Trecho do livro Sobre o tempo — Gama Revista

Trecho de livro

Sobre o tempo

Livro em que Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura falam sobre suas memórias, a vida e a passagem do tempo ganha nova edição

27 de Junho de 2020

POR QUE LER?

Mais de dez anos se passaram desde que Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura se encontraram em uma fazenda em Areal, no interior do Rio de Janeiro, para cinco dias de infinitas conversas — e muitos mais desde que a amizade de longuíssima data entre dois dos maiores escritores brasileiros começou, no apartamento de Verissimo em Paris. Assunto não faltou nesse breve retiro, proposto pelos editores da dupla para que o bate-papo, mediado pelo jornalista e também amigo Arthur Dapieve, se transformasse depois em livro.

A ideia deu certo, e a primeira edição de “Sobre o Tempo” saiu em 2010. Relançado agora para inaugurar a coleção Conversa Afiada da editora Agir e com prefácios inéditos dos autores, o título não envelheceu. Afinal, além de compartilhar memórias, eles versam sobre temas universais — família, amizade, paixões, política, literatura, morte —, sempre com o olhar analítico, filosófico e reflexivo de grandes intelectuais. O leitor, no entanto, não se intimida; ao contrário: o formato de livro-diálogo é um convite a participar daquela turma, como que compartilhando uma (saudosa) mesa de bar.


LFV Acho que, independentemente dessas perdas, pensar na morte é uma constante. A partir de uma certa idade, a gente pensa constantemente na morte. Na inevitabilidade da morte. É inevitável que os mortos, principalmente os amigos, no caso do José Onofre, que era bem mais moço do que eu, só agravem essa preocupação, essa presença da morte constante no pensamento da gente. Não sei se isso é uma coisa normal. Mas eu acho que a partir dos trinta anos o pensamento da morte é constante.

ZV Tem uma coisa que em algumas dessas mortes me bateu assim. Me lembro muito do Paulo Pontes, o Paulinho. Ele teve um câncer bravo. Eu me lembro dele no hospital. Nas suas últimas semanas de vida, eu estava muito próximo dele. E ele me cobrando: “faz alguma coisa”, desesperado com a dor. Paulinho era uma pessoa com muita liderança no grupo, uma pessoa que comandava. Ele exigindo que eu fizesse alguma coisa por ele, e eu sem poder fazer nada. Ali, era a impotência, né? Outro sentimento de impotência foi com o próprio Leon Hirszman, de quem estive muito próximo. Ele morreu de Aids num momento em que a Aids ainda tinha estigma. E eu tive de fazer o obituário do Leon. Eu que escrevi o artigo no Jornal do Brasil falando da morte dele. Foi difícil pra mim dizer que ele tinha morrido de Aids. Ao mesmo tempo, ao dizer isso eu fui mal compreendido por uma porção de gente, uma porção de amigos que achavam que eu não podia ter feito aquilo, que era uma traição dizer publicamente que ele tinha Aids. Eu achava que era a maior homenagem que eu prestava ao Leon, porque ele era exatamente uma figura que perseguia a verdade. Poucas vezes eu vi em outras pessoas essa busca da verdade, a verdade histórica. Eu achava que esconder aquilo seria uma hipocrisia. E ele lutava muito contra a hipocrisia. Era um cara muito franco, muito aberto. Mas eu me lembro da impotência de se estar diante da inexorabilidade da morte, da insensibilidade da morte que vem. Então, isso tudo bateu muito em mim, em alguns desses casos. Engraçado, mais do que da morte, por exemplo, eu tenho medo do sofrimento. O sofrimento é uma coisa que eu temo. Realmente, eu não tenho essa coisa da morte, eu não me preocupo. Agora me preocupa muito a possibilidade de sofrer. Troco qualquer morte por não ter de sofrer, nem que seja pouco tempo. O Paulinho, o Leon sofreram muito. Você ali assistindo àquele sofrimento e sem poder fazer nada por eles. Eu tive outra situação dessas, que foi a morte da minha mãe. Minha mãe morreu de câncer. No final, ela sofreu muito. Sofrendo, sofrendo, sofrendo. Houve um momento em que o médico não tinha mais como dar injeção e me perguntou se deveria continuar tentando na veia do pé (não tinha mais lugar em nenhuma das veias), ou se, enfim, abreviasse o sofrimento. A eutanásia, né? Eu tive de decidir isso. Eu estava no quarto com ela e quis chamar os meus irmãos para fazer essa consulta. Eu não aguentava mais vê-la sofrendo. Ela já não reconhecia as pessoas, só tinha consciência da dor. Só a dor, a dor, a dor. Eu então pensei em autorizar a não dar a injeção, e ela iria morrer. Claro, até hoje penso naquilo. É difícil. Esse sentimento de impotência, isso aí é realmente o que mais me ficou dessas situações.

LFV Que idade você tinha?

ZV Foi em 1957. Foi no ano em que eu ia me formar na faculdade de Filosofia, no curso de Letras Neolatinas. E ela tinha se sacrificado a vida toda para os filhos estudarem. Ela estava participando da festa de formatura. Eu já tinha trinta anos, acho que por aí. Então, foi um horror. Por seis meses. O que determina? Quem baixa essa ordem, que tem de ser agora? Mas é diferente do seu sentimento em relação à morte, quer dizer. Uma vez eu perguntei ao Luis Fernando o que ele acha da morte. “Eu sou contra”, ele disse. (risos)

LFV Vamos combinar não morrer, né?

ZV Mas é uma coisa que bate muito em você, a morte, a possibilidade da morte.

LFV Sem dúvida. Porque no meu caso não tem o consolo da religião, de pensar na vida depois da morte. Tem que aceitar que a morte é o fim. Isso transforma a vida numa grande piada. Saber que tudo acaba. Não tem depois. Não tem sentido. A morte torna a vida sem sentido. Por isso eu invejo as pessoas que têm convicção religiosa, é um consolo. Elas podem viver como se a vida tivesse sentido, apesar da morte.

ZV Pelas mesmas razões eu também não acredito em vida depois da morte. Não tenho religião. Já tive muito, mas isso é outra história para conversar depois. Mas eu não me preocupo porque eu acho “bom, como eu não vou ter consciência, se não tem nada do outro lado, se é um sono que não termina, então, tudo bem”. Pior é se eu fosse ter a possibilidade de lamentar do outro lado a perda da vida. É uma coisa meio maluca, mas me bate assim.

AD É uma vantagem não pensar numa transcendência.

ZV Então, em vez de ter essa angústia, uma angústia metafísica, é o contrário. “Olha, já que eu não vou saber, eu vou dormir um dia e não vou acordar.” Por isso, eu falo da consciência do padecimento, do sofrimento, da possibilidade. Quando vejo um desastre de avião, a primeira coisa do acidente que eu quero saber é se as pessoas…

AD …sofreram.

ZD Se sofreram. Se pressentiram a morte. Explodiu, bum, que bom.

AD A morte é imediata.

ZV Então não tenho medo de avião, o meu medo é cair dentro do mar, por exemplo, e ser comido por tubarões. Tenho umas fantasias malucas. Entendeu? É isso. Não ter consciência, pra mim, resolve todo o problema.

AD Tem um amigo meu que diz que a nossa morte não existe pra gente, existe para os outros.

LFV Exatamente. Para a vida dos outros, a nossa não.

AD Você estava falando há pouco que a morte tira o sentido da vida, a torna uma grande piada. Eu estava lembrando de uma frase sua, que até aparece de vez em quando nos seus textos. Você está falando de qualquer assunto, mas aí diz assim: “Mas evidentemente isso não tem a menor importância porque daqui a cinquenta anos estaremos todos mortos”. Ou daqui a cem anos estaremos todos mortos. Ou daqui a cinco milhões de anos o Sol se apaga. Isso ao mesmo tempo nos dá uma responsabilidade diferente, inclusive na relação com os amigos. É uma coisa meio existencialista, meio sartriana.

LFV É. O Sartre dizia ter a consciência do absurdo da vida e, ao mesmo tempo, viver como se a vida tivesse sentido. Quer dizer, ter um comportamento, enfim, moral, ético, o que seja, como se nós fôssemos ser cobrados depois, mesmo sabendo que não.

Produto

  • Sobre o tempo
  • Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo, com Arthur Dapieve
  • Editora Agir
  • 256 páginas

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