Joice Berth — Gama Revista
Questionário Proust

Joice Berth

Arquiteta e urbanista

01 de Junho de 2020

É também escritora e pesquisa sobre direito à cidade, sob a perspectiva de raça e gênero. É autora de “Empoderamento” (Pólen, 2019).

  • 1

    Qual é sua ideia de felicidade perfeita?

    Não alcançar a felicidade perfeita. Acredito que é a busca que nos eleva, que nos melhora como pessoas, seja lá o que estejamos buscando é pelo caminho que seguimos que vamos crescendo. Eu nem ao menos acredito que possa existir felicidade perfeita, porque somos estruturados principalmente pelo que nos falta. Então se pensar na ideia cristã de felicidade plena, não podemos nunca ter a felicidade perfeita, porque sempre sentiremos falta de alguma coisa e isso nos move para buscar aquilo que nos falta. Daí a gente se motiva e aprende muita coisa no decorrer dessa busca, seja ela interna ou externa.

  • 2

    Qual é o seu maior medo?

    Prejudicar as pessoas. Qualquer pessoa, mas em especial as que eu amo. E é bem complicado administrar esse medo, porque é praticamente impossível viver de acordo com o que a gente acredita e não magoar alguém e a mágoa pode ser extremamente prejudicial pra quem sente. Mas eu vivo atenta a isso.

  • 3

    Que característica mais detesta em você?

    Pensar demais só me atrapalha. Eu sou muito conectada com o mundo das ideias, mas, ao mesmo tempo, tenho sempre a insegurança com relação às minhas ideias e passo muito tempo presa a elas, pensando se são boas o bastante para serem externalizadas. Em muitos momentos isso é meu principal obstáculo, porque agir é necessário, ainda que existam riscos a correr. Pensar é muito bom, muito importante, mas se não transforma em ação a gente fica superficial demais.

  • 4

    Que característica mais detesta nos outros?

    Falta de transparência. Me enlouquece aquele tipo de pessoa que está sempre obscura, sempre escondendo coisas, sempre fazendo articulações ocultas. Eu acho que é muito melhor viver sabendo das coisas, mesmo daquelas que são desagradáveis. A falta de transparência é um veneno das relações de toda espécie. Segredos todo mundo tem e eu valorizo muito o recolhimento da intimidade, mas quando um assunto é coletivo, devemos prezar pelo “colocar todas as cartas na mesa”.

  • 5

    Que pessoa viva você mais admira?

    Nossa, muitas! Eu admiro muito a intelectual bell hooks. Pela coragem em exercer sua intelectualidade em uma contemporaneidade que está absorvida pela idolatria e rejeitando as verdades da existência humana e dos problemas sociais.

  • 6

    Qual é a sua maior extravagância?

    Sou muito contida, não tenho extravagâncias. Na verdade sou uma pessoa introvertida, vivo muito mais reclusa do que parece.

  • 7

    Qual é o seu estado mental atual?

    Estado de observação e alerta pra entender melhor o momento. Precisamos de lucidez pra isso e tenho tentado ficar mais quieta, refletindo sobre tudo e julgando pouco ou nada de maneira apressada.

  • 8

    Que virtude considera superestimada?

    A sinceridade. Na verdade não acho que seja exatamente superestimada, eu penso que seja abordada de uma maneira que beira a leviandada, porque todo mundo se diz sincero, mas na prática nós vemos muito dissimulação e grosseria passando por sinceridade. Tudo tem seus limites e precisamos entender, assim como também temos que criar ou retomar o hábito da buscar o verdadeiro sentido das palavras. Se levamos ao pé da letra, a sinceridade é a priorização da verdade na fala mas igualmente nas atitudes. Isso não significa dizer tudo o que pensa e sim dizer tudo o que pensa quando é necessário e solicitado que se diga. Em geral as pessoas emitem opinião que parte de suas crenças e dizem ser sinceras, mas não acredito em sinceridade sem senso crítico, empatia e visão abrangente.

  • 9

    Em que ocasião você mente?

    Não costumo mentir, costumo me dar o direito de não falar sobre coisas que acho inconveniente ou pessoais demais. A mentira é como uma droga, as pessoas viciam em mentir e uma mentira precisa de uma teia de outras mentiras para se sustentar. Então pensando na minha condição de humana, sujeita a desequilíbrios e descontroles dos meus defeitos, prefiro me calar quando não posso falar a verdade. Até porque em muitos momentos as verdades são relativas, tem lados diversos que dependem da visão de quem fala, então você pode achar que está dizendo uma verdade e estar mentindo para si ou para quem te ouve.

  • 10

    O que menos gosta sobre sua aparência?

    Eu gosto da minha aparência. Não porque acho que não tenha defeitos, mas porque aprendi a amar esses defeitos e enxergá-los como aquilo que me diferencia dos demais. Penso que tudo na gente informa o que a gente é ou pode ser, inclusive a aparência física.

  • 11

    Que pessoa viva você mais despreza?

    Bolsonaro e todas as pessoas que concordam com a perversidade dele. São realmente desprezíveis. Trump idem.

  • 12

    Que qualidade mais admira em um homem?

    São duas: coragem e delicadeza. Coragem de enfrentar o padrão de masculinidade que é essencialmente prejudicial a ele e a sociedade como um todo. Mas eles são induzidos a se deixar levar pelos privilégios sociais que esse padrão proporciona. Então é preciso muita coragem pra se desfazer do macho e ser apenas homem, no sentido mais humano da palavra. E delicadeza vem junto com essa transformação, pois deixa fluir o que um homem pode ter de melhor. As emoções masculinas são bonitas, a gente vê pela arte que o homem produz o quão profundo e empático eles podem ser, mas eles não trazem isso pra realidade deles, porque estão muito seguros e conectados com as benesses que a sociedade falopatriarcal reserva para os que exercem masculinidades padronizadas.

  • 13

    Que qualidade mais admira em uma mulher?

    Autonomia. Infelizmente a estrutura machista faz com que as mulheres abram mão de seus poderes pessoais em nome da aceitação masculina. E isso se dá de diversas formas, das mais visíveis às mais sutis. Somos ensinadas que nossa função é obedecer e se submeter. Até aquelas que parecem ter outra consciência sobre as implicâncias e dificuldades sociais da sua condição de gênero sempre vão atender esse ensinamento em algum momento. Vejo mulheres que parecem muito autônomas, mas que estão sempre se submetendo a algum tipo de controle masculino, em busca da aprovação masculina para validação de suas humanidade. Então a mulher que consegue ser verdadeiramente autônoma em pensamento e atitude tem minha inteira admiração.

  • 14

    De que palavras ou frases você abusa?

    De muitas! Eu amo as palavras e tenho uma relação intensa com elas! Eu abuso muito dos ditados populares, porque eles são sabedoria colocada de forma despojada, mas muito úteis e verdadeiras. É uma malícia com propósito.

  • 15

    O que ou quem é o maior amor da sua vida?

    Meus filhos são o grande amor da minha vida. Eles me ensinaram o valor do amor e principalmente que amor se constrói na convivência, na tolerância e no autoconhecimento. O amor não é condicional é construção diária e interminável. Eu jamais vou romantizar a maternidade, que é um ofício bem difícil, mas é uma das formas mais bonitas e perspicazes de compreender a dimensão da importância do amor.

  • 16

    Quando e onde você foi mais feliz na vida?

    Eu não sou uma pessoa saudosista então eu sempre penso que sou mais feliz no momento em que estou vivendo. Pra mim é um momento particularmente especial, onde me vejo uma mulher madura e consciente de meus limites, que me aceito e me compreendo, mas sem autoindulgência ou soberba. E estar em contato constante com tantas pessoas, especialmente mulheres, é como uma régua do meu desenvolvimento humano. Muitas vezes tenho que olhar pra trás pra resgatar reservas emocionais ou ensinamentos que eu nem lembrava de onde tinha saído e dispor em benefício de outras mulheres que me procuram para uma conversa ou me leem. E isso me dá uma grande satisfação: eu cresci emocionalmente e espiritualmente.

  • 17

    Que talento você mais gostaria de ter?

    Cantar. Gostaria de ter a potencia afetiva do canto da Elis Regina ou a imponência e personalidade do canto de Jovelina Pérola Negra. Porque a música é uma arte poderosa, que transforma pensamentos e acolhe. Sou rigorosa com meus gostos musicais porque entendo a dimensão espiritual dessa expressão artística, então eu admiro muito quem trabalha com isso.

  • 18

    Se você pudesse mudar uma coisa sobre você, o que seria?

    Eu mudaria a minha distração com os meus sentimentos. Sou capricórnio, com ascendente e lua em virgem e sempre tive muita dificuldade em reconhecer e entender o que sinto, mas principalmente expressar tudo isso. Então isso sempre dificultou muito minha relação com as pessoas e me fez tropeçar em alguns abusos que só depois eu percebia o quanto tinham me ferido. Hoje em dia eu sou melhor nesse sentido, mas gostaria de ter mudado isso antes.

  • 19

    O que considera sua maior conquista?

    Conseguir sobreviver com muita dignidade, sem me deixar deformar pelas dificuldades que uma mulher negra tem que lidar. A solidão da mulher negra é real, mas eu consegui tirar proveito dela pra me refazer das quedas e limitações, sem me tornar uma pessoa amargurada, ressentida, que deixa de ter fé e curtir a beleza das coisas, da vida.

  • 20

    Se você morresse e voltasse como uma coisa ou uma pessoa, o que você gostaria de ser?

    Eu seria peixe ou pássaro. São criaturas que simbolizam liberdade total e leveza, mas com personalidade.

  • 21

    Onde você mais gostaria de morar?

    Em lugares onde eu possa estar perto da água, do mar, do rio ou da cachoeira. Me faz muito bem o contato com a água, nem que seja só pra ficar olhando. Então lugares litorâneos, com belezas naturais, seriam minha escolha mais feliz.

  • 22

    Qual é o seu pertence mais estimado?

    Meu fone de ouvido, porque eu não vivo sem música.

  • 23

    O que você considera o nível mais baixo da desgraça?

    As limitações que as pessoas criam para não amar. Nem tô falando de amor romântico, relacionamento a dois, eu falo de modo mais abrangente. É legal gostar das pessoas, mas em geral há um cultivo da rivalidade, da inimizade, do distanciamento e das bolhas. E uma exigência pelas formas tradicionais de amor, como estar grudado o tempo todo pra provar que gosta. Amor pra mim é irmão siamês da liberdade, então as pessoas se amam mais e melhor quando são livres de pressões e imposições sociais.

  • 24

    Qual sua ocupação favorita?

    Pesquisar coisas. Adoro passar horas investigando assuntos, descobrindo coisas novas e novas formas de apresentar coisas já conhecidas.

  • 25

    Qual sua característica mais marcante?

    A autenticidade. E eu me orgulho muito disso.

  • 26

    O que você mais valoriza em seus amigos?

    A autenticidade e o desprendimento.

  • 27

    Quais os seus escritores favoritos?

    bell hooks, Maiakoviski, Micheliny Verunschk, Valter Hugo Mãe, Galeano, Virgínia Woolf, Fanon, Grada Kilomba, enfim, são muitos!

  • 28

    Quem é seu herói na ficção?

    A Feiticeira Escarlate, Dr. Estranho e o Pantera Negra.

  • 29

    Com qual figura histórica você mais se identifica?

    Luiza Mahin e Lima Barreto.

  • 30

    Quem são seus heróis na vida real?

    Minhas avós!

  • 31

    Quais são seus nomes favoritos?

    Caique, Priscilla, Marina e Camila, meus filhos.

  • 32

    O que você mais detesta?

    Gente ignorante e grosseira.

  • 33

    Qual seu grande arrependimento?

    Ter deixado a correria do cotidiano me tornar uma pessoa sedentária. Adoro atividade física, mas não consigo mais me dedicar.

  • 34

    Como gostaria de morrer?

    No meio de uma grande e refinada festa. E que a festa continuasse após minha morte.

  • 35

    Qual é o seu lema?

    Olha pra dentro de você com coragem!

É também escritora e pesquisa sobre direito à cidade, sob a perspectiva de raça e gênero. É autora de “Empoderamento” (Pólen, 2019).

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