O que o caso de Carol Solberg nos diz sobre o posicionamento dos atletas brasileiros? — Gama Revista
Atletas podem falar?
© Isabela Durão

A voz do atleta brasileiro

Após gritar “Fora Bolsonaro” em uma competição oficial de vôlei de praia, a jogadora Carol Solberg foi denunciada por sua fala. A denúncia esquentou o debate: atletas brasileiros podem se posicionar politicamente?

Daniel Vila Nova 04 de Outubro de 2020

Disputado em Saquarema, no Rio de Janeiro, o Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia voltou a ser jogado no último mês após paralisação por conta da pandemia. A dupla Carol Solberg e Talita garantiu a medalha de bronze do torneio.

Sem torcida, devido a pandemia do novo coronavírus, a saudação ao público ficou por conta da TV. Em transmissão da SporTV, vestida com o uniforme oficial da competição, um top amarelo com o símbolo do Banco do Brasil, Carol — que havia sido eleita craque do jogo — aproveitou os últimos segundos da entrevista para gritar “Fora Bolsonaro”. E então, o mundo desabou.

A fala, que não durou mais de cinco segundos, repercutiu de maneira estrondosa. Enquanto apoiadores do governo exigiam uma retratação e até um boicote, opositores da administração Bolsonaro celebravam a fala de Solberg.

No mesmo dia do ocorrido, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) já havia publicado em seu site uma nota de repúdio a manifestação de Solberg. A polêmica ganhou um novo corpo quando, no dia 28 de setembro, o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) do Voleibol optou por denunciar a atleta.

A denúncia é baseada nos Artigos 191 e 258 do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva), que versam, respectivamente, sobre “deixar de cumprir, ou dificultar o cumprimento de regulamento, geral ou especial, de competição” e “assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras deste Código à atitude antidesportiva”.

A ação do STJD levantou a preocupação de uma parcela significativa de jornalistas e fãs de esporte, que enxergaram na denúncia uma tentativa de censura. Em 2018, dois jogadores da seleção brasileira de vôlei, Wallace e Maurício Souza, comemoram uma vitória da equipe fazendo alusões ao número 17 — sigla do então candidato à presidência Jair Bolsonaro. Não houve qualquer tipo de denúncia contra os jogadores.

A agilidade com que a CBV e o STJD agiram para coibir Solberg não é coincidência. Nos últimos anos, o governo de Jair Bolsonaro vem cortando investimentos para esportes olímpicos e segundo Wagner Vieira Dantas, subprocurador geral do STJD do Vôlei que assina a denúncia contra Solberg, é possível que o Banco do Brasil, principal patrocinador do vôlei brasileiro há mais de 30 anos, não renove o patrocínio por conta da manifestação — o que ocasionaria em um prejuízo para a coletividade dos atletas.

Ainda em julgamento, Solberg pode encarar uma multa de até R$ 100 mil caso seja condenada, além de uma possível suspensão de seis partidas. Como comparação, tal valor seria o equivalente ao recebido pela atleta na soma das últimas 12 etapas do Circuito Brasileiro, disputadas ao longo de dois anos.

Gama tentou contato com Carol Solberg para esta edição e a resposta de sua mãe e treinadora, Isabel Salgado, é que em função da denúncia, “ela prefere não participar de nada enquanto isso não for resolvido”.

As mãos não atingem o que os olhos não veem

Com os recentes protestos dos atletas da NBA — que cogitaram encerrar a temporada atual em razão da violência policial contra a população negra americana –, o debate público voltou a abordar as manifestações políticas em eventos esportivos.

Para Breiller Pires, jornalista esportivo do El País e da ESPN, é comum que jornalistas, fãs, personalidades e influenciadores do meio esportivo cobrem atletas por uma postura mais combativa em relação aos debates sociais. “O caso de Solberg é emblemático para a discussão pois mostra que atletas correm um grande risco quando se manifestam politicamente.”

Juca Kfouri, jornalista esportivo e colunista da Folha de S.Paulo, concorda. “Bastou uma declaração como a que a Carol fez para que o mundo desabasse sobre as costas dela. Virou inquérito com possibilidade de punição, suspensão e multa. É por isso, entre outras coisas, que atletas pouco se manifestam.”

“O caso de Solberg é emblemático para a discussão pois mostra que atletas correm um grande risco quando se manifestam politicamente”

O interesse comercial muitas vezes fala mais alto. Ligas e entidades esportivas parecem não desejar ter suas marcas vinculadas a questões polêmicas. “A roda mercadológica que paga os atletas quer só o espetáculo. Em um mundo cada vez mais polarizado, o circuito esportivo sabe que um atleta politizado vai desagradar uma enorme fatia do público. Os patrocinadores não desejam isso”, diz Pires.

Para o jornalista, a estrutura do esporte desestimula o desejo por manifestações políticas. Utilizando o futebol — esporte mais popular do país — como exemplo, Pires explica que desde muito cedo é colocado na cabeça dos garotos que tudo o que é necessário para ingressar no mundo do futebol é se dedicar aos jogos, aos treinamentos e aos descansos. “Tudo o que foge do campo e da bola é punido. No futebol, sucesso é ser um atleta e não um cidadão.”

Com atletas abandonando o estudo para se dedicar exclusivamente ao esporte e uma cultura que, além de não só incentivar, pune a mobilização política, é possível entender os motivos pelos quais atletas brasileiros evitam se posicionar politicamente.

“Se queremos que eles se manifestem, precisamos criar um ambiente seguro onde eles saibam que não sofrerão retaliação nem que terão suas carreiras ameaçadas por se pronunciarem”, finaliza Pires.

Esporte e política se misturam?

A pergunta, por mais simples que pareça, gera um debate interminável. Há aqueles que acreditam que política e esporte devam ficar separados. O argumento, muitas vezes, é que o esporte é um momento de diversão, onde pessoas de diferentes credos, raças e opiniões políticas se juntam para celebrar. Seria justo que atletas, vestindo as cores de times de outras pessoas, forcem uma manifestação política que nem todos concordam?

Para Kfouri, é impossível separar esporte e política. “Até o jeito que alguém toma café da manhã é político. Quem prepara o café? A própria pessoa, uma pessoa que convive com ela, uma empregada ou um mordomo? A resposta já é um fato político, uma visão de mundo e uma forma de se comportar.”

O jornalista aponta para os cartolas de futebol que, cada vez mais, ocupam cargos políticos na sociedade. “Quantos cartolas não viraram deputados, prefeitos, senadores, governadores e até mesmo presidentes da república? Na Argentina, o que alavancou Macri a vida política nacional foi sua época como presidente do Boca Juniors.”

Kfouri vê com desconfiança aqueles que defendem a separação da política e do esporte, afirmando que o pior tipo de política é a que nega a sua existência. João Havelange, ex-presidente da Fifa e da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), é o melhor exemplo disso. O cartola assumiu a federação em 1974 e foi um dos principais responsáveis em tornar a Copa do Mundo um evento global extremamente rentável.

“Tudo o que foge do campo e da bola é punido. No futebol, sucesso é ser um atleta e não um cidadão”

Em contrapartida, Havelange também é creditado como um dos criadores da cultura de corrupção que se estende até hoje na federação. Em 2012, as falcatruas de Havelange foram expostas pela BBC e ele renunciou ao cargo de presidência de honra da Fifa, morrendo alguns anos depois.

“Havelange dizia que a Fifa era uma entidade suprapartidária que não fazia política. Isso permitia que ele andasse de braços dados com ditadores da África e da América do Sul, ignorando os crimes cometidos e só se importando em cuidar do futebol. Onde as últimas copas foram feitas? África do Sul, Brasil, Rússia e Catar. Países com democracias recentes e extremamente corruptas.”

Mesmo com os poucos posicionamentos políticos no esporte brasileiro — fenômeno que Kfouri entende como mundial –, o jornalista é otimista. “A repercussão dos posicionamentos políticos de atletas como os da NBA e da Carol Solberg são em função da raridade desse tipo de manifestação. Mas à medida que a democracia no Brasil se aprofundar, as exceções se tornarão coisas do dia a dia e isso não vai escandalizar mais ninguém.”

Com brasileiro, não há quem possa

Nomes como LeBron James, Lewis Hamilton e Naomi Osaka têm mostrado que é possível conciliar ativismo, alto nível de rendimento e alto ganho monetário. Principais nomes de suas modalidades, os atletas driblam patrocinadores e ligas e expressar suas opiniões políticas.

No Brasil, torcedores, atletas e até os próprios clubes vêm agindo cada vez mais de forma política. Até mesmo o presidente Jair Bolsonaro aposta no futebol como veículo político. É comum que o presidente faça aparições públicas com os mais variados uniformes de futebol. Do Sul ao Nordeste, é bem provável que Bolsonaro já tenha usado o uniforme do seu time. A estratégia do presidente parece tentar a aproximação com torcedores dos clubes brasileiros — evocando a imagem de um homem do povo — mesmo que no processo vista camisas de rivais.

Entretanto, não são todos os torcedores que estão felizes com o presidente. No mês de junho, a avenida Paulista foi tomada pelas torcidas antifascistas, que protestavam contra ações do governo Bolsonaro. O encontro foi marcado pela união das torcidas Corintianas e Palmeirenses em prol de um objetivo em comum.

Também esse ano, atletas, ex-atletas e jornalistas esportivos lançaram um movimento chamado “Esporte pela Democracia”. A iniciativa busca uma maior participação do setor esportivo na luta pela defesa da democracia e dos direitos humanos. Há também grande ênfase na luta antirracista, colocando o tema como uma das principais reinvindicações.

O Náutico, clube centenário de Pernambuco, também vem se preocupando com as questões raciais. Em setembro, o time lançou um novo uniforme inspirado no movimento “Black Lives Matter” e nos protestos antirracistas que tomaram o mundo. A ação serviu como uma retratação histórica, visto que o Náutico foi o último time pernambucano a permitir que negros atuassem em sua equipe.

Outra retratação histórica que aconteceu no mês de setembro foi a decisão da CBF de pagar o mesmo valor para mulheres e homens que atuam pela seleção brasileira. O movimento acontece após pressão de jogadores e ex-jogadores e encontra ecos no exterior. Nos EUA, a campanha “Equal Pay” — que pedia equidade salarial para a seleção americana feminina de futebol — ganhou notoriedade mas acabou sendo barrada na Suprema Corte americana.

Se relacionamentos homoafetivos são tabu na modalidade masculina, histórias de amor LGBTQI+ são celebradas na modalidade feminina. Na última semana, Cristiane Rozeira — maior artilheira da história das Olimpíadas — celebrou a gravidez de sua esposa nas redes sociais. Subvalorizado, o futebol feminino é palco para demonstrações politicas mais contundentes.

Se relacionamentos homoafetivos são tabu na modalidade masculina, histórias de amor LGBTQI+ são celebradas na modalidade feminina

No começo do ano, Marcelo — tricampeão mundial com a seleção brasileira feminina de futsal e campeão brasileiro com o Corinthians feminino — anunciou ao mundo que é um homem trans. Em setembro de 2019, logo após ser campeão com o Corinthians, ele optou por rescindir o contrato com o time para começar seu tratamento hormonal. Com 31 anos, o jogador sabe das dificuldades que enfrentará, mas ainda sonhar em atuar na modalidade masculina.

Seja no campo de futebol, na areia do vôlei de praia ou nas ruas, o esporte brasileiro é político por natureza, mesmo que não se considere. O próprio Neymar, tão criticado por sua omissão, se manifestou recentemente acusando um xingamento racista que sofreu ao final de uma partida. Nomes como Richarlison, Marinho, Ludmila, Ângelo Assumpção e Carol Solberg despontam como exemplos de atletas que tem a coragem de se manifestar politicamente. Cabe a sociedade brasileira garantir que tal direito seja protegido e estendido à medida que o tempo passe.