Pandemia: previsões de como será a vida depois do coronavírus — Gama Revista
Como viver junto?
©Gettyimages

Caminhos possíveis em tempos de distanciamento social

Viver junto ganhou uma dimensão maior desde o novo coronavírus. Gama ouviu nomes de diferentes áreas para imaginar como será nossa vida em sociedade após o fim da pandemia

29 de Março de 2020

“Os aprendizados não vêm da experiência, mas do que a gente faz com ela”

Vera Iaconelli é psicanalista, mestra e doutora em psicologia pela USP e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise

  • G |Estamos em meio a uma situação de confinamento. Como não viver junto nos afeta?

    Vera Iaconelli |

    Por um lado, vamos nos isolar muito e, por outro, conviver muito. É uma situação de contato intenso e extenso com pouquíssimas pessoas. Cria-se uma situação paradoxal: alguns vão ficar realmente isolados, sozinhos, como é o caso dos idosos que conviviam com os netos; enquanto outros vão conviver intensamente com filhos e marido, em um esquema inédito. Não é uma situação de férias, mas de ter que entreter, cuidar, de não ter a ajuda de funcionários, de ter que ficar confinado no mesmo espaço físico. Para alguns soa promissor, vão pensar “finalmente vou poder resolver certas questões, lidar com certos entraves”; e para outros é desesperador. Para a maioria está sendo um pouco de cada coisa. Eu me preocupo muito com a saúde mental de profissionais de saúde, das pessoas de idade isoladas e com a saúde mental da população. Já há dados de um aumento de violência doméstica [na China]. Faz todo sentido, as pessoas não têm para onde escapar.

  • G |Existe algum lado positivo nisso tudo? Podemos tirar algum aprendizado?

    V.I. |

    Sim, coisas boas acontecerão também. No dia a dia, a gente tem uma série de atividades e obrigações que criam distanciamento entre as pessoas, que fazem com que uma relação perdure mais que o desejável. Vamos ter reencontros de intimidades que não existiam mais, grandes gestos solidários e altruístas que podem surpreender com certeza, como os vizinhos que começam a se ligar para ver se tem gente que precisa de ajuda. Aprendizados não vêm da experiência, mas do que a gente faz da experiência. Existe um potencial incrível de aprender algo com isso. Algumas pessoas aprenderam, outras não — senão não teria ocorrido a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. A experiência em si não forma. Mas, sim, o jeito como o sujeito lida com ela.


“Grupos que trabalham juntos estarão mais bem preparados para enfrentar a crise”

Jochen Volz é curador, crítico de arte e diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Foi curador da 32ª Bienal de São Paulo – Incerteza Viva (2016)

  • G |Como você prevê que o trabalho dos artistas ressurja depois desse período?

    Jochen Volz |

    Os artistas são produtores e fazem arte também apesar da crise, da dificuldade, da opressão. Sempre foi assim. Se a gente olhar historicamente para a arte, têm surgido outras maneiras de pensar e entender a forma artística. Eles irão descobrir outras maneiras de trabalhar. Algo que está acontecendo nessas últimas décadas é uma produção coletiva, compartilhada. Acho que vai ser muito difícil cada um por si trabalhando e tentando comercializar a sua produção. Vão inventar outras formas de dividir e distribuir. Não significa que todo mundo vai sentar agora no meio da crise para fazer algo em conjunto, mas, hoje, pensando a estratégia de trabalho coletivo autoadministrado, autogerido, auto-organizado, isso vai aumentar. Esses grupos que têm se estabelecido no Brasil e no mundo criando redes entre si provavelmente vão estar mais bem preparados para enfrentar essa crise. Esses que sempre trabalharam juntos vão sair fortes dessa. Pelo menos eu quero crer isso.

  • G |Como os períodos de crise costumam transformar o mercado da arte?

    J.V. |

    A cultura em si obviamente sofre muito, é uma indústria criativa. São muitas pessoas que vivem dentro desse sistema, que vai ser afetado. A gente sabe que muitos produtores independentes vão enfrentar uma fase com muita dificuldade, de não ter trabalho, não estar performando, dançando, tocando em clubes. Com certeza tem um impacto financeiro e material para todo mundo. Para as instituições em geral, esta é uma situação muito preocupante. É preciso que tenhamos muita calma e troca de ideias com outros pares para entender como enfrentar este momento. Os museus estão conversando entre si para entender o que vamos fazer. Existe uma rede de solidariedade entre as instituições para aprender e se inspirar nas estratégias dos outros. As instituições culturais são muito importantes nessa articulação de viver junto, um lugar de encontro de ideias e de linguagens e onde se cria uma imagem para um futuro em comum — esse é o papel da cultura.

“Cientistas e profissionais de saúde contribuirão de forma decisiva para a reconstrução da sociedade”

Marcia Thereza Couto é antropóloga e professora livre-docente do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP


  • G |A pandemia coloca a ciência no foco. Ela sairá fortalecida?

    Marcia Thereza Couto |

    Acredito que sim. Nas últimas décadas, temos visto conflitos entre os êxitos da ciência e da medicina, por um lado, e, de outro, uma desconfiança crescente por parte de alguns setores da população em relação ao conhecimento médico. O menosprezo inicial sobre a gravidade da atual epidemia é um exemplo emblemático. Somado a isso, governos em diferentes países têm investido cada vez menos na ciência, configurando uma crise sem precedentes na sua acreditação, valorização e defesa. Essa epidemia vem nos mostrar que os cientistas e os profissionais de saúde não só salvarão milhares de vidas mas contribuirão de forma decisiva para a reconstrução dessas sociedades. Os ataques conservadores têm sido intensos nos últimos anos. E acho que parte da culpa é nossa, da academia, dos cientistas: erramos na estratégia de comunicação do que produzimos para o público geral. O debate público sairá fortalecido com a pandemia, certamente.

  • G |Qual o aprendizado da sociedade com a epidemia?

    M.T.C. |

    Como escreveu o sociólogo Boaventura de Souza Santos, a pandemia agrava uma situação de crise que já atinge imensa parcela da população: a crise imposta pelo neoliberalismo, que sufoca as políticas de saúde, educação e previdência e deixa os governos menos preparados para enfrentar situações como esta. O que joga luz sobre a importância da saúde pública, particularmente no caso brasileiro. O SUS é o protagonista no enfrentamento da atual epidemia, assim como os institutos de pesquisa e as universidades. Então, primeiro, fica patente a importância do SUS, a necessidade de reforçá-lo e de valorizar o conhecimento em saúde produzido no país. Segundo, fica o aprendizado sobre a fragilidade do ser humano, sua vulnerabilidade, sua diminuta condição de ação individual diante do risco de epidemias globais cada vez mais frequentes. Percebemos que a pretensa segurança individual trazida pelo poder aquisitivo é quebrada quando a doença se instala e não há remédio ou vacina, apenas medidas assistenciais.

“Vivemos um problema de coletividade, não um problema individual”

Monica de Bolle, economista e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, de Washington


  • G |Como deve ficar a situação econômica do Brasil?

    Monica de Bolle |

    Diferentemente de outras crises que a gente conhece e viveu no Brasil, em que as causas são essencialmente econômicas ou vêm de dentro do sistema econômico, como crises bancárias ou cambiais, esta é uma crise de saúde pública. A gente nunca viu nada do tipo, é como um asteroide caindo no planeta. E por isso tem um poder de destruição enorme — de vidas, evidentemente, que é a coisa mais importante a ser assinalada nesta pandemia — mas também de destruição econômica. Porque para proteger as pessoas você precisa de medidas como o distanciamento social, a quarentena, e isso paralisa todo o sistema econômico. A crise de 2008, por exemplo, foi financeira e gerou uma paralisia por um tempo. Mas, sendo financeira, economistas e gestores de política econômica sabiam resolver. Esta, não. Está nas mãos dos infectologistas, cientistas, virologistas: estamos à espera de uma vacina para resolver. O papel dos economistas é ter um rol de medidas paliativas de sustentação econômica para os governos.

    O Brasil está correndo o risco de ter uma depressão econômica que deve durar um tempo muito longo, pode chegar a uma situação em que dezenas de milhões de pessoas ficarão desempregadas caso o governo não dê a sustentação devida. É fato que teremos recessão. A questão maior é: qual vai ser o tamanho? Isso depende do tamanho da reação do governo.

  • G |De uma perspectiva econômica, o que você acha que essa crise deixa de mudança para a sociedade?

    M.B. |

    Essa crise vai deixar evidente a questão da injustiça social no Brasil. Acho que a melhor forma de explicar como a desigualdade fica tão visível neste momento é pensar numa cena a que eu estava assistindo há pouco na televisão, dos camelôs do Rio de Janeiro recebendo cestas básicas de instituições de caridade e pessoas que foram para o centro da cidade tentar ajudá-los. É a expressão de pânico e de angústia no rosto dessas pessoas, que dependem de suas vendas e não têm o que fazer nesta situação. É esse tipo de exposição clara que esta epidemia vai deixar. Não vai ser mais possível não pensar nos vulneráveis, essa tendência que se tem de fingir que o Brasil é um país de renda média. Os problemas sociais vão estar na cara de todo mundo agora. Provavelmente, então, haverá uma atenção maior à construção e solidificação das redes de proteção social mundo afora, e no Brasil em especial. Eu espero que, independentemente da linha de pensamento, haja um consenso a favor de mais proteção social no pós-crise.


Entrevistas concedidas a Isabelle Moreira Lima, Laura Capelhuchnik, Luara Calvi Anic e Willian Vieira