O que aconteceu quando o celular invadiu sua vida profissional? — Gama Revista
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Trabalho

O que aconteceu quando o celular invadiu sua vida profissional?

©Surplus

O smartphone se tornou obrigatório em nossas vidas: mudou os rituais cotidianos e virou quase adendo do corpo. E também alterou o trabalho na era millennial, sobretudo em tempos de pandemia

Willian Vieira e Daniel Vila Nova 19 de Abril de 2020

Desde que o smartphone se tornou onipresente em nossa vida profissional, a questão que assombra o mercado é se estamos trabalhando mais pelo ou para o celular. Pois do entregador de delivery que recebe pedidos a qualquer hora ao chefe que demanda retornos pelo WhatsApp – todos o usam para trabalhar, num expediente sem limites. Para 83% das pessoas, diz um relatório da IBM, checar a telinha de manhã já é mais importante que a xícara de café.

Hoje, nove em cada dez brasileiros utilizam o seu para trabalhar fora do expediente, como mostra uma pesquisa da Deloitte. Ao mesmo tempo, 76% fazem uso do celular para fins pessoais durante o expediente. Ou seja: o smartphone borrou a fronteira entre trabalho e vida pessoal, modificando as relações laborais para sempre.

Trabalho e o tempo que deveria ser reservado ao ócio sempre se misturaram ao longo da história, afirma Jonathan Gershuny, diretor do Centro para Pesquisa de Uso do Tempo da Universidade de Oxford. A separação entre oito horas de trabalho e o resto de descanso é que seria uma exceção da era industrial. Mas agora todos têm um aparelho que aumenta de forma disparatada o tempo que o trabalhador fica disponível, diluindo seu foco e demandando atenção e conectividade totais.

Como se não bastasse, a pandemia de coronavírus fez da quarentena a nova realidade para centenas de milhões de pessoas mundo afora – e do home office, o novo normal para boa parte de nós. Assim, o smartphone ganhou ainda mais espaço como uma espécie de central existencial de nossas vidas, profissional e pessoal ao mesmo tempo. Mais do que nunca, é ele que define como existimos em sociedade. E dita como trabalhamos, o quanto e por quê.

"Uma vez nos disseram que a tecnologia libertaria as pessoas - e elas não teriam que trabalhar tanto..." *

Produzimos mais conectados o tempo todo?

Vivemos na era da produtividade medida em tempo real. Trabalhar das 9h às 18h já não é suficiente. Talento ajuda, estar sempre conectado, também, mas o que se espera no mercado é o hustle, diz o empreendedor americano Gary Vaynerchuk – em meios a gritos motivacionais num vídeo do Youtube. Assim ele define a cultura que começou no Vale do Silício e se espalhou com a hiperconectada geração Y: “Colocar todo seu esforço em atingir uma meta”, nem que, para isso, seja preciso “utilizar todo minuto disponível”.

As críticas à tendência são diversas, mas não há como negar: o trabalho ocupa um papel central da vida dos millennials (os nascidos entre 1981 e 1998), justamente por não se limitar ao espaço e tempo definidos. Tem até nome: workismo, a religião do trabalho. E o smartphone é peça fundamental dessa transformação. Vide o BYOD, ou Bring Your Own Device (“Traga seu próprio aparelho”), quando o funcionário utiliza o celular pessoal para o trabalho+.

Todos têm um aparelho que aumenta de forma disparatada o tempo que o trabalhador fica disponível, diluindo seu foco e demandando atenção e conectividade totais

De tão conectados, seriamos mais produtivos? Não, diz Ana Heloísa Lemos, professora de administração da PUC-Rio. “O que aumenta é a rapidez da resposta e o senso de urgência.” Até porque o trabalhador fica mais estressado, o que piora o resultado. “Não dá para relacionar o smartphone à produtividade, mas com burnout e estresse, sim.”

Tal uso disseminado não aumenta a produtividade, concorda Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, mas cria “novas modalidades de trabalho e oportunidades de inovação.” Um prestador de serviços que migra para o Whatsapp pode ter uma clientela maior (pois pode resolver a demanda de muitos clientes onde estiver, contatar muitos outros etc.) e reportar-se aos chefes à distância.

Em tempos de pandemia, porém, tal mobilidade se tornou vital, da noite para o dia, para a vida profissional de muita gente. De grandes varejistas a montadoras de carros, de cervejarias gourmet a feirantes: todos agora dependem do WhatsApp e do Instagram para contactar e captar clientes. O que parecia inovação e escolha, de repente, virou a única saída.

"Eu circulo por aí e ouço o tempo todo as pessoas dizendo: 'Tenho meu pager, meu celular, meu...'"

Uma geração distraída

Tudo está ao alcance da mão com um celular, então qualquer local e hora permite trabalhar. O que pode diluir a atenção e, paradoxalmente, prejudicar a produtividade (segundo a Deloitte, 44% dos brasileiros se distraem com o smartphone no trabalho). “Ele pode facilitar a vida, mas também pode torná-la uma eterna resolução de problemas fúteis”, diz Ilton Teitelbaum, coordenador do Núcleo de Tendências e Pesquisa da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS.

Se empresas com processos mais conservadores perdem tempo com reuniões e burocracias, as com esquemas flexíveis pautados pelo smartphone sofrem com a distração. “A perda de tempo virou questão endêmica nas organizações”, diz Alvaro Mello, presidente da International Work Transformation Academy e da Beca e-Work, especializada em soluções de trabalho. “É a força da cultura das redes sociais invadindo os ambientes corporativos.”

Pesquisas mostram que somos interrompidos até 60 vezes ao dia, gastando mais de quatro horas para gerir tais interrupções – 80% delas sem importância. Disso decorre “a perda da capacidade de discernir o que é urgente ou prioritário”, afirma Mello. Fora o desgaste mental de mudar de atividade. “A experiência demonstra que dá para trabalhar menos, com mais foco, e chegar a resultados melhores.” Sai o hustle, entra o ideal da otimização.

"Eu não consigo ficar longe do trabalho, de jeito nenhum. As pessoas acabam usando uma coleira eletrônica com todos esses novos dispositivos… elas estão cada vez menos separadas do trabalho e da tecnologia."

O millennial brasileiro versus seu smartphone

O smartphone concede uma flexibilidade total: com ele é possível falar com clientes e chefe por áudio ou vídeo no café; enviar relatórios e imagens na esteira da academia – bastam wi-fi e organização. Não à toa, trabalhar fora do escritório, em horários mais cômodos, é o desejo dos millennials americanos. Assim, a habilidade de moldar o emprego de acordo com expectativas e necessidades se tornou crucial ao negociar um contrato, mais até que cargos e salários. O mesmo valeria para o Brasil?

“Valeu por um tempo, quando havia pleno emprego. Até que o país mudou e junto, os anseios e medos”, afirma Teitelbaum. “Nosso jovem precisou de uma crise para se dar conta de que não valia para ele o modelo americano da felicidade no trabalho como segunda aspiração, sendo a primeira ter experiências.” Esse é o mantra da geração Y no mundo rico. Aqui, porém, a noção de um smartphone na mão e uma ideia na cabeça já não cabe.

No Brasil, os millennials são 50% da força de trabalho, segundo pesquisa do Itaú BBA deste ano. Até 2030, a geração que viu o smartphone se estabelecer como ferramenta de trabalho indispensável deve ocupar 70% do mercado. Mas o comportamento dos millennials brasileiros não é igual ao dos americanos: eles dão valor à casa própria (89%) e a bens como carro (51%) – mais que o dobro dos números globais –, em detrimento de viagens e tempo livre.

Até porque, com o desemprego assolando um quarto dos jovens e reformas recentes, como a trabalhista e a da Previdência, fragilizando garantias – fora o crescimento pífio registrado nos últimos anos, o que inibe a abertura de vagas e a inovação –, o cenário é outro.

O comportamento dos millennials brasileiros não é igual ao dos norte-americanos. O desemprego assola um quarto dos jovens e as reformas recentes, como a trabalhista e a da Previdência, fragilizam garantias

Numa realidade otimista, talvez esses jovens pudessem usar o smartphone para otimizar o uso do tempo e escolher onde trabalhar. “Hoje, quem se importa com a flexibilidade são os jovens que têm escolhas”, diz a professora Ana Heloísa. E, mesmo entre eles, o discurso pode ser enganoso. “O que tem ocorrido é as empresas usarem o mantra sedutor da flexibilidade como Cavalo de Troia: apresentam o flex time e o trabalho remoto como ganho, mas estendem a jornada. Adianta trabalhar onde e quando quiser, mas 12 horas por dia?”

"Essa é certamente uma ferramenta que pode aproximar as pessoas... o computador será a melhor ferramenta para que as pessoas possam socializar."

Trabalhamos mais, o tempo todo

A quantidade de dias que um britânico trabalha a mais sem perceber por causa do smartphone é de 29 dias, diz uma pesquisa realizada pelo CMI (Chartered Management Institute), em 2016. Se usarmos o dado como média, estamos trabalhando um mês a mais por ano por estarmos conectados o tempo todo. Não à toa, 61% das pessoas acreditam que é mais difícil se desligar do emprego por conta de celulares.

Assim, a disseminação do smartphone no mercado de trabalho trouxe a intensificação das demandas profissionais e “uma extensão considerável das horas trabalhadas além do expediente regular”, mostra uma pesquisa brasileira de 2014 conduzida por Ana Heloísa Lemos. “Ele gera um aumento da carga porque você acaba trabalhando mais, mesmo quando não é demandado.”

Como separar a vida profissional da pessoal quando o escritório agora é a mesa da sala, na qual seu cônjuge também trabalha e sobre a qual as crianças lancham

vai ser possível ficar em casa e trabalhar... apenas fazendo videoconferências com seus colegas de trabalho."

“Vivemos na época da urgência, e aprendemos que chegar tarde em casa, fazer home office no fim de semana ou estar sempre conectado é o preço a ser pago por uma carreira bem-sucedida”, afirma Mello. Pior: talvez queiramos mesmo fazê-lo, pois naturalizou-se a dissolução de fronteiras entre lazer e profissão.

O smartphone cristaliza um padrão workaholic que impacta a maneira como nos relacionamos e vivemos. Para Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), “o resultado disso é que as fronteiras entre trabalho e vida pessoal não existem mais.”

É o que tem ocorrido de forma brutal com a quarentena imposta a muita gente durante a pandemia do Covid-19. Afinal, como separar a vida profissional da pessoal quando o escritório agora é a mesa da sala, na qual seu cônjuge também trabalha e sobre a qual as crianças lancham ou montam um Lego aos gritos? E o que fazer se o mesmo aparelho vibra igual quando chega a mensagem do chefe ou quando um colega manda um vídeo de gatinho?

"O computador será a melhor ferramenta para permitir às pessoas socializarem... mais que... isolá-las."

E depois da pandemia?

Hoje, no auge da pandemia, as responsabilidades, tanto do empregado quanto do empregador são aprendidas na marra. Mas depois do lockdown, com empresas até de setores tipicamente presenciais reavaliando o trabalho remoto, como ficará nossa relação com o smartphone? Como tudo em se tratando do tema, um novo paradoxo pode surgir justamente onde menos se espera.

“Depois desse momento em que fomos obrigados a juntar trabalho e lazer de forma tão radical, talvez as pessoas queiram separar mais o pessoal do profissional”, diz Teitelbaum, que é sócio da Trendsity, que analisa tendências de mercado. “Inicialmente, ao menos, todos vão querer não só buscar o toque, o encontro físico, a convivência direta, mas também dedicar mais tempo pra si, longe do trabalho misturado à diversão que existe no celular.”

Claro, o smartphone seguirá com um papel central na vida de todos nós. “Ele substitui dezenas de gadgets que usávamos antes, então essa convergência tecnológica continua”, diz. “O que talvez aprendamos é que a diferença entre o veneno e o remédio é a dose.”