Conceição Evaristo: João Pedro e o genocídio dos negros no Brasil — Gama Revista
Chegamos no limite?

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Depoimento

A reinvenção contínua da morte para corpos negros

© Mario Ladeira / Trip editora

A morte do menino João Pedro durante operação policial carioca e o genocídio de pessoas negras no Brasil em um texto exclusivo para a Gama

Conceição Evaristo 24 de Maio de 2020

Certidão de óbito
Os ossos de nossos antepassados
colhem as nossas perenes lágrimas
pelos mortos de hoje.
Os olhos de nossos antepassados,
negras estrelas tingidas de sangue,
elevam-se das profundezas do tempo
cuidando de nossa dolorida memória.
A terra está coberta de valas
e a qualquer descuido da vida
a morte é certa.
A bala não erra o alvo, no escuro
um corpo negro bambeia e dança.
A certidão de óbito, os antigos sabem,
veio lavrada desde os negreiros
“Poemas da Recordação e outros Movimentos”, Malê Editora, 2017

A cruel atualidade do livro “O Genocídio do Negro Brasileiro: o processo de um racismo desmascarado”, de autoria de Abdias Nascimento, escrito há mais de 40 anos e reeditado em 2018, se torna constatável diante dos dolorosos acontecimentos dos últimos dias. Jovens corpos negros defrontam com a precipitação da morte. Um deles, João Pedro Matos, 14 anos, com o seu corpo negro estava “marcado para morrer”. O menino brincava no quintal da casa de seus familiares em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Estava guardado sob os olhares e os cuidados dos mais velhos. A casa, o quintal, o lugar da intimidade, o local de pertença do menino. Ali ele podia estar distraído, esquecer dos perigos do mundo. Esquecer, ou ignorar inclusive, que o seu corpo não sendo alvo seria o alvo de uma bala cega — o fuzil enxerga um corpo negro no escuro. E confunde tudo. Todo corpo negro é um sujeito em suspeição e por isso a abordagem deve ser lavrada à balas. Um corpo sob suspeição é uma vida que se apaga e mais nada.

Jovens corpos negros defrontam com a precipitação da morte. Um deles, João Pedro Matos, 14 anos, com o seu corpo negro estava ‘marcado para morrer’

Nenhum cuidado é preciso, a versão dos primos e amigos que estavam jogando bola com ele afirma que o corpo do menino foi carregado por eles próprios até o helicóptero policial. Houve, nesse caso, uma omissão de socorro, caso essa informação venha se confirmar. Segundo relato do pai, só depois de 17 horas de procura foi que ele localizou o corpo de João Pedro no Instituto Médico Legal. Corpos negros são apagados, mortos ou abandonados em suas condições de vida para morrer. Não há limites para se instituir a morte para corpos indesejáveis. E o estado brasileiro sabe operar a sua máquina mortífera muito bem.

O pai de João Pedro afirma que a policia matou um jovem que tinha um futuro brilhante pela frente, queria ser advogado. Apagou-se o presente de João Pedro Matos, pouco importando com o que veio antes. Seus pais, as demais pessoas de sua família, o cuidado para o menino estudar, a esperança de um futuro que não se dará mais. É como afirmou o Sr. Neilton Costa, pai do menino: “Eles não mataram só o João, mataram o pai, a mãe, uma irmãzinha de 5 anos”. Relatos informam que há a marca de 72 balas no interior da casa.

Sem exagero pode-se afirmar: a vulnerabilidade dos corpos negros se dá historicamente desde o processo de colonização do território africano. É só relembrarmos das viagens negreiras. É só relembrarmos do processo de escravização dos corpos negros de mulheres, homens e crianças. Alguns historiadores tratam a Guerra do Paraguai (1864-1870) como um momento em que corpos escravizados eram inscritos como “voluntários da pátria” e enviados a guerra como substituição de corpos que não podiam e nem queriam se arriscar diante da morte. Corpos antes escravizados tomavam o lugar de seus donos, de seus senhores, fazendeiros, religiosos. Os corpos inscritos nos lugares do poder, o Império queria salvaguardar.

Apresento algumas perguntas. Organizava-se um exército que não precisaria voltar? O sistema escravagista ainda seria tão rendoso, ou a instituição escravocrata estaria entrando em colapso? A história nos informa ainda da grande dificuldade para se chegar a um consenso sobre a indenização que o Império deveria oferecer aos proprietários dos escravos. A morte sempre esteve decretada para os minorizados pelo poder político.
A vulnerabilidade do corpo negro está sob as instância de um poder que determina o parco limite de nossa segurança. João Pedro não estava na rua, não estava em posição e nem em lugar considerado como suspeitos. Aparentemente estava resguardado e estava se a polícia não tivesse visto um grupo de corpos suspeitos. E por isso ele morreu.

E assim segue o racismo brasileiro promovendo o genocídio do negro brasileiro. Corpos são dizimados, abatidos como se fossem animais em caça

E por que na mesma semana, o jovem Rodrigo Cerqueira, 19 anos, foi morto, também vitima de uma operação policial, no Morro da Providência? Segundo relatos, o jovem, vendedor ambulante, estava numa fila de distribuição de cesta básica e os policiais chegaram atirando nele. Há sempre razões sem limites para atacar um corpo negro.

E o que dizer se um corpo negro não cabe em espaço educacional, em uma escola particular, de “excelência”, como afirma a senegaleza Ndeye Fatou Ndiaye. Aluna do Colégio Franco-Brasileiro, Ndeye Fatou sofreu ataques racistas de alguns de seus colegas pela internet. Ela não foi vítima da violência policial, mas foi vitima de uma violência simbólica, algo que maltrata, que fere a dignidade humana. Dentre as postagens racistas, uma das mensagens exibia a seguinte afirmativa: “Ela não é gente”. Há mil formas de produzir a morte. Racismo provoca adoecimento.

A estudante relata que é aluna do colégio desde os 5 anos de idade e que não é a primeira vez que sofre ataques racistas. Por ocasião do surto ebola na África, ouviu quando um colega gritou para que ela voltasse para África e que não viesse para cá com a doença. Uma irmã menor de Fatou estuda na mesma instituição. O pai, que é professor, Mamour Sop Ndiaye inquiriu a escola. E afirma que diversas vezes já foi chamado à instituição e que o pertencimento racial é sempre um foco de ataque à menina. A questão foi levada para o Conselho Tutelar, que irá decidir quais medidas deverão ser tomadas em relação aos jovens racistas, responsáveis pelas publicações.

Há mil formas de produzir a morte. Racismo provoca adoecimento

Causa-nos espanto, pois parece que a punição cairá sobre a vítima, uma vez que os alunos agressores continuarão na escola, para que medidas educativas recaiam sobre eles, enquanto Ndeye Fatou, segundo a vontade do pai, deixará a escola. Ele não sente ser o Franco-Brasileiro um lugar seguro para a sua filha. E não é. Há balas, há violências que atingem o emocional, o psicológico das pessoas.

E assim segue o racismo brasileiro promovendo o genocídio do negro brasileiro. Corpos são dizimados, abatidos como se fossem animais em caça. A dignidade das pessoas é agredida cotidianamente, inclusive no espaço da educação. Justamente o lugar que deveria ser exemplar na luta de combate ao racismo e de reconhecimento da diferença do outro como direito e não como um sinal de menos, permite-se que um aluno pergunte se uma colega negra é gente.

Relembrando que João Pedro Matos brincava em casa da família, no fundo do quintal, esquivando-se da rua, em respeito à quarentena, afirmamos que o Covid-19 também tem deixado mais à mostra o racismo brasileiro e suas consequências na estruturação da sociedade brasileira. Conhecemos a brutalidade dessa pandemia, como conhecemos o desejo e a prática genocida e eugênica da sociedade brasileira.

Conceição Evaristo é uma escritora mineira de 73 anos. Autora de seis livros, entre eles “Ponciá Vivêncio” (Pallas, 2003) e “Becos da Memória” (Pallas, 2006) em que trata especialmente da condição da mulher negra e de seus ancestrais. É doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense. Em 2019, recebeu o título de personalidade literária do ano pelo prêmio Jabuti e o Prêmio Trip Transformadores.