Será que Isso Presta? — Gama Revista

Trecho de livro

Será que Isso Presta?

Assim como na série que leva seu sobrenome, Jerry Seinfeld extrai humor do cotidiano em livro que inclui textos escritos ao longo de décadas

Leonardo Neiva 02 de Abril de 2021

POR QUE LER?

Será que isso presta? É a pergunta que todo comediante faz a outro comediante antes de se atirar no palco — e aí, seja o que o público quiser. Daquele monte de ideias que parecem ter vindo do nada e levar a lugar nenhum, pode bem estar nascendo uma verdadeira joia da comédia stand-up. Ou não.

E poucas pessoas têm mais autoridade para falar sobre o tema do que Jerry Seinfeld, considerado por muitos o verdadeiro papa do gênero. Criador e protagonista de “Seinfeld”, uma das séries de comédia mais bem-sucedidas da televisão americana, ele decidiu reunir em um livro alguns de seus melhores textos, todos escritos para os palcos.

Com um repertório de apresentações que evita palavrões, piadas sujas e questões políticas, assim como em sua série, ele prefere extrair humor de pequenos episódios cotidianos. Como da vez em que se deparou com a escova de dentes usada de Neil Armstrong exposta em um museu. Ou daquelas várias em que deixou o tempo passar para não precisar ir até a academia.

Divididas em cinco décadas de trabalho intenso no ramo — de 1970 a 2010 —, as pequenas amostras de humor são pontuadas com histórias sobre a vida e a trajetória profissional do comediante, do palco para a TV e, após o final da série, da TV novamente para os palcos.

Para dar um gostinho de como as tiradas de Seinfeld evoluíram com o passar do tempo, selecionamos um texto para cada década.


Anos 1970 – Pijamas

Não sei por que ternos projetam tamanha imagem de poder.
Por que eles intimidam tanto?
“Melhor fazer o que esse cara está dizendo, a calça dele combina com o paletó.”
Homens amam tanto seus ternos que chegamos a conceber pijamas que parecem terninhos.
Três botões à frente.
As lapelas pequenas.
Bolso no peito da camisa.
Para quê?
Você bota um lápis ali dentro.
Se vira na cama no meio da noite.
Acaba se matando.

Anos 1980 – A escova de dentes de Neil Armstrong

Outro dia eu estava no Museu Aeroespacial do Smithsonian.
Lá eles montam exposições de todo tipo sobre astronautas.
Mostram até a comida que eles comeram.
A escova de dentes de Neil Armstrong está exposta.
Numa redoma de vidro.
Abaixo, diz uma placa:
“Emprestada por Neil Armstrong.”
E eu só pensando:
Neil… dá a escova para eles.
Tipo, esse pessoal levou ele até a Lua.
De graça.
Arruma. Outra. Escova.
Caramba, pedem a escova para ele e a resposta é:
“Eu posso emprestar.”
Será que ele vai até o museu de noite só para usá-la?
De roupão, pantufas e com uma pasta de dente na mão.
“Vou precisar da escova…
… todo mundo já olhou para ela o suficiente.”

Será que ele vai até o museu de noite só para usá-la?
De roupão, pantufas e com uma pasta de dente na mão.

Anos 1990 – O Cara da Noite/O Cara da Manhã

Acho que o segredo da nossa grande economia americana é a propaganda incansável e irritante. E nossa burrice natural.
Esses fatores funcionam muito bem juntos.
Vi o comercial de uma loja de colchões.
“Só começa a pagar em junho.”
Porque eles sabem como a gente vai reagir.
“Ah, junho… pfff…
Bom, então não é problema meu, né?
Além disso, provavelmente junho nunca vai chegar.
E se chegar, é problema do Cara de Junho.
E daí que estou totalmente falido hoje?
Tenho certeza de que o Cara de Junho vai ter arranjado dinheiro de alguma forma.
E ele gostaria que eu curtisse minha vida agora, certo?”

É a mesma coisa quando estamos vendo TV de madrugada.
“E o trabalho amanhã?
Você levanta cedo.
Vai ter um dia cheio.”
“Ah, isso é problema do Cara da Manhã.
Eu sou o da noite.
Não me preocupo com isso.
Eu vou para festas.
Caio na farra.
Pode mandar vir o próximo episódio e abrir uma nova caixa de biscoitos de chocolate pra mim e minha gangue!
Sou o Cara da Noite!”
Aí amanhece.
Toca o despertador.
Você está um caco.
A cama cheia de farelos.
“Aaai…. por que eu fui fazer isso?
Eu te odeio, Cara da Noite!”
O Cara da Noite sempre ferra o Cara da Manhã.
Ele acaba virando
O Cara do Café o Dia Todo.
Que por sua vez vira
O Cara que Não Consegue Dormir À Noite.
E então
O Cara que Não Dá Conta do Trabalho.
Até virar
O Cara Desempregado.
Você acha que O Cara da Noite se importa com isso?
Que nada.
Está dormindo num colchão novinho em folha,
cortesia do
Cara Que Só Começa a Pagar em Junho.

Anos 2000 – Academia

Eu deveria ter ido à academia hoje.
Não fui.
Tudo bem.
Eu sei que a maioria de vocês também não foi.
Não é difícil faltar à academia.
Acho que dá para dizer
que exercício é provavelmente a coisa mais fácil de não fazer no mundo.
O que é preciso fazer para faltar à academia?
Nada.
Só deixar algum tempo passar e constatar:
Aaah, agora não dá mais…
Eu pretendia ir.
Era o meu plano.
Mas olha a hora… não dá mais.
Não tenho mais como ir.

Acho que dá para dizer que exercício é provavelmente a coisa mais fácil de não fazer no mundo

Andei até pensando
se eu não deveria procurar uma academia mais perto de casa.
Assim eu poderia ir mais vezes.
Mas não iria.
Só ficaria esperando mais tempo
para conseguir não ir.

Anos 2010 – Criação moderna de filhos

Não sou lá muito fã de como a atual geração de pais cria os filhos,
e eu me incluo nisso.
Não faço ideia do que aconteceu, mas, por alguma razão,
todos nós passamos a nos interessar um pouco demais pelo processo.
Onde a gente aprendeu isso?
Quando a gente era criança, nossos pais cagavam pra nós.
Lembra como era na sua infância?
Você nascia em meio àquela gente.
Morava na casa deles.
No dia em que saía de casa, olhava ao redor e pensava:
Que loucura.
Não entendi 90% dos últimos dezoito anos.
Mas curti.
Vou voltar para visitar
o mínimo de vezes possível.
Foi bom fazer negócios com vocês.

(aperto de mão)

A gente mal podia esperar para ir embora daquela casa.
Nossos filhos mal podem esperar para continuar exatamente onde estão.
Sabem que não tem nada melhor lá fora.
Quando os meus eram pequenos, botá-los para dormir toda noite
parecia o Centenário do Jubileu de Prata da Coroação Real.
Ou ao menos a quantidade de passos e instâncias a observar era a mesma.
Primeiro a minha esposa e eu segurávamos a cauda dos roupões de banho deles
para não encostarem no chão
(um passo de cada vez, como se fosse o vestido de casamento da realeza),
tudo isso para ir do corredor até o banheiro,
onde ocorriam as cerimônias de escovação dos dentes, aplicação de fio dental, de antisséptico bucal e colocação de aparelho.
E dali para os quartos,
onde se faziam os arranjos de travesseiros,
o ajuste dos cobertores
e o semicírculo de apoio emocional dos animais de pelúcia.
Tudo para ajudar aqueles cretininhos a aguentar nove horas e meia sem necessidade de reforço positivo constante.
Eu tinha que pegar oito livros imbecis diferentes para cada criança.
Sabe qual era o nome da historinha que me contavam para dormir?
ESCURIDÃO.
Meu personagem favorito era a ausência completa de luz.
Esse era o livro que eu lia toda noite.

A gente mal podia esperar para ir embora daquela casa. Nossos filhos mal podem esperar para continuar exatamente onde estão. Sabem que não tem nada melhor lá fora

Produto

  • Será que Isso Presta?
  • Jerry Seinfeld
  • Intrínseca
  • 480 páginas

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