O universo paralelo de OSGEMEOS — Biografia Visual — Gama Revista
Biografia Visual

O universo paralelo de OSGEMEOS

Luara Calvi Anic 29 de Março de 2020

Quando OSGEMEOS eram apenas dois gêmeos de 11 anos de idade, eles desenhavam sem parar e criavam maquetes distópicas no meio da sala de estar da casa. “Eram horas, dias, meses construindo um universo para depois destruir”, diz Gustavo Pandolfo. “A gente ia brincando, recriando, queimando, cortando.”

Desde a infância, a dupla vem desenhando um mundo próprio. Aos poucos, ele foi sendo habitado por seres amarelos, letras gorduchas e paisagens coloridas. “A gente acredita que veio desse lugar dos nossos desenhos. Somos um instrumento para ilustrar a maneira como a gente enxerga o mundo”, explica Otávio. Durante a entrevista para Gama, a expressão “a gente” foi usada 304 vezes em uma hora de conversa — resultado dessa vida e carreira construída a quatro mãos, há 46 anos.

Esse lugar imaginário e físico criado pelos irmãos poderá ser mais profundamente entendido na mostra “OSGEMEOS: Segredos”, que vai ocupar, ainda este ano*, sete salas da Pinacoteca do Estado de São Paulo com pinturas, instalações, cadernos de desenho. “A gente vai mostrar o que fizemos para chegar até aqui. Isso tudo partiu da nossa infância, da maneira como a gente brincava, de crescer no Cambuci, do contato com o hip-hop”, diz Gustavo, lembrando que desde cedo eles dançavam break, cantavam rap, faziam grafite e colecionavam discos do estilo musical.

Há cerca de quatro anos, Otávio e Gustavo voltaram a explorar seu repertório sonoro produzindo música e tocando como DJs em festas como a paulistana Gop Tun. “A gente mergulhou tanto nessa coisa de pintura, vivemos isso duzentos por cento. Só que agora sentimos a necessidade de dar um respiro, deixar isso de lado e fazer música, se preocupar em escolher uma música boa pra tocar”, diz Gustavo. “É um outro universo paralelo esse aí.”

Parte da produção da exposição estava sendo finalizada quando a equipe da Gama chegou ao ateliê da dupla com uma tarefa: que eles escolhessem dez objetos capazes de contar a história de vida dos dois. Nesse espaço lotado de tintas, tralhas, discos de vinil, canetas coloridas e um boneco amarelo deitado sobre uma mesa estavam também os dez objetos. Sem conversa, em silêncio, eles foram escolhendo cada um dos itens a seguir. Alguns deles estarão também na mostra da Pinacoteca.

1 | Caixa mágica

“Esta caixa é muito especial. Era do nosso avô Albino, um imigrante lituano que veio pra cá em 1926 para trabalhar em lavoura, e depois mudou para o Cambuci. Ele foi um personagem muito importante na nossa vida. Naquela época, você tinha que saber consertar tudo: a televisão, o rádio, trocar um fusível. Tudo ele mexia, desmontava. E ia colocando no armário as pecinhas, as coisinhas todas. A única coisa que sobrou foi essa caixa, com tudo que está dentro. Aqui no estúdio a gente acredita que, se está faltando uma peça, uma argolinha, um parafuso, um prego, pode ir na caixa dele que tem! Nos anos 1980, a gente não tinha muitas coisas para se distrair que nem a molecada tem hoje, celular, internet. A gente se distraía com algumas coisas que meu vô tinha na casa dele. Por isso, essa caixa tem muito significado. Foi uma infância muito criativa.”

2 | Baleia sobrevivente

“A gente dividia todos os brinquedos. A baleia era o favorito e ainda é um dos animais que a gente mais gosta. O olhar e o canto dela são muito mágicos. A gente assistia muito ‘Ultraman’ e ‘Ultraseven’, seriados de TV dos anos 1970, e existia um monstro que destruía uma cidade inteira. Entendemos logo que aquilo era mentira, que era um cara fantasiado de monstro e que a cidade era feita de maquete. Decidimos fazer isso também: construir nossas maquetes, nossos lugares, nossa cidade. Construíamos um universo na casa dos nossos pais para depois destruir e pôr fogo, literalmente. Era uma casa bem pequena, mas a sala inteira virava uma instalação. Sobraram alguns brinquedos, como a baleia. Não destruíamos por destruir, mas para recriar. Acho que isso vem do meu avô. Ele tinha um aparelho de som funcionando, desmontava pra ver e aí nunca mais montava. Mas virava outra coisa, ele tirava a válvula, tirava tudo e guardava.”

3 | Pintura a jato

“O Colorjet foi um dos primeiros sprays que a gente viu na vida. A gente cresceu nesta rua [onde hoje fica o ateliê, no bairro do Cambuci]. Em 1983, tinha uma turma aqui chamada Fantastic Break e, enquanto a gente estava de um lado da calçada brincando de carrinho de rolimã, jogando taco, eles estavam do outro dançando break. E a gente começou a prestar atenção nisso e a querer fazer igual. Não sabíamos o que era hip-hop. Até que meu pai conseguiu uma fita de vídeo do filme que estava no cinema, ‘Breaking’ [1984], que era sobre os b-boys da Califórnia. Ficamos malucos. A gente sempre desenhou, mas aí entendeu que no hip-hop tem grafite. Um noite, vimos essa turma pintando a parede em frente de onde hoje é ateliê. A gente tinha uns 11 anos e encheu o saco dos nossos pais pedindo uma lata de spray. Minha mãe comprou uma verde e uma roxa para cada um. Às vezes, pintávamos de látex, que era barato, e só o contorno era de spray, para não gastar tanto.”

4 | Para dançar o charme

“Este foi o primeiro boombox que a gente teve. Era uma coisa cara, difícil de ter na época. Com muito suor, minha mãe e meu pai conseguiram comprar. Era legal porque a gente gravava as rádios e editava fita cassete. Dava para gravar ao vivo também. Temos essas fitas até hoje. A gente ia para o Rio de Janeiro porque nossos tios moravam lá e na rádio passava um monte de programa bom. Hoje eles chamam de funk, mas na época era o charme, estilo de música que às vezes a gente usava pra dançar. Dançamos break por 20 anos. Nosso primeiro disco conseguimos depois que o dono de uma loja viu que a gente era vidrado naquilo. Ele falou: ‘Se fizeram um show aqui, eu dou um disco pra vocês’. A gente ficou dançando na porta da loja do Shopping Ibirapuera pra ganhar o vinil de ‘Break Dance Special’.”

5 | Crew do vinil

“A gente cresceu com música. Dentro de casa, era o Arnaldo, nosso irmão mais velho, ouvindo rock and roll, Led Zeppelin, Pink Floyd. Na rua, era hip-hop; e, na casa do meu avô, ópera, que ele ouvia no talo e deixava os vizinhos e minha avó malucos. Meu avô tinha também uma coleção de discos, porque ele trabalhou em uma fábrica de vinil. Ele trazia disco para casa e a gente pegava pra fazer scratch [som emitido com a agulha raspando no disco]. Até que nós também começamos a colecionar. Este disco do ‘The Rock Steady Crew’ [1983], que estará na exposição da Pinacoteca, é legal porque marca uma época. É uma turma de break que influenciou todo mundo do hip-hop. Quem fez a capa é o Doze Green, a gente ficava vidrado por causa do estilo do desenho dele, que é muito original. Na época, havia poucas referências para você ver uma obra feita por um grafiteiro, como é o caso dessa. Mas conseguir isso na época era impossível, a gente foi ter este disco muito tempo depois. Desde essa época a gente foi comprando disco e guardando.”

6 | 808 e mais nada

“A gente sempre teve paixão por tocar. Usamos um pouco de tudo para produzir música, como esta bateria eletrônica Roland 808. A 808 é um ícone, você não precisa de mais nada. No começo dos Racionais MC’s [1988], tinha uma bateria dessas que todo mundo usava. Todos os beats eram iguais. A gente cantou rap com esse beat, o KL Jay e o Edi Rock cantaram rap com esse mesmo beat. Foi muito importante pra gente ter vivido essa coisa do hip-hop lá atrás. Olha quanto influenciou o mundo em todos os sentidos: na moda, na música, na pintura, nas artes plásticas, na performance. É uma cultura que, quando a gente se deparou com ela, vieram milhões de outras bandeiras dentro de uma cultura só.”

7 | Canetão analógico

“O canetão foi um presente que um amigo nosso de São Francisco, Barry McGee [grafiteiro americano], trouxe para o Brasil em 1993. A gente nunca tinha visto um canetão desses, aí ele explicou que isso era um canetão que os caras usavam nos anos 1970 pra escrever dentro do metrô. Cozinhavam papel carbono com álcool e outros químicos e colocavam dentro desse compartimento de plástico. Hoje tem spray, loja só para grafite. Antigamente, tinha que improvisar com o que tinha, pintava parede com spray automotivo, essas coisas.”

8 | Conexão Cambuci Alemanha

“O trem é uma referência da primeira vez que a gente foi pra Alemanha, em 1999, a convite de dois artistas, Peter Michalsky e Matias Khoner, o Loomit. Eles vieram pra cá porque viram um trabalho nosso numa revista que saiu na Alemanha. Nunca ninguém tinha vindo pra cá pra poder pintar com a gente até então, a não ser o Barry McGee, que tinha vindo em 1993. Eles vieram e depois levaram a gente pra Alemanha pela primeira vez. Significa essa fase da nossa vida de Europa. Primeira vez que a gente foi pra lá [ao longo da carreira deles, os irmãos também receberam convites para criar para os principais espaços públicos de mais de 60 países].”

9 | Nova York sitiada

“O Cheech Wizard é um personagem de quadrinho dos anos 1970 que influenciou toda uma geração de grafiteiros em Nova York, que pintava os metrôs. Todo esse estilo de grafite, o traço e o brilho da letra, os personagens, os bonequinhos que os caras pintavam, veio tudo desse cartunista. Os grafiteiros pegavam esse gibi e copiavam os personagens no trem. Isso influenciou uma geração de artistas de grafite, a gente também se influenciou por ele um pouco. Conhecemos na estação São Bento [São Paulo], onde ficava o pessoal do hip-hop. Quem nos apresentou foi outro grafiteiro chamado Zélão, que era uma referência por lá, mas já morreu. Ele, na época, conseguiu um gibi desses. Esse cara aparecia com livros que tinham saído em Nova York na época, ninguém entendia como. Ele deu pra gente uns desenhos originais e umas páginas de alguns livros.”

10 | Diário de bordo

“Os cadernos de desenho são dos dois. Sempre acompanharam a gente paralamente à música, à dança, na escola. Desenhamos todos os dias neles, é um diário. A gente fazia os cadernos em vez de comprar. Pegava vários tipos de folhas, encadernava, fazia a capa e pronto. Esta foto que aparece no caderno é com a nossa família no começo dos anos 1990. O mais legal disso tudo era a necessidade de expressar uma coisa dentro que não sabíamos como jogar pra fora, uma fuga, e a gente encontrou. Mas não por fama, por likes, por ser famoso, por viajar o mundo, nada disso. Sem querer nada em troca. A única coisa que a gente queria era olhar um desenho nosso e falar: ‘Olha, é o nosso estilo de desenho, não é igual aos outros’. Só isso.”

* A exposição, marcada inicialmente para ser inaugurada no mês de março, foi adiada devido à pandemia do coronavírus. Acompanhe as redes sociais da instituição para mais informações.

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