Limites elásticos e o que a pademia nos ensina sobre resiliência — Gama Revista
Chegamos no limite?

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Sociedade

Limites elásticos

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Em tempos de pandemia, resiliência virou termo chave: afinal, é preciso se adaptar ao “novo normal”, como indivíduo e sociedade. Mas como são construídos os nossos limites e até que ponto eles são elásticos? 

Willian Vieira 24 de Maio de 2020

Um dia os habitantes de Oran se viram trancados entre os muros da cidade, sem poder sair, encontrar os seus, tatear o mundo lá fora – novos limites que, aos poucos, foram se tornando o “novo normal”. “Nossos concidadãos haviam-se posto a par, tinham-se adaptado, como costuma dizer-se, porque não havia maneira de proceder de outro modo. Eles tinham ainda, naturalmente, a atitude da desgraça e do sofrimento, mas já não os sentiam.”

Quem diz é o narrador de “A Peste”, de Albert Camus, o livro de 1947 que voltou a ser bestseller em tempos de Covid-19 – ao descrever em detalhes uma epidemia que acometeu a cidade imaginária e seu decorrente confinamento. Mas a obra também serve como um ensaio existencial sobre a relação entre os limites impostos pela doença (ou qualquer adversidade que não controlemos, como indivíduo ou como sociedade) e a resiliência humana.

Na física, o conceito traduz o comportamento de um material após um trauma (como uma mola que se contrai e expande até voltar ao “normal”). Em psicologia, na educação e, cada vez mais, até nos negócios (e de formas muitas vezes sorrateiras), o termo tem sido usado para definir a capacidade de lidar com adversidades. Como os oranianos de Camus, a gente sofre, esperneia, mas se adapta. Nossos limites são mais elásticos do que parecem.

Com o vírus à espreita, a vida virou de cabeça para baixo e novos limites – espaciais, de movimento, de toque, de perspectivas – foram impostos da noite para o dia. E a pandemia acaba exacerbando a questão que já dominava o contemporâneo, sobretudo nas metrópoles, onde a vida é ditada pelo ritmo frenético do capitalismo: até onde vão nossos limites?

A genealogia do limite

Mais do que elásticos, eles são móveis. “A noção de limites vai se reeditando para o sujeito desde pequeno”, diz o psicanalista Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo. Haveria, diz, três fases na construção mental dos limites. “Primeiro habitamos a dialética do amor e da família, com sua moralidade pré-convencional.” Para uma criança, os limites são coercitivos: pode, não pode, sim, não. “Eles têm a ver com a pessoa envolvida, que é insubstituível em sua posição: pai é pai, mãe é mãe.”

Aos poucos interiorizamos a lei, criando hábitos e substituindo a regra imposta de fora pela autonomia: então nos vemos como participantes da construção de regras em uma lógica composta por relações de amizade e cooperação. “Quando comparo o meu limite com o do outro, entendo que eles têm história, geografia. E assim crio disciplina, entendo que há uma relação entre o caso e a regra.”

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Nossos limites são como uma membrana subjetiva que nos separa do fora, do outro. E só percebemos quando o limite é testado. A sensação de ser protegido some. E isso se configura como trauma

Por fim adentramos o universo do ordenamento jurídico e do sujeito de responsabilidade, “passando a negociar as regras em relações éticas e políticas.” O que envolve transgressões e retomadas, diz Dunker. “Criamos uma linha imaginária que não devemos cruzar, mas cruzamos. A partir dos efeitos dessa violação, reconfiguramos a relação entre regra e exceção, recompondo os limites de forma permanente.”

Para a psicanalista Sandra Baron, professora da Universidade Federal Fluminense e membro do Observatório Internacional de Pesquisas em Resiliência, “nossa noção de limites é como uma membrana subjetiva que nos separa do fora, do outro, do mundo”. É uma construção psicológica, cultural, invisível. E só percebemos a existência do limite quando ele é testado. “Então a sensação de ser protegido some. É uma invasão: seja uma pessoa, uma catástrofe, um vírus, é uma situação para a qual não temos repertório. E isso se configura como trauma.”

Três atitudes diante dos novos limites

De forma mais ou menos consciente, somos sempre convocados a lidar com o avanço sobre nossos limites. “A tarefa do eu é encontrar formas de enfrentar essa invasão”, diz Baron. Podemos aceitar a imposição passivamente, só resistindo; lutar teimosamente contra o novo limite; ou – mais indicado – ampliar nossas limitações para comportar a mudança. “Ou seja, agir de forma ativa, adaptando-se sem perder nossa subjetividade”.

O senso comum de que é preciso “dar conta” dos novos limites só gera traumas. “Resiliência não é resistir, se adaptar à adversidade de forma passiva, mas aprender a operar no obstáculo e sair maior dele. Por isso não adianta ficar preso na própria dor, só resistindo”, diz Baron.

Na contramão dessa sujeição existe a negação total dos limites. “Para manter o que se considera “normal”, muitos ignoram a mudança, defendendo com unhas e dentes sua identidade”, diz Baron. Vide a população que sai em carreatas a favor do presidente em tempos de pandemia. “Para manter os limites subjetivos, a pessoa nega parte da realidade”. E daí, adeus empatia.

Resiliência não é resistir, mas aprender a operar no obstáculo e sair maior dele. Por isso não adianta ficar preso na própria dor, só resistindo

Pois não existe só o “trauma espetacular”, a violência contra os limites fácil de identificar (um assalto, uma queda de avião). “Há traumatismos insidiosos, compostos por microtraumas do cotidiano”, diz a psicóloga. Uma pessoa que lida com falta de saneamento e excesso de violência desde que nasceu enfrenta os limites porque precisa sobreviver. “Colocar sobre ela o ônus da superação individual é cruel, e não funciona.”

Mas no meio do caminho entre sujeição e negação há a resiliência. Vide os profissionais de saúde que estão “no front”, ultrapassando os limites para salvar vidas. Eles ignoraram parte da realidade para seguir trabalhando: os riscos à vida, a estafa. “O que é em parte compensado por saberem que estão agindo sobre a realidade”, diz Baron. “E eles contam com uma rede de apoio, psicoterapia e práticas integrativas oferecidas pelo SUS. Ao partilhar suas tensões, recebem alimentos afetivos e se tornam resilientes.”

Os limites éticos: a minha vale mais do que a sua

Quando os limites são abstratos, a negociação sobre onde começa o seu limite e termina o do outro se complica. Vide o conceito universal de valor da vida. “É preciso defender a vida, mas de quem? A minha ou a sua? A dos meus familiares e amigos ou a de desconhecidos? A vida branca ou a negra?”, pontua Dunker.

Ao se contrapor o real e o ideal, chega-se à negação dos limites – no caso, o dos outros. “Nomear os limites é uma estratégia que ou lhes dá visibilidade ou os torna invisíveis”, diz Dunker. “É ‘dupla moral’: quando exerce restrição sobre mim, a lei é uma: quando exerce sobre o outro, é outra.” E assim o brasileiro dá um passo civilizacional atrás com o atual governo baseando os limites na lógica da família, não na ética universal.

O que explica a polarização atual. “Há grupos que saem às ruas pelo fim do isolamento. É uma afronta ao limite do outro. Mas eles sentem, inversamente, que os novos limites são uma afronta ao direito deles.” Um embate que poderia produzir a síntese, a negociação. “Seria a resiliência criativa coletiva, que inventa suplementos para o limite, permitindo sua expansão na sociedade.” O que depende de princípios éticos, que parecem ter ficado pelo caminho.

Os limites do individualismo

Ter um presidente negacionista não é exclusividade brasileira. “O presidente sai sem máscara na rua, diz que se você é forte como ele não chora, se adapta; não reclama, trabalha.” Quem afirma é a psicóloga Froma Walsh, professora da Universidade de Chicago e especialista em resiliência. Ela fala de Donald Trump. “Esse indivíduo que ignora a realidade e o limite dos outros impede um processo de cura e adaptação genuína.”

Trump é a encarnação do “rugged individual”, o sujeito autossuficiente que não respeita limites, noção arraigada na cultura americana — e posta em xeque na pandemia. “O Ocidental se construiu sob a ideia de independência do sujeito, mas isso reflete cada vez menos a realidade”, diz Walsh.

É o que alimenta o embate em torno da vacinação por lá: para funcionar, a imunização precisa contar com toda a sociedade, o que parece uma agressão ao individualismo mais arraigado. Ocorre o mesmo com a pandemia — para reduzir a transmissão é preciso impor limites a si pensando no sucesso geral da empreitada.

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O aprendizado fundamental dessa crise é que dependemos uns dos outros, mesmo à distância. É por meio dessas conexões que poderemos ser resilientes

“A resiliência criativa, que encontra soluções para problemas coletivos, só é possível de forma coletiva”, diz Walsh. “É o que se faz em tempos de guerra. E estamos passando por uma, contra o vírus. O aprendizado fundamental dessa crise é que precisaremos depender uns dos outros, mesmo à distância, para dar e receber o suporte vital para lidar com as questões que estão surgindo. É por meio dessas conexões que poderemos ser resilientes.”

E as pessoas estão se conectando, não só em bate-papos no Zoom e nos panelaços nas janelas, mas costurando máscaras para doar, organizando entrega de alimentos, fazendo lives. “Numa situação como essa, se você amplia os limites, é possível viver um alargamento do eu e sair de padrões neuróticos”, diz Baron. Quando entendemos que somos vulneráveis, que dependemos dos outros, que vivemos em rede, fica mais fácil ser resiliente.

Walsh foi “consultora de resiliência” em Nova Orleans após o Furacão Katrina. A cidade foi devastada, não se sabia o que o futuro traria. “Mas havia uma ideia sobre o que importava às pessoas. E a música era uma delas.” Então eventos musicais voltaram a pipocar, diz, permitindo que as pessoas se reconectassem, inclusive com a cidade. “O mesmo vale hoje, para comunidades e indivíduos.”

Em comunidades como a de Paraisópolis, em São Paulo, a concentração de pessoas e a falta de ação do Estado deixa a população vulnerável diante da pandemia –os moradores, então, instituíram lideranças e criaram redes de apoio para difundir informação, contratar médicos, distribuir comida e remédios. “Mesmo desamparadas, as comunidades criam mecanismos de conexão, de construção de sentido na relação com o outro”, diz Baron.

Quando se vive uma situação assim paradoxal — com muitos novos limites, de um lado, mas sem perspectivas, de outro — resta ressignificar os limites

É uma “resiliência criativa”, diz Dunker. A rotina, afinal, é um acumulado de pré-decisões, de coisas em que não se pensa mais. Quando a perdemos, precisamos construir uma nova rota de decisões. O que dá trabalho, cansa. “Mas nos dá a oportunidade de repensar a vida, perceber que a rotina antiga era sem pé nem cabeça, incongruente com o que queremos da vida.”

Em três décadas de pesquisa sobre resiliência, Walsh identificou como processo chave a “transcendência”, ou o que chama de “arte do possível”: se tornar criativo com os limites, tentar o inédito. “Afinal, o vírus está aí e nos empurra para novas formas de existir, conviver, trabalhar.”

Quando se vive uma situação assim paradoxal — com muitos novos limites, de um lado, mas sem perspectivas, de outro — a saída parece ressignificar os limites, diz. “É como um barco sem âncora no mar: vivemos a incerteza total sobre o futuro.” Como ser resiliente nesse contexto tão adverso? “Enfrentando o luto pela perda da forma como vivíamos e ressignificando os limites”, afirma. “Porque nosso normal nunca mais será o mesmo.”