguentar até que as pessoas finalmente associem uma ideologia política a eles? Não importa que essa violência seja fundamentada na supremacia branca ou em questões de gênero, ou até em ambos, esses atos são políticos e se desenvolvem através de pactos de masculinidade, e não através de lobos solitários.

De fato, homens em todo o mundo estão recorrendo à violência política como uma maneira de se reconectar com a sua masculinidade, na esperança de se sentirem empoderados e “fortes”, achando que assim vão alcançar o ideal de como um homem deve ser: alguém que luta pelo que acredita, alguém que arriscaria sua vida e/ou tiraria uma vida para proteger o que considera ser dele. O problema é que, neste caso, o que está sendo retirado dos homens é o sentimento de direito adquirido, justamente o que, na própria base da questão, provoca esse tipo de violência política.

E aí é inevitável dizer: a verdade é que o patriarcado mutila o poder da maioria dos homens. Claro, é um sistema que concede privilégios ao sexo masculino, mas ele não favorece todos os homens da mesma forma — os benefícios do patriarcado são reservados apenas para poucos integrantes de uma elite, uma suposta classe superior de homens, como vamos discutir nos capítulos 6 e 7. O resto basicamente precisa batalhar pelas sobras, o que, de modo geral, se traduz como uma ilusão ou uma falsa noção de direito adquirido, um sentimento de privilégio e uma falsa percepção de superioridade, em especial na política, já que aqueles que decidem as guerras e os conflitos diplomáticos nunca são os mesmos que lutam e morrem nos combates. Para piorar, assim como o patriarcado enfraquece os homens, ele enfraquece as mulheres em um grau ainda maior. E, por isso, muitos homens se agarram a essa ilusória sensação de direito e privilégio, como uma maneira de se sentirem superiores às outras pessoas. É como estar preso em uma casa em chamas, mas sem entrar em pânico ou procurar uma saída, simplesmente porque você ainda não está pegando fogo.

Produto

  • Seja Homem: A Masculinidade Desmascarada
  • J.J. Bola
  • Dublinense
  • 176 páginas

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